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5 álbuns de rap nacional que merecem ser reeditados

[TEXTO] Luís Almeida [FOTO] Francisco Gomes 

Recentemente assistimos ao lançamento da remistura de um dos temas mais clássicos de Eminem. Falo, claro, de “Infinite”, tema que dá nome ao primeiro álbum do rapper de Detroit, lançado em 1996, 3 anos antes do projecto que o levaria até ao estrelato. Passaram 20 anos e a remistura é justificável pela contextualização. É um marco histórico na carreira de Eminem e, por isso, é uma excelente maneira de celebrar esse facto, tal como mostrar aos novos fãs o início do trabalho do rapper icónico que muitos não conhecem.

Será que existem álbuns que merecem uma remistura ou uma reedição? Claro que sim, não existe qualquer dúvida! O hip hop português é muito rico e, apesar das dificuldades do início, existem trabalhos muito bem-feitos, outros nem tanto, mas o talento está presente. Para fazer uma comparação, em 1996 o hip hop em Portugal ainda era uma cultura marginal, não tinha o poder que já tinha nos Estados Unidos, muito longe disso até. Para pormos as coisas em perspectiva, o Rapública tinha saído dois anos antes e estávamos no fundo ainda a dar os primeiros passos na cultura. Portanto, é bastante normal haver alguns álbuns dessa época com muito potencial que, por causa de meios precários ou não, foram gravados um pouco aquém da qualidade que poderiam almejar com outras condições técnicas. Por estes motivos, propomos 5 trabalhos que mereciam ser revistos ou, pelo menos, relançados para que a história não se perca e seja revista com outros olhos.

 


[VÁRIOS] Rapública (1994)

A primeira compilação de rap português. Só isso é motivo suficiente para ter uma remistura ou reedição. Conta com grandes nomes da época: Boss AC, Black Company, Funky D, Zona Dread, entre outros. O tempo não foi muito simpático com este trabalho e o álbum é, para as gerações mais novas, bastante difícil de mastigar. Ainda assim, Rapública não deixa de ter máxima importância. Uma remistura poderia trazer estes rappers para 2016 com uma nova força ou em alternativa fazer uma nova versão – Rapública 2017, onde se juntariam os nomes mais sonantes da actualidade com os rappers de 1994. Fica a ideia.

 


[BLACK COMPANY] Geração Rasca (1995)

Grupo mítico que muito deu ao hip hop em Portugal. Lançou o seu primeiro trabalho em 1995, depois do grande sucesso com o single “Nadar”, que fez parte da colectânea Rapública. Geração Rasca é um álbum bastante bem humorado (“Pura Ressaca”), o que era bastante habitual para os Black Company, mas também continha alguns temas mais interventivos (“Geração Rasca” ou “Sero+”) como era apanágio da época. Instrumentais cheios de energia, rimas e flows a funcionarem de forma exímia. Sente-se a grande sinergia do grupo e a enorme vontade que tinham de fazer boa música. É um álbum que pode ser por vezes esquecido devido ao destaque que o segundo trabalho, Filhos da Rua, teve, mas que em nada fica atrás. Envelheceu muito bem e ainda fala de alguns assuntos relevantes hoje em dia. É um clássico e por isso mesmo merece ser ouvido por muito mais gente.

 


[DEALEMA]  Expresso do Submundo (1996)

Mais uma estreia, mais um grupo mítico que aparece em 1996 com um trabalho bastante maduro para um colectivo que ainda estava a dar os primeiros passos. Passados 20 anos, os Dealema continuam presentes e com muita força para continuar a lançar projectos de qualidade, como sempre nos habituaram. Expresso do Submundo é um álbum ao estilo de DLM: cheio de rimas repletas de figuras de estilo, beats simples, mas pesados que nos fazem lembrar um pouco o que se fazia em Nova York na altura. É um clássico que faz parte da história do hip hop e, apesar de recentemente ter sido reeditado em cassete e lançado na íntegra no SoundCloud da banda, ainda nos falta a versão CD para conseguiremos realmente apreciar este EP como deve ser.

 


[SAM THE KID] Entre(tanto) (1999)

É o primeiro álbum de Sam The Kid. O primeiro e o começo de um legado impressionante, o motivo pelo qual temos Sobre(tudo), Beats Vol.1, Pratica(mente), Orelha Negra e todos os outros projectos em que STK está envolvido. É o primeiro e ninguém acerta à primeira, mas este álbum tem algo especial. Foi totalmente produzido por Sam The Kid, com equipamento bastante limitado e gravado em casa, no famoso quarto mágico. Não são, claramente, as melhores condições – lembrem-se que a tecnologia ainda estava bastante atrasada – para se gravar um álbum, mas, mesmo assim, é um trabalho interessante com algumas faixas memoráveis, como por exemplo “Tempestade” ou mesmo “Xeg e Sam (Só mais uma jam…)”. O talento está todo lá; só faltavam as condições. Uma reedição seria muito bem-vinda, ainda mais sendo um álbum extremamente raro e que faz falta nas nossas colecções.

 


[CHULLAGE] Rapensar (Passado, Presente e Futuro) (2004)

Sempre que surge o assunto das reedições em Portugal no círculo de amigos, este álbum aparece recorrentemente na conversa e quase nunca pelos melhores motivos. O segundo trabalho de Chullage foi extremamente bem recebido, a primeira edição esgotou muito rapidamente e ainda foi eleito o melhor álbum do ano para os leitores da revista Hip-Hop Nation. É um álbum muito bom, que se foca bastante em questões sociais, como é apanágio de Chullage, e os beats revelam bastante qualidade e muitas vezes ganham destaque por oposição à voz. O maior problema com este álbum e principal motivo de aparecer em conversa é o desequilíbrio sonoro ao nível da mistura, incapacitando muitas vezes o ouvinte de entender o que está a ser dito. É pena que assim seja, porque é um trabalho com um grande potencial, dos poucos álbuns duplos do rap português que nos deu clássicos como “National Ghettographik” ou “Ignorância XL”. Merece uma remistura para que tenhamos estes problemas resolvidos e possamos apreciar da melhor forma um grande álbum que certamente deixa a sua marca na história do rap português.

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