Há músicos de jazz que passam uma vida inteira a aperfeiçoar uma linguagem ou a estudar de forma obsessiva um qualquer período histórico, mas Benjamin Herman preferiu passar a sua carreira a viajar ente idiomas. Aos 57 anos, o saxofonista neerlandês continua a recusar zonas de conforto com a mesma naturalidade com que muda de contexto, de colaboradores ou de referências. Figura central do jazz europeu das últimas três décadas, tanto pode surgir associado ao universo sofisticado dos New Cool Collective como aparecer mergulhado na energia punk de Bughouse, a revisitar o legado de Misha Mengelberg ou a explorar os territórios onde o free jazz, a no wave, a electrónica e a improvisação se cruzam.
Nascido em Londres e criado nos Países Baixos, Herman recebeu o primeiro saxofone durante o seu bar mitzvah e cedo percebeu que a música seria mais do que uma vocação. Aos 17 anos já actuava no North Sea Jazz Festival e tornou-se o único músico europeu da sua geração a ser selecionado para a prestigiada Thelonious Monk Competition, percurso que o conduziria à Manhattan School of Music, em Nova Iorque.
Desde então construiu uma discografia tão extensa quanto imprevisível. Ao longo do caminho cruzou-se com nomes tão distintos como Paul Weller, Tony Allen, Han Bennink, Idris Muhammad, Candy Dulfer, John Cooper Clarke ou o guitarrista japonês Otomo Yoshihide. Com os New Cool Collective ajudou a aproximar o jazz de novos públicos sem nunca abdicar da exigência artística; em projectos paralelos como Bughouse expôs o fascínio por linguagens mais abrasivas e experimentais. Entre homenagens ao cinema, ao automóvel Citroën SM ou ao futebolista Johan Cruyff, bandas sonoras, discos orquestrais e explorações do cancioneiro de Misha Mengelberg, Herman construiu uma obra marcada por uma curiosidade permanente e por um gosto assumido pela deriva.
Essa inquietação estende-se também à sua actividade fora dos palcos. Desde 2006 organiza as sessões semanais do De Kring, em Amesterdão, um importante ponto de encontro entre gerações de músicos, e desde 2019 apresenta o programa radiofónico Get In! na NPO Soul & Jazz, plataforma através da qual tem dado visibilidade a uma nova vaga de artistas da cena internacional.
Em 2024, o seu percurso foi reconhecido com o Edison Jazz Oeuvre Prijs, uma das mais importantes distinções atribuídas nos Países Baixos a uma carreira no jazz. Mas a ideia de abrandar parece não fazer parte do seu vocabulário. O mais recente capítulo dessa longa viagem chama-se The Tokyo Sessions, álbum editado em março de 2026 pela Dox Records.
Gravado no Studio Dede, em Tóquio, ao lado do seu trio — formado por Jimmi Jo Hueting e Thomas Pol — e de convidados como Otomo Yoshihide, Tomoaki Baba, Shinpei Ruike, Ko Ishikawa e Akihito Obama, o disco resulta de uma relação de mais de três décadas com o Japão. Longe de qualquer exercício de exotismo, The Tokyo Sessions procura capturar as múltiplas camadas da cultura japonesa contemporânea: a tradição e a vanguarda, os instrumentos ancestrais e os sintetizadores, o jazz espiritual e a radicalidade da cena underground. À margem da apresentação do álbum, conversámos com Benjamin Herman sobre essa longa obsessão pelo Japão, o papel do desconforto na criação artística, o seu trio actual e a influência inesgotável de John Coltrane.
The Tokyo Sessions nasceu de uma relação antiga com o Japão. Quando percebeu que essa ligação tinha de dar origem a um disco?
A ideia está comigo há muito tempo. Vou ao Japão desde 1989 e, desde então, fui criando amizades, conhecendo pessoas e ligando-me à cena local. Há muitos músicos interessados em tocar no Japão e em conseguir concertos por lá, mas eu queria que fosse mais do que isso. Queria fazer algo em conjunto com músicos japoneses e criar uma relação verdadeira, que funcionasse nos dois sentidos. Não apenas ir tocar ao Japão, mas também trazer músicos japoneses para a Holanda. Acredito muito nesse tipo de relação. Foi algo que também fiz com músicos ingleses, belgas e com amigos que fui encontrando ao longo do caminho. Há cerca de 15 anos comecei a tentar concretizar esta ideia. Fiz alguns contactos, tentei organizar gravações, mas inicialmente queria fazer um disco mais straight-ahead e isso acabou por não resultar da forma que imaginava. Percebi que precisava de conhecer outras pessoas e de procurar uma direção diferente. Há cerca de dois anos decidi avançar seriamente. Fui a Tóquio conhecer músicos, fazer novos amigos e deixar que o projeto se desenvolvesse. É assim que costumo trabalhar. Não parto de um conjunto de temas à procura dos intérpretes certos. A ideia vai-se transformando lentamente numa espécie de projecto artístico mais amplo.
O que continua a fasciná-lo na cultura japonesa depois de tantos anos de contacto com o país?
Quando falamos de Japão, é impossível não pensar nos jazz kissa. Alguns desses espaços também têm concertos e lembro-me de estar sentado com proprietários que colocavam discos em sistemas JBL vintage incríveis e me mostravam música japonesa que eu nunca tinha ouvido. A verdade é que, ao longo dos anos, fui percebendo que sabia muito menos sobre a música japonesa do que imaginava. Existe a música tradicional, a música experimental, o jazz espiritual, a cultura de clubes, o anime, a pop japonesa. É um universo gigantesco. Curiosamente, quanto mais aprendia sobre a história do jazz japonês, mais difícil se tornava imaginar que tipo de disco queria fazer. Fiquei quase obcecado com o assunto. E isso também explica porque demorei tanto tempo a concretizar o projecto. Chegou um momento, há dois anos, em que pensei: “Tenho de fazer alguma coisa com isto agora, caso contrário vou continuar a falar deste disco durante mais dez anos sem nunca o gravar”. O que me fascina é a forma como os japoneses absorvem a cultura ocidental e a transformam em algo completamente seu. Tudo parece familiar, mas ao mesmo tempo é tudo tão profundamente japonês. Acontece o mesmo quando caminhamos por Tóquio. À primeira vista parece uma cidade muito ocidental, mas tudo funciona de forma diferente. Essa tensão entre o familiar e o estranho continua a fascinar-me.
Quanto mais conhecia o Japão, mais difícil se tornava fazer este disco?
Sem dúvida. Quanto mais aprendia sobre a história do jazz japonês, mais difícil era imaginar uma direção musical. A tradição é tão rica e tão diversa que comecei a sentir o peso de todas essas referências. Por isso mesmo, quando finalmente decidi gravar, percebi que não podia limitar-me a uma única visão do Japão. Tinha de aceitar a complexidade do país e deixar que todas essas influências coexistissem no mesmo projeto.
The Tokyo Sessions mistura jazz livre, electrónica, sampling, new wave e improvisação. Essa abordagem já estava definida desde o início?
Não. O que estava definido era aquilo que eu não queria fazer. Não queria gravar um disco straight-ahead. Já tinha trabalhado com a fantástica pianista Mayuko Katakura, que veio tocar à Holanda comigo, e até gravámos um álbum juntos com as minhas composições. Gostei muito do resultado, mas sentia que não era esse o caminho para um disco inspirado pelo Japão. Foi então que comecei a conversar com o meu trio, sobretudo com Jimmi Jo Hueting. O Jimmi é um baterista extraordinário, mas também um excelente produtor. Quando lhe apresentei algumas das ideias que tinha em mente, ele respondeu simplesmente: “Vamos fazê-lo”. A partir daí deixou de haver volta atrás. Foi ele quem me ajudou a tomar decisões, a confiar nas minhas intuições e a não me preocupar demasiado com o resultado final. Eu falava de sampling, de free jazz, de eletrónica, de diferentes referências, e ele dizia: “Ótimo. Então vamos misturar tudo isso”. Essa discussão conjunta foi muito importante para me libertar.
O Studio Dede e Akihito Yoshikawa tiveram um papel central na gravação. De que forma influenciaram o resultado final?
Influenciaram tudo. Quando fui a Tóquio fazer pesquisa, no ano anterior às gravações, vários músicos recomendaram-me que falasse com Akihito Yoshikawa. Quando chegámos ao Studio Dede percebemos rapidamente porquê. Ele conhece praticamente toda a gente. Trabalha com músicos como Shuya Okino, Big Yuki, Shun Ishiwaka e muitos outros. Assim que nos instalámos no estúdio começou a sugerir pessoas: “Talvez devam ligar a este músico. Talvez este instrumento funcione bem aqui”. Foi assim que chegámos ao tocador de shakuhachi Akihito Obama, ao mestre de sho Ko Ishikawa e ao saxofonista Tomoaki Baba. Mais importante ainda: todos eles conheciam o estúdio e sentiam-se confortáveis naquele ambiente. Não estavam a entrar num espaço desconhecido. Havia uma sensação de confiança e familiaridade que acabou por ser fundamental para a música.
O disco consegue equilibrar tradição e modernidade sem cair em clichés. Era uma preocupação sua?
Sim. Queria muito evitar uma abordagem demasiado óbvia ou demasiado espiritualizada do Japão. Foi algo que também discuti com Big Yuki. Muitos músicos japoneses são cautelosos em relação à forma como a sua cultura é frequentemente representada em projetos ocidentais. Por isso tentei não fazer um disco que soasse simplesmente “japonês”. Queria algo contemporâneo. Ao mesmo tempo, o Jimmi teve um papel importante nessa procura. Ele é um grande admirador da Yellow Magic Orchestra, de Ryuichi Sakamoto e de toda aquela visão futurista da música japonesa dos anos 80. Tem uma coleção enorme de sintetizadores vintage e trouxe essa energia para o projeto. Mas também queria que o disco refletisse outra dimensão do Japão: a sua tradição experimental, radical e subterrânea. Por isso a improvisação e o free jazz tornaram-se tão importantes para o resultado final.
Essa dimensão mais radical da música japonesa impressionou-o particularmente?
Muito. Uma das experiências musicais mais marcantes da minha vida foi assistir a um concerto de Otomo Yoshihide com Keiji Haino no Club Goodman, em Akihabara. O volume era inacreditável. Quando saí do clube estava completamente anestesiado pelo som. Nunca tinha vivido nada parecido. Há uma energia muito particular na cena underground japonesa. Os sistemas de som são enormes, os concertos são extremamente intensos e existe uma radicalidade que é diferente da tradição europeia do free jazz. Na Holanda, mesmo a música mais livre costuma conservar algum humor ou alguma ligação ao swing. No Japão encontrei algo mais extremo e mais físico. Também queria que essa experiência estivesse reflectida no disco.
O trio que forma com Jimmi Jo Hueting e Thomas Pol tornou-se o núcleo deste projecto. Como evoluiu essa relação?
Toco em formato de trio há quase trinta anos, embora com diferentes músicos. Durante muito tempo trabalhei dentro de uma linguagem mais ligada ao jazz tradicional. Depois comecei a interessar-me cada vez mais pela música de Misha Mengelberg e a incorporar elementos de free jazz no repertório. Quando Thomas Pol entrou para o grupo, por volta de 2017 ou 2018, eu já sentia vontade de introduzir outras referências e ritmos mais directos. Gostava de swing, continuo a gostar, mas sentia que já tinha explorado bastante esse território. O Jimmi chegou nessa fase e trouxe uma perspectiva completamente diferente. Adora jazz, mas não é um purista. Tem ligações à música pop, à produção electrónica e a outros universos sonoros. Graças a ele comecei finalmente a integrar influências que há muito me interessavam, como James Chance, os Lounge Lizards de John Lurie ou a energia da no wave nova-iorquina. A partir daí o trio começou a transformar-se gradualmente no grupo que é hoje.
Jimmi Jo Hueting parece ter sido mais do que apenas o baterista deste disco.
Sem dúvida. O Jimmi foi uma das pessoas mais importantes em todo o processo. Quando começámos a tocar juntos ainda estávamos a interpretar algum repertório antigo. Mas ele começou imediatamente a sugerir novas possibilidades. Dizia-me que podia levar samplers para os concertos, gravar sons em tempo real, usar electrónica, experimentar outras abordagens. É uma pessoa que está constantemente a empurrar-me para territórios desconhecidos. E isso é algo que valorizo muito. Há músicos que nos fazem sentir confortáveis. O Jimmi faz precisamente o contrário. Obriga-me a encontrar novas soluções.
Aos 57 anos continua a procurar situações que o deixem desconfortável?
Sim. Na verdade, é precisamente isso que procuro. Quando comecei a tocar bebop sentia-me desconfortável porque todos os músicos à minha volta eram melhores do que eu. Mais rápidos, mais experientes. Aos poucos fui encontrando a minha própria voz e criando um espaço onde me sentia confortável. Mas depois percebi que gosto desse momento inicial de desconforto, quando as soluções habituais deixam de funcionar. Aconteceu, por exemplo, quando comecei a tocar com Olaf van den Berg, baterista da banda punk Seeing Red. Tudo era tão rápido e tão intenso que nada daquilo que eu costumava tocar funcionava. Isso obrigou-me a pensar de forma diferente. Tenho 57 anos. Poderia ficar na minha zona de conforto e tornar-me uma espécie de lenda local do bebop holandês. Mas não queria isso porque me fazia sentir velho. Prefiro continuar a colocar-me em situações onde tenho de aprender alguma coisa nova. Quando aquilo que sei já não chega, sou obrigado a encontrar outras soluções. É aí que as coisas continuam interessantes.
Como pretende transportar The Tokyo Sessions para o palco?
Já demos um primeiro passo com uma digressão de nove concertos ao lado de Big Yuki. Foi uma espécie de teste para percebermos como esta música funcionava em palco. Voltaremos a trabalhar com ele no North Sea Jazz Festival e, mais tarde, vamos apresentar concertos com Tomoaki Baba, que é muito conhecido no Japão, embora ainda pouco conhecido fora do país. Ao mesmo tempo continuo empenhado em criar pontes entre as cenas japonesa e neerlandesa. No Bimhuis, em Amesterdão, estou a programar uma série dedicada a músicos japoneses. A ideia é precisamente essa: criar uma troca verdadeira entre os dois países e dar visibilidade a artistas japoneses junto do público europeu.
Há ainda uma curiosidade logística: o disco foi gravado no Japão, assinado por um músico neerlandês e prensado em Portugal. Como aconteceu isso?
Foi uma questão de circunstâncias. Inicialmente íamos prensar o disco numa fábrica perto de Lisboa, mas a unidade sofreu danos provocados pelas tempestades. Nessa altura, Jorge Alvarez, da Audio Wax, disponibilizou-se para assumir o trabalho e garantir que tudo ficava pronto a tempo do lançamento. Como não podíamos esperar mais, acabámos por seguir esse caminho. Viajei até Portugal com o meu irmão gémeo para acompanhar o processo e filmar a prensagem. Foi uma experiência muito divertida.
Este ano assinala-se o centenário de John Coltrane. O que representa para si o seu legado?
É algo quase impossível de compreender. Se olharmos para a sua carreira, percebemos que a transformação que viveu enquanto saxofonista ao longo de cerca de dez anos é absolutamente extraordinária. Tenho amigos obcecados pelo Coltrane de 1958. Outros dedicam a vida inteira ao Coltrane de 1962. Outros ainda ao Coltrane dos primeiros anos. Pode escolher qualquer fase da sua carreira e passar décadas a estudá-la. O mais impressionante é que ele fez tudo isso numa única vida e num período relativamente curto. Evoluiu de forma constante e radical. Eu próprio sou um homem de Charlie Parker. Adoro Johnny Hodges, Benny Carter, Ornette Coleman, David Sanborn, Hank Crawford e muitos outros saxofonistas. Mas Coltrane ocupa um lugar único. Há tanta informação na sua música, tantas ideias e tantas possibilidades de estudo que é impossível escapar à sua influência. Faz parte da formação de qualquer saxofonista. Morreu aos 40 anos e, ainda assim, deixou uma obra tão vasta que podemos passar uma vida inteira a tentar compreendê-la. E mesmo assim sentir que apenas tocámos a superfície.