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Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 13/05/2026

Música aventureira reduzida a pó.

Festival Profound Whatever’26: A Moagem, no Fundão, como centro vivo de descoberta permanente

Fotografia: Vera Marmelo
Publicado a: 13/05/2026

Já sabemos como vai ser a edição de 2026 do Festival Profound Whatever. João Clemente explicou tudo de forma muito clara na entrevista que nos concedeu: “A programação do festival assenta em 3 pilares: elementos do colectivo [quem está a criar tem de ter palco]; conexões entre elementos do colectivo e músicos externos [criação de grupos formados propositadamente para o Festival]; músicos e grupos que admiramos e gostaríamos de ouvir ao vivo. O Festival tem uma linha de programação que valoriza a música com um carácter irrepetível e momentâneo, mas não está fechado sobre isso. Um fio condutor que define a curadoria do festival é o seguinte: os concertos são sequenciados e organizados na perspectiva de alguém que vai assistir a todos os espectáculos, tentando criar um percurso surpreendente num alinhamento nada óbvio, mas estimulante”.

É uma maratona, portanto, e não uma série de corridas rápidas, umas com e outras sem barreiras; umas de 100 metros, outras de 400 ou 1000. Percebem, certamente, a ideia. Serão três dias com quase uma vintena de muito distintas apresentações ligadas, de facto, por esse permanente espírito de aventura e invenção, por parte dos músicos, e de espanto e descoberta, por parte do público. Acontece, como Clemente também refere na já citada entrevista, que os músicos convocados também são parte do público, o que significa que além de tocarem para nós – aqueles que se “limitam” a escutar, a pensar e a processar emocional e criticamente aquilo que é tocado –, estes artistas também tocam para si mesmos, uns para os outros. É impossível deixar de pensar que Edgar Ferreira, aka ETKAR, sobre quem recairá a já tradicional missão de encerrar o festival, quando fizer soar as primeiras notas da sua apresentação, ecoará de alguma forma tudo aquilo que ele próprio escutou numa espécie de resumo/conclusão de toda a matéria sonora que nos será oferecida ao longo de três dias que se adivinham muito intensos.

É, portanto, de comunidade que este Profound Whatever também trata: aqui há um conjunto muito criativo e livre de músicos que tocam, sozinhos ou em conjunto, mas sempre uns para os outros, músicos que se desafiam e surpreendem mutuamente, que apontam caminhos uns aos outros, que se inspiram comunalmente. E isso é de louvar, pois claro. 



O festival arranca já esta quinta-feira com o Colectivo Profound Whatever (Auditório, 21h00) a apresentar Doze Formas de Cair. Catarina Silva (trompa), Gabriel Neves (guitarra oitava), Gonçalo Alves (bateria), Jesuíno Simões (voz e electrónica), Nuno Jesus (guitarra), Nuno Santos Dias (piano) e Vasco Fazendeiro (percussão), sob condução de Gonçalo Baptista, propõem-se dialogar com Pieter Bruegel e com a sua pintura Doze Provérbios. Não se tratará tanto de criar banda sonora para uma obra do mestre flamengo do século XVI, mas antes de usar essa pintura como mecanismo de activação imaginativa, como dispositivo para desencadear associações, reacções, tensões e desvios. Sendo este um festival que acredita na música enquanto acontecimento, faz sentido que a abertura seja precisamente um gesto de interpretação colectiva, quase uma declaração de intenções.

A seguir, o Trio AVC (Foyer, 22h00) – João Almeida (trompete e electrónica), Duarte Ventura (vibrafone e electrónica) e António Carvalho (bateria) – promete levar essa lógica para território mais abstracto. Trompete, vibrafone, bateria e electrónica compõem uma arquitectura tímbrica pouco convencional, ideal para testar equilíbrios delicados entre estrutura e impulso, entre composição implícita e invenção livre e instantânea. Há projectos que parecem nascer precisamente para contextos como este, em que a escuta atenta do público é parte activa da equação.

O mesmo se poderá dizer do Quarteto Nó (Museu, 22h45), com Catarina Silva (trompa), Manuel Guimarães (piano), Mário Rua (bateria) e Paulo Chagas (flauta e saxofone). Aqui, o interesse parece residir menos na afirmação individual e mais na microdinâmica colectiva: como se constrói tensão através da escuta, como se produz narrativa através do detalhe tímbrico, como se faz avançar música sem recorrer necessariamente às convenções habituais de progressão ou resolução. O espaço museológico parece, aliás, apropriado para este tipo de experiência de observação minuciosa. Redomas excluídas, pois claro.

A primeira noite inclui ainda no seu programa um desvio particularmente sugestivo com “Leiria Existe, mas só um Bocadinho” (Exterior, 23h30), leitura encenada de textos de Mário-Henrique Leiria com João Figueira e Pedro Santos, acompanhados pela música instantânea de João Clemente. O gesto faz sentido num festival que nunca quis encerrar-se num conceito estreito de música improvisada ou exploratória. O surrealismo de Leiria, a sua lógica enviesada e inquietante, parece terreno fértil para uma proposta em que palavra, interpretação e música ao vivo possam contaminar-se mutuamente.



A segunda jornada, que ocupará boa parte da próxima sexta-feira, abre com Made of Bones com José Lencastre e Luís Vicente (Auditório, 21h00). Duarte Fonseca (bateria), João Clemente (guitarra) e Nuno Santos Dias (Waldorf) recebem dois dos mais sólidos improvisadores nacionais para aquilo que tudo indica ser um encontro de alta intensidade. Com Lencastre (saxofone) e Vicente (trompete) envolvidos, dificilmente se esperará complacência ou zonas de conforto; com a base do trio, também não. Este parece daqueles concertos em que a energia se constrói por combustão interna, através de decisões instantâneas e reacções musculares. Convém ir preparado, porque, realmente, este encontro promete.

Depois, o ambiente muda com Matthieu Ehrlacher (Museu, 22h00) e o seu Blow my mind until the light becomes Sound. O título já sugere transformação perceptiva, dissolução de fronteiras sensoriais, algum grau de hipnose até. O solo improvisado do membro de dUASsEMIcoLCHEIASiNVERTIDAS (que a solo assina como blow my mind until the light becomes sound) promete ser um exercício de manipulação de espaço, expectativa e percepção, em que a matéria sonora se reorganiza continuamente sem oferecer ao ouvinte pontos fixos de conforto.

No Água em Estado Sólido (Foyer, 22h45), Jesuíno Simões e João Lucas apresentam-se num formato que cruza electrónica, manipulação de fita e efeitos. O nome do projecto já contém paradoxo suficiente para percebermos a direcção estética: transformação de estados, suspensão de categorias, matéria em mutação. Sendo uma estreia em palco, existe ainda essa tensão suplementar que frequentemente torna tudo mais imprevisível e, por isso mesmo, mais interessante. A ideia da surpresa absoluta – talvez até para os intervenientes mais directos – ganha aqui uma manifestação clara.

A noite de sexta culmina depois com Gold Mother (Auditório, 23h30), projecto que junta Margarida Azevedo (voz), Luís Guerreiro (trompete e electrónicas), Jorge Nuno (guitarra), Hernâni Faustino (contrabaixo) e Flak (bateria). Spoken word e improvisação podem ser combinação arriscada, sobretudo quando nenhuma das linguagens é instrumentalizada em função da outra. Mas é precisamente esse risco que torna esta proposta apelativa: a possibilidade de a palavra não ilustrar a música nem a música comentar a palavra, antes coexistindo num campo de tensão produtiva, por vezes íntima, por vezes abrasiva.



O sábado, derradeira etapa desta maratona, começa cedo e com ambição. Toupeira Guilhotina (Exterior, 14h30), com Bernardo Rocha (voz, trompete e objectos), Gonçalo Alves (bateria), João Clemente (guitarra), José Vale (guitarra) e Nuno Jesus (baixo), surge como entidade mutante, projecto de formação flexível onde palavra, improvisação e gesto colectivo se reinventam a cada novo encontro. O próprio nome sugere qualquer coisa entre subterrâneo e abrupto, entre escavação e ruptura. Parece apropriado para abrir a mais longa jornada do festival.

Logo depois, Miguel Calhaz (Foyer, 15h00) oferece uma presença diferente. O percurso deste contrabaixista e vocalista entre o jazz, a música portuguesa de raiz tradicional e outras geografias sonoras mais improváveis sugere um concerto talvez menos frontalmente experimental, mas não menos intrigante. Num cartaz destes, a diversidade também se mede pela forma como diferentes tradições e linguagens se aproximam.

Segue-se Mané Fernandes (Foyer, 16h00), guitarrista e compositor cuja ideia de “Post-Beat Aesthetics” denuncia desde logo recusa de compartimentos estanques. Se para ele Busta Rhymes e John Coltrane pertencem à mesma conversa, como refere o programa oficial do festival, então o que aqui se propõe será provavelmente um exercício de genealogia alternativa, de leitura cruzada entre heranças que muitos insistiriam em manter separadas. Que isso seja feito por um dos mais criativos músicos do nosso plural presente é um argumento extra para a fruição da sua performance.

Em Júlia Miranda e Maria da Rocha – A Fonte das Corujas (Foyer, 16h30), contrabaixo e violino parecem apontar para outra temperatura emocional. Há algo de paisagístico nesta proposta e também de meditativo, mas sem necessariamente se tornar estático. A ideia de som como eco de geografia concreta – neste caso concreto a Lousã, território de origem deste projecto – acrescenta uma camada interessante de materialidade á música que juntas desenvolvem.

Depois chega um dos momentos mais explicitamente “Profound Whatever”: João Valinho, Marcelo dos Reis, Luís Vicente, João Lucas, João Mortágua e Luís Rocha (Exterior, 17h30). Se o festival acredita na criação de encontros inéditos, aqui essa crença manifesta-se sem rede. Seis músicos – baterista, guitarrista, trompetista, manipulador de sons gravados, saxofonista e clarinetista, respectivamente – tocam pela primeira vez juntos, e têm “apenas” a comunicação instantânea como matéria-prima. Há concertos que se constroem a partir da preparação; este constrói-se, ao invés, a partir da exposição total, sem truques ou expectativas.

Belaflor (Foyer, 18h30) parece representar outro tipo de deslocamento conceptual e, pela propositadamente vaga apresentação no programa oficial parece propor o mergulho mistério como um desafio ao público presente. A inspiração em arte sacra, corpos dissidentes e electricidade sugere uma proposta simultaneamente física e simbólica, onde o instrumental pode funcionar menos como narrativa tradicional e mais como gesto de transformação, talvez até de transcendência material.

A programação nocturna começa mais tarde com Valhacouto Ensemble – Ainda Cantam as Aves pela Maré Cheia (Auditório, 21h00), projecto de João Clemente que reúne Bruno Ramos (narração), Duarte Fonseca (bateria), Gonçalo Alves (bateria), João Mortágua (saxofone), José Lencastre (saxofone), Nuno Jesus (baixo), Nuno Santos Dias (Waldorf) e Vasco Fazendeiro (percussão). O simples facto de se tratar de peça composta especificamente para esta edição já lhe confere peso especial dentro do cartaz. Mas mais do que isso, interessa perceber como a escrita dialogará com músicos habituados à liberdade improvisacional. O resultado poderá situar-se precisamente nesse terreno intermédio onde composição e imprevisibilidade se contaminam em busca do novo.

Depois, Novelo Vago (Foyer, 22h00), com Vera Morais, Teresa Costa e Inês Lopes, introduz talvez o gesto mais assumidamente lúdico do festival. Instrumentos de brincar, objectos marginais, utilidades ambíguas, até dispositivos improváveis: tudo parece servir para questionar hierarquias instrumentais e convenções de legitimidade sonora. Também isso é experimentação. Daquela que até pode provocar inesperados sorrisos.

Pedro Melo Alves e Mariana Dionísio (Museu, 22h45) são aqui uma dupla especial que propõe a cumplicidade como força motriz da liberdade. Quando os músicos já partilham vocabulário, a improvisação ganha outro tipo de subtileza: menos demonstração, mais nuance, mais risco silencioso. Melo Alves é, pois claro, baterista e compositor e instigador mor de algumas das mais entusiasmantes entidades colectivas dos últimos anos – como os ensembles In Igma ou Omniae, por exemplo – e Dionísio é dona de uma das mais avançadas e criativas vozes do nosso presente, além de cérebro que imagina e coordena o projecto Leida que tem estreia discográfica agendada para a próxima semana.

Barbara Togander, Clara Lai e João Valinho (Auditório, 23h30) prometem criatividade em abundância. Turntable, voz, piano e bateria oferecem possibilidades expressivas vastíssimas, sobretudo quando colocadas nas mãos de músicos habituados à experimentação. Sendo um dos últimos momentos do festival, será inevitável que carregue já algum peso de culminação.

E finalmente, como sublinha o programa oficial, manda a tradição, que o ponto final seja entregue a ETKAR (Exterior, 00h15). Edgar Ferreira fecha o festival com carta branca, e isso talvez diga tudo. Há qualquer coisa de ritual neste encerramento recorrente: como se a última palavra tivesse de caber a quem absorveu tudo o que veio antes e o devolve transformado. Num festival construído como percurso colectivo, essa escolha faz perfeito sentido.

Tendo em conta que esta quase vintena de concertos convoca não apenas artistas locais, mas também muitas outras cabeças que chegam de vários pontos do país, é também lícito argumentar que isso transforma o Fundão e o espaço d’A Moagem num centro vivo, de vibração plena e num espaço de onde certamente irão emanar algumas das mais artisticamente desafiantes propostas que poderemos escutar este ano.


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