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Fotografia: Ana Sofia Carvalho
Publicado a: 04/06/2026

Quase quatro décadas depois, a banda volta à carga com música nova.

Trouxemos vinho para a barricada: a ressurreição do Jardim do Enforcado

Fotografia: Ana Sofia Carvalho
Publicado a: 04/06/2026

O espaço físico é indissociável dos movimentos sub e contraculturais e a sua aglutinação corporativa destruidora dos lugares colectivos, demole ao mesmo tempo os focos de resistência formados na união contra um inimigo, outrora concreto na forma do estado, agora difuso na intangível forma de capitalismo.

A Feira da Ladra, canibalizada agora pela uniformização cultural turistificada, assim como a maior parte de Lisboa, Porto, Algarve e em breve todo o país, serviu na era pré-Internet como ponto de convergência de pessoas com interesses comuns, por estes dias chamados nichos, numa conveniente designação mercantil.

Lá, Leonel Ventorim, escritor, mediador cultural, crítico de teatro e impulsionador da cena mod portuguesa e fundador dos Herdeiros de Loudun, nos anos 80, juntamente com Paulinho, conheceram Luís Futre. O encontro deu-se na banca de cassetes pirata de Jorge Santos, algo impossível nesta era de saturação musical onde a ausência de esforço na obtenção dos discos desmaterializados os desvaloriza e gera desinteresse. Mais alguns encontros depois, entram para a banda em 1988, Carlos Pancadas, do Montijo, e Luís Gago, que tocava então com Carlos e Serpa dos Ku de Judas, onde viria a militar João Ribas, mais conhecido pela banda Censurados.

Não foi essa a formação que actuou com os K4 Quadrado Azul (ex-elementos dos Lagu Trop, Essa Entente e Aix La Chapelle) e com os Clandestinos na estreia do Rock Rendez Vous, onde a performance causou uma sensação ainda mais vigorosa do que a própria música, inscrevendo-os na inóspita e desabitada terra de ninguém que é o cruzamento de referências como Artaud, La Fura Dels Baus, The Birthday Party ou Swans.

No aniversário da morte de Ian Curtis, com os lisboetas Khaos, inspirado em Screaming Lord Sutch que por sua vez se inspirou em Screamin’ Jay Hawkins, Luís Futre surge em palco como oráculo estético do que viria a ser tendência na segunda vaga de Black Metal escandinavo. Nesse concerto, sobe ao palco do Rock Rendez Vous com um caixão, feito no Chapitô com Abrão e transportado na carrinha da escola, vestido por Eduarda Abbondanza e Mário Matos Ribeiro, futuros criadores da Moda Lisboa. Qual Aleister Crowley imaginado por Fernando Pessoa, envergava um manto negro, um machado e um nó ao pescoço, também eles adereços típicos do Black Metal, aproveitou também para libertar bombas e petardos, apesar de serem proibidos, causando a intoxicação de algumas pessoas.

Todas excelentes razões para desagradar a alguns críticos presentes, inimigos naturais da banda, que descreveram o concerto como uma palhaçada, numa confirmação da incapacidade da crítica em antever o Death Rock português, que nunca chegou a acontecer. O seu radicalismo performático insuperável da música cativou a Editora Facadas da Noite, sediada em Braga, a mesma cidade dos Mão Morta e dos Wrong Wrong, pela qual editaram a cassete Onde os Caixões Brotam como Flores.

Mais algumas mudanças de formação, e Luís Futre conhece no Chapitô, Abrão, a estudar cenografia, cujos gostos oscilavam entre Bad Brains e The Cramps. Foi o suficiente para entrar para a percussão, depois Ondina Pires, ex Ezra Pound e a Loucura, e fundadora dos Pop Dell’arte e de The Great Lesbian Show, também passa pela banda. Em 1989 anunciaram uma mudança de direcção musical, mas depois de várias edições prometidas e não concretizadas — uma delas em parceria com Mão Morta — de um falo insuflável gigante em palco e de várias quedas literais de Futre, não por intoxicação, mas por miopia, desapareceram para a obscuridade.



É impossível contar a história da banda sem contar a história da Lisboa oculta onde os vários membros e ex-membros da banda se moviam, com pontos de contacto com personagens como Isilda Sanches, autora de um artigo para a Capital que Ventorim conheceu nos pregões do Blitz. Também Gilles Bertin, proprietário da loja de música Torpedo na Lisboa dos anos 90, ex-membro da banda punk francesa Camera Silens, que andava fugido aos gendarmes por assaltar bancos (Vida de punk, a sua biografia foi agora publicada pela Chilli Com Carne) era das relações da banda. Foi a sua mulher, Cecília, que fez a foto promocional dos Jardim do Enforcado em 1991.

As ramificações prosseguem com Abraão, ex-Refundidos, banda responsável pelo anti-êxito “Quero ser o teu cão”, no programa Popoff apresentado por Sofia Morais e com Paulinho, ex-Crisetotal e membro dos Gazua, onde também milita João Morais aka O Gajo. Em 2025, a banda edita o disco homónimo pela Pós-80’s, com a maquete de Março de 1988, o soundcheck e o concerto no Rock Rendez Vous em 1989, assim como um tema extra de 2025, intitulado os “Óculos Escuros de Pasolini”, cantado por Ventorim, ressuscitado nesta versão do Jardim do Enforcado.

A confluência do ambiente apocalíptico actual com o esvaziamento ideológico e artístico da música, aliados ao desejo de tocar como fim em si mesmo, levou a banda a gravar o novo disco, também homónimo, editado pela Groovie Records, onde a ingenuidade e o primitivismo dos anos 80 deram lugar a uma vontade de autenticidade e maturidade, aproveitando as condições que nunca tiveram na primeira encarnação.

Com 9 temas, o novo disco, como é hábito, viaja através de benignas trips musicais, onde cohabitam o universo Série B, Wilhelm Reich, Ambrose Bierce e Guy Debord. A banda criou melting pot digno do Maio de 68 incorporado num rock sem espinhas que honra o espírito Rock Rendez Vous, com as inclinações esquerdinas dos Rudimentary Peni, o sentido cenográfico de Nick Cave (da era Boys Next Door), a expressão erudita de uns Velvet Underground dos primórdios, dotados dos refrões desafectados, densos e orelhudos dos Mão Morta nos anos 80, mas em vez de proporem a revolução de cocktail na mão, trazem vinho para a barricada.

O lançamento é na Groovie Records, na Rua Angelina Vidal, dia 6 de Junho às 18h, mas o disco em edição de autor, já está em pré-venda no site e no Bandcamp.


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