21 Savage // i am > i was

[TEXTO] Moisés Regalado

Se o cinema é, de todas as artes, a que mais se assemelha ao ilusionismo, talvez não seja exagerado afirmar que a música sempre se aproximou da magia no seu estado mais puro: como no ilusionismo, também há truques e fios invisíveis, que se poderão traduzir no uso do Auto-Tune ou de outros correctores, por exemplo, mas continuamos sem saber ao certo por que motivo é que os melhores truques resultam mesmo. Na música como na magia, a explicação reside quase sempre no talento ou no potencial do mago, só que não há comparações perfeitas e a verdade é que os mágicos não existem e, afinal, os músicos são só homens como os outros.

Compreende-se que os primeiros rappers se sentissem quase como Merlin ou Gandalf (que, diga-se, nos idos de 70 não era uma referência assim tão popular) mas o tempo trouxe consigo a busca pela perfeição — ou pela perfeita repetição –, bem como a consequente e generalizada descida à terra. Vieram os estúdios, as editoras e os media começaram a ganhar interesse, numa receita ideal para atingir a tal indústria que ainda nos abisma e que por lá, nos Estados Unidos, se impôs como necessária desde a raiz, e depressa deixou de haver espaço público para a magia. E serve tal para dizer que, passados 30 ou 40 anos desde então, 21 Savage é o protótipo perfeito do ilusionista e que i am > i was é o derradeiro truque de ilusionismo.

Quantas linhas são precisas para concluir que 21 não é e nunca será um rapper de excelência, que a sua escrita e a sua entrega não são dignas de vénia e que os seus raps são, na melhor das hipóteses, aceitáveis? Não muitas, e não mais do que esta na verdade, até porque essas variáveis estão desde há muito arredadas da sua equação — e ilusão. 21 Savage, agora com 26, quis voltar aos discos para se provar como artista (cada vez mais uma palavra-chave) maduro e completo e não se alongou em grandes fórmulas. Deixou o mumble praticamente de lado, talvez para chegar a audiências que ainda olham para rap e trap como água e azeite, e voltou em força às temáticas minimalistas que sempre caracterizaram o movimento de Atlanta e que ultimamente têm ditado as tendências mais pop.

Se resultou? Tudo indica que sim: o novo disco tem sido tópico um pouco por todo o lado e os veículos mainstream têm-lhe dedicado um tempo de antena significativo, muito por culpa da suposta maturidade com que 21 Savage chegou a i am > i was. Nada contra fórmulas ou propósitos semelhantes. Scorpion, escrupulosamente detalhado, foi um dos álbuns do ano, dentro e fora do pequeno burgo a que chamamos movimento, e Cardi B uma das confirmações mais unânimes, apesar de ser um dos produtos menos orgânicos e espontâneos de que a cena hip hop tem memória. Mas um bom verso continua a ser um bom verso, um bom flow continua a ser um bom flow e por aí fora, e 21 Savage não conseguiu brilhar em nenhum dos aspectos que realmente contam se o assunto é rap.

E, apesar de personificar e interpretar a sonoridade de Atlanta como poucos, há menos (de) 21 Savage em i am > i was do que em Issa Album ou Without Warning, mesmo reconhecendo que a solidez do novo disco e o burburinho gerado em torno desta ilusória maturidade lhe abrirão as portas que ainda não tinha transposto. A cultura, essa entidade que vagueia algures entre o pequeno burgo e as grandes massas, deve estar grata porque um dos seus representantes mais icónicos continua a ascender e a acartar a bandeira. Por outro lado, se a magia não acontece, e aqui pode ler-se magia como criatividade ou superação, não resta muito para aplaudir ou discutir quando a sala fica vazia e estes pedaços de cultura voltam a ser meras rimas e batidas.

 


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