5K7s # 13

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

As cassetes que Andy Votel edita em paralelo à sua actividade na Finders Keepers, sobretudo através do selo Hypocrite?, são sempre complicadas de arranjar e implicam muitos tweets privados e insistência até que as portas do “inner circle” se abrem e lá damos por nós com uma cassete a caminho com uma das mixes carregadas de tesouros daquele que é, certamente, um dos meus diggers favoritos do passado – porque vai a todas: coisas exóticas, free jazz, electrónica obtusa, pop inocente, rock psicadélico, kraut marado, o que for. Conto-vos isto porque sei que o senhor Votel tem umas cartas na manga para lançar e esperava dedicar este 5K7s a outros tantos títulos com a sua marca, mas como as novidades nunca mais aparecem é tempo de avançar. Ainda assim, os dois primeiros títulos chegam com mão de Andy Votel.

Depois temos Justin Wright com uma edição em cassete de um trabalho recentemente lançado em vinil, o original de um trabalho de remisturas da Dream Catalogue abordado no último 5 K7s e a primeira cassete na histórica R&S Records a entrar cá em casa. Selecção eclética, esta… Tempo para carregar no play, portanto.

 


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[VOTEL, CANTY & SHIPTON] Popular Mechanics 2
(Dead Cert Home Entertainment, 2016)

Este é já o segundo volume de um projecto que reúne os talentos de Andy Votel, Sean Canty (dos Demdike Stare) e Doug Shipton, cúmplice de Votel na Finders Keepers. O primeiro volume foi lançado o ano passado e o novo chegou agora mesmo, uma vez mais em edição extremamente limitada. Este projecto nasceu, certamente, do facto destes três criadores terem colaborado com Suzanne Ciani no álbum Neotantrik lançado em 2014 e uma vez com Ciani e também com Jane Weaver (a mulher de Andy Votel) em Neotantrik Globes editado o ano passado.

Trata-se, como não podia deixar de ser tendo em conta os envolvidos, de uma viagem pelo lado mais experimental e esotérico da música electrónica. O método usado é o da colagem, ou seja, estes senhores estão a usar discos como fonte sonora e não instrumentos convencionais. Tendo em conta a profundidade extrema das suas colecções só se pode sonhar com o que aqui se ouve: música concreta, electrónica pioneira de múltiplas proveniências, jazz dos recantos mais inexplorados do universo, tudo colado e sobreposto ao ponto de obtermos uma obra completamente nova que já só possui ecos distantes das peças originais usadas para a construir. Absolutamente viciante, é o que se pode garantir aqui. Música concreta para a idade dos DJs!

Edição em caixa de plástico transparente com insert desdobrável a cores impresso profissionalmente. Artwork de Andy Votel. Cassete em concha de plástico azul opaco. Edição limitada a 80 exemplares.


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[LAMARTINE] Musica Elettronica da Lamartine
(Finders Keepers Records, 2015)

Não há muito tempo adquiri numa loja de Lisboa um disco na editora de library Cam: Mondo Infantile assinado por Lamartine. O discogs aponta-lhe mais um disco, Cronache Del Mundo, de 1975. São ambos trabalhos incríveis de época, uma electrónica muito sui géneris, ingénua, ilustrativa, como não podia deixar de ser tratando-se de música pensada sobretudo para acompanhar imagens. O ano passado, Andy Votel descobriu fitas nunca antes editadas do mesmo Lamartine, que se supõe ser um pseudónimo de um outro artista. O resultado foi este Reportage lançado em vinil e cassete, pois claro.

Reportage é absolutamente extraordinário: soa como música de outro tempo, música que carrega óbvios ecos de infância de tanto se ter agarrado a memórias de tardes passadas em frente à televisão a ver filmes ou documentários algo estranhos. É esta, afinal de contas, a base da hauntology. Música profundamente evocativa, singela, produzida com as mais bonitas texturas analógicas de sintetizadores que à época certamente representariam o futuro mas que hoje apontam decididamente para o passado. Uma delícia, mas também uma audição que dá luta, já que não é música nada convencional.

Uma vez mais, a edição é numa caixa de plástico transparente, com base azul opaca, com insert de dois paineis a cores impresso profissionalmente, cassete em concha opaca azul.

 


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[J.G. WRIGHT] Sorcerer of Sound
(Sonic Meditations, 2016)

Justin Wright, ou J.G. Wright, neste caso, é o principal motor da aventura psicadélica Expo 70. Se aí a guitarra, devidamente processada e muitas vezes acompanhada por toneladas de electrónica, é o veículo privilegiado, aqui, em nome próprio, é apensas o sintetizador que comanda a viagem às profundezas do cosmos.

Este trabalho conheceu igualmente uma edição em vinil através da Polytechnic Youth, selo ligado à Great Pop Supplement, mas faz um estranho sentido em cassete, talvez porque toda a estética da Sonic Meditations evoque as cassetes algo artesanais da era dourada da new age. Embora este música, diga-se, nada tenha de new age: não se relaxa a ouvir estes pulsares que por vezes parecem ter sido feitos a pensar num qualquer filme de suspense passado em órbita. Justin Wright procura canalizar aqui as suas ideias sobre os pulsares cósmicos que atravessam o universo e nos atingem a todos. “Enter Thy Wormhole” é, aliás, o primeiro título deste trabalho. Bleeps e bloops analógicos (ele aliás faz questão de dizer que estas gravações, feitas no estúdio Massive Sound, usaram apenas material analógico) que apesar de perturbadores a espaços soam igualmente como a perfeita massagem aural para os ouvidos mais sintonizados com a electrónica dos anos 70.

Edição em caixa de plástico transparente, com base preta opaca, com artwork impresso profissionalmente num insert a cores e com a adição de um cartão assinado e com numeração inscrita à mão, cassete em concha de plástico opaco cinzento com lettering impresso a preto. Edição limitada a 50 exemplares.

 

 


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[DEATH’S DYNAMIC SHROUD.WMV] I’ll Try Living Like This (Dream Catalogue, 2016)

Na anterior edição da 5K7s abordámos quase exclusivamente títulos da Dream Catalogue e aí mencionámos a cassete que carrega uma série de remisturas deste título: I’ll Try Living Like This de Death’s Dynamic Shroud.wmv. No texto sobre essa cassete de remisturas comecei por escrever que “da junção de HCMJ e Giant Claw surgiu o projecto Death’s Dynamic Shroud.wmv que fez de I’ll Try Living Like This uma das mais celebradas entradas do catálogo da britânica Dream Catalogue, etiqueta que desde 2014 já somou mais de 130 lançamentos (!!!!)”.

Trata-se de facto de um título de culto, este I’ll Try Living Like This (a dupla de cassetes, original e remisturas, já passam os 70 euros no discogs), talvez porque é quase um manual para o vaporwave: vozes desaceleradas, cortes abruptos, samples de vozes japonesas, piscadelas de olho ao universo dos jogos de computador, música de plástico tornada ainda mais plástica através de toda esta manipulação. E o todo soa um pouco caótico, como se procurasse traduzir o choque cultural de alguém que aterra pela primeira vez em Tóquio. Há temas com títulos como “CD Factory” ou, ainda mais revelador, “Somebody Home”, certamente uma resposta à melhor eccojam de sempre. Deslumbrante, sem dúvida. (E uma vez mais obrigado Miguel Arsénio, pelo incrível presente).

Cassete em caixa transparente, com artwork impresso profissionalmente a cores e cassete em plástico transparente de purpurina verde cometiqueta em papel colada em ambas as faces.

 

 


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[SPORTING LIFE] 55 5’s
(R&S Records, 2015)

Sporting Life, produtor ligado aos Ratking, falou abundamentemente sobre 55 5’s ao Rimas e Batidas em conversa mantida com Ricardo Miguel Vieira há alguns meses. Este trabalho, uma colecção de instrumentais que referencia no título (e no artwork) aquela que deve ter sido a principal ferramenta da sua manufactura, a Roland SP 555, é bastante diversificado em termos rítmicos (até no drum n’ bass toca), mas mantem-se coerente pela forma algo psicadélica com que Sporting Life equipa cada faixa: sobreposições improváveis, dissonâncias, texturas abrasivas, efeitos que deslocam espaço e tempo. Sporting Life consegue até a difícil tarefa de por alguns minutos nos fazer esquecer Wiki e Hak.

Apesar do pedigree hip hop de Sporting Life, 55 5’s deixa claro que as suas referências são bem mais amplas e se estendem até à electrónica europeia mais aventureira: ouvem-se aqui ecos de Aphex Twin, por exemplo. O que torne talvez um pouco menos surpreendente o facto desta cassete aparecer com selo da belga R&S Records, editora veterana, ela mesmo aventureira e há muito sintonizada com as margens mais desafiantes da cultura electrónica americana.

Edição limitada a 300 exemplares disponível em caixa transparente com insert a preto e branco impresso profissionalmente e cassete em concha preta opaca com etiquetas em papel coladas..

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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