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Sporting Life: “Motiva-me a ideia do desporto de produção”

[ENTREVISTA] Ricardo Miguel Vieira [FOTOS] Andrew Kass

 

Eric Adiele tem uma missão: nunca fazer um beat wack. O produtor conhecido como Sporting Life passou os últimos anos numa espécie de processo contínuo de autodescoberta de um estilo pessoal. Aprendeu a dominar softwares e maquinaria, uniu samples que foi encontrando e sustentou uma linha de trabalho assente na orgânica dos beats: “são por si mesmos” e auguram suster-se para lá das vozes e descrever a fonte das inspirações de que resultam. Em última instância, permanecer na mente do público. 55’5s, a primeira beat tape a solo do produtor de 32 anos natural do estado da Virginia e sediado em Harlem, é o culminar dessa jornada evolutiva.

55’5s conta com um cariz experimental agitador de consciências. É uma narrativa de beats com uma singular aura hip hop que se aventura em recolhas footwork de BPMs expandidos. É um laboratório donde emergem imprevisíveis construídos a partir de um conjunto inconspícuo de elementos inspiradores que versam vários artistas globais e as próprias idiossincrasias de Nova Iorque. Como confirmou Adiele nesta conversa transatlântica via-Skype, viajar e conhecer novas pessoas enquanto actuava ao vivo com Wiki e Hak – no trio de noise-rap de Nova Iorque Ratking – também ajudou a alargar o seu espectro de influências. Os discos mais reconhecidos do grupo, So It Goes (2013) e 700-Fill (2014), surgiram no meio do processo de composição de 55’5s e, de certa forma, até constituem a raiz de um trabalho sensorialmente apelativo. As imersões criativas de Adiele ressoaram deste lado do globo e a editora belga R&S Records acabou por editar esta beat tape de estreia, figurando assim na mesma prateleira de outras tantas edições de produtores de referência como Aphex Twin ou James Blake.

 

Está quase aí o Inverno, estação que foi uma grande influência no último lançamento de Ratking, 700-Fill. Como é que as alterações de espírito da cidade têm influenciado as tuas produções?

Tem definitivamente influenciado bastante. Fisicamente porque tens de viver em Nova Iorque e trabalhar e alimentar-te e isso dá um certo sentido de urgência à tua arte. Depois há também a história da cidade, os sons que escutas nas ruas. Nova Iorque é e continuará a ser uma influência nos sons que crio.

A cidade certamente vive na tua nova beat tape. Como é que chegaste a este projecto?

Tinha em minha mente a ideia de que precisava de fazer muitas coisas, de praticar diferentes estilos e tentar ser cada vez melhor no Ableton Live enquanto também procurava descobrir como nunca fazer um beat wack, percebes? Então, as faixas de 55’5s surgiram desse processo durante os últimos dois anos. São pedaços e notas dessa jornada de estudo de diferentes estilos e de procura pelo meu próprio estilo, até mesmo a partir de coisas antigas que criei.

São beats que criaste durante os anos de produção dos mais aclamados registos de Ratking. Como é que trabalhar ao lado de Wiki e Hak moldou as tuas produções?

Moldou bastante. Como um grupo tendemos a criar coisas e a tocá-las ao vivo para percebermos como é que posteriormente as devemos gravar e esse processo deu-me imenso tempo para crescer e explorar nos estilos porque não era algo fixo, podia sempre ser alterado. Viajar e tocar em grupo ajuda a conhecer pessoas novas e estas dão-te influências ou mostram-te um instrumental ou uma música que nunca antes ouviste. Então durante esses tempos continuas a produzir com consistência e se souberes usar o teu tempo de forma inteligente, então há imenso espaço para evoluíres.

Sentes que tens uma abordagem diferente quando produzes em Ratking face a produzires a solo?

Não vejo como necessariamente diferente, são apenas processos distintos até poderes finalmente ouvir [a faixa final]. Quando produzo com o Wiki e Hak trata-se mais de ver onde a música vai e ter em mente o título da mesma. Além disso, não pode ser muito densa porque tem de ter ali espaço para a voz e ideias de alguém. São caminhos diferente. Talvez seja semelhante quando produzo um som do princípio ao fim sem pensar muito. Muitas vezes não é propriamente uma música, apenas sons que escrevi ou beats que desenhei para praticar, como quem vai andar de skate. É diferente, mas também consegue ser semelhante.

No processo de criação de beats procuras seguir uma narrativa? Seguiste algum conceito em 55’5s?

Sim, tentei titular as faixas de forma a que parecesse uma estória. Eu gosto de organizar coisas e tentar criar uma estória através de um som e creio que a forma como termina a estória [em 55’5s] é realmente muito boa. Algumas músicas são mais story-like; outras apenas hard beats. Ter uma mistura dessas coisas é realmente bom.


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Eu tinha na minha mente a ideia de que precisava de fazer muitas coisas, de praticar diferente estilos e tentar ser cada vez melhor no Ableton Live enquanto também procurava descobrir como nunca fazer um beat wack.
– Sporting Life


As pessoas associam-te à produção de beats hip hop, mas isso parece bastante redutor considerando a mistura de sons e estilos que apresentas. Ainda assim, sentes que, com esta tape, estás a partir pedra no movimento para criar algo novo? Onde é que encaixas 55’5s?

Procuro ser o mais adaptável possível e tento sê-lo em tempo real se me encontrar num sítio a passar um DJ set. Tento encontrar as pessoas a meio caminho. Já a tape… Não sei onde se encaixa, espero que algures ao lado de músicos fantásticos como Gorillaz ou Jay-Z. Não sei bem o quão diferente é o meu som, mas gosto de pensar que há pessoas que fizeram coisas diferentes, mas que talvez não tenham vindo do mesmo background que eu. Ou que nem toda a gente sabe jogar basquetebol ou uma merda assim. Talvez venham de perspectivas diferentes.

Pegas nos sons e dás uma volta ao enredo criativo…

É apenas tentar puxar pela tua criatividade e aprender sobre novos equipamentos e ler entrevistas. Lês uma entrevista de Aphex Twin e apercebes-te que algumas pessoas do presente estão a “viver” no futuro e inspiras-te por ver alguém assim. Qualquer que seja o som, apenas espero que seja o resultado de um melhor conhecimento de um equipamento em particular e não de um som que estás a tentar imitar. Apesar de passarmos por diferentes influências – o que é bom – o som será o do teu equipamento a trabalhar melhor em conjunto. Quando escutas Aphex, ouves a corrente dos sinais que ele cria a comunicarem entre si. Isso é a matemática por trás da música. Eu, por exemplo, devo ter todas as MPCs e já passei por inúmeros sistemas para evoluir: ASR-10, Reason, Cubase, ProTools, Renoise, Ableton Live e, mais recentemente, estou a aprender FruityLoops.

És um coleccionador de MPCs?

Não necessariamente, estava apenas a testá-las. Cresci com diferentes referências estilísticas e quando vi alguém a utilizar coisas diferentes, achava que também as tinha de arranjar. É como kitares o teu carro em busca do estilo perfeito e para isso vais sempre experimentando novos equipamentos.

A ciência por trás da música é algo que te apraz? É o que te motiva a produzir?

Motiva-me a ideia do desporto de produção, torná-lo uma força que não tenha outro propósito que não seja [desenhar] o beat. É como pensar que estou nisto pelo desporto do estilo e de fazê-lo incidir sobre ti através da habilidade de controlar um programa de computador. Isso inspira-me, tal como encontrar produtores diferente mundo fora que sentem o mesmo. Não creio que alguém alguma vez tenha colocado essa linha de trabalho por baixo de um rap. Os produtores normalmente servem para ajudar o MC, mas isto é por si mesmo. Se tirares todas as letras das músicas de Ratking e ouvires apenas o instrumental, vais encontrar ali inspirações muito particulares. A intro de So It Goes é footwork, mas uma espécie de jungle footwork, e depois o rap soa a Philadelphia Freeway ou Bennie Sigel. Isso é um novo estilo que foi criado e é isso que procuro sempre fazer. E ter também alguma coisa que olhar para trás e dizer que criámos um estilo particular de música. Se alguém curtir, então isso significa uma nova impressão digital para criar música.

 


 


Por falar em impressões digitais, 55’5s foi misturado no estúdio de Daddy Kev. É um lugar histórico, associado à emergência da L.A. beat scene. Sendo que crias sons tão singulares, sentes que há uma scene a brotar em Nova Iorque? Algo underground que ainda não conhecemos?

Sim, há sempre algo novo a surgir em Nova Iorque, mesmo que não o saibas. Há por aqui imensos produtores e músicos que estão sempre a criar coisas novas. Alguns músicos tocam em bandas punk e depois criam música electrónica sob alter-egos. Há tantos alter-egos por aqui – eu inclusive – que as pessoas nem imaginam. Muitos dos meus amigos gostam de produzir electrónica e várias vezes nos encontramos e criamos DJ sets brutais. No que toca ao beatmaking, estou definitivamente a tentar puxar por coisas novas e que as pessoas se apercebam dessas coisas nas suas mentes. Nós criamos beats enquanto vão surgindo novos MCs influenciados por tudo o que se passa aqui. Sinto-me realmente entusiasmado por estar a criar música.

Estás a incitar a criação de um movimento alternativo em Nova Iorque. Ou pelo menos um movimento singular, tal como a L.A. beat scene.

Sim, procuro recolher inspiração de pessoas que não se sentem pressionadas ou stressadas. Não podes levar isto muito a sério. É como o [Lego] Serious Play: se conseguires dominar a coisa, então nunca ficas enclausurado ou preso a uma fórmula particular de construção. Creio que isso é mesmo o som do movimento: levar a sério por um lado, mas não levar tão a sério por outro. Crias coisas pequenas, seguir para a próxima sem ficar preso numa única coisa ou sem te rotulares a ti mesmo.

55’5s está na etiqueta belga R&S Records. Isto significa que estás a tentar chegar a novos públicos?

Penso que a Europa tem uma melhor plataforma para instrumental bass electronic music. Têm surgido imensos estilos que se têm desenvolvido e mutado ao longo dos tempos e as pessoas crescem com os ouvidos preparados para gostar de algo que não tem nada que ver com voz. Essa cultura é muito forte na Europa e em alguns lugares da América. Estou a tentar, dentro das minhas possibilidades, criar algo que as pessoas possam desfrutar.

A R&S Records já lançou artistas de electrónica bastante reverenciados – por exemplo, Apehx Twin. Alteraste o curso das coisas em 55’5s com base na editora por onde ias lançar o projecto?

Não sei se mudou o meu caminho, mas fez-me perceber que há pessoas para além de mim que compreendem o que faço e que vêem as coisas pelo que são sem terem seguido apenas o que ouviram numa entrevista ou o que leram sobre nós numa qualquer secção de hip hop. É como os Beastie Boys dizem sobre Ill Communication: as ideias a serem comunicadas para certas pessoas, e não necessariamente toda a gente, na esperança de que estas possam construir uma ideia e transmiti-la a mais gente. É assim que as ideias crescem na consciência pública. Foi realmente fantástico que a R&S tenha mostrado interesse no que fazemos, mas também não posso dizer que foi realmente surpreendente. [O que eles editam] é o tipo de som que já escutávamos, como DJ Hell ou Aphex Twin ou James Blake. Eram esses os artistas que nos inspiravam. E depois há a cidade de Nova Iorque. Tudo isto se mistura e tu escolhas as pessoas que gostas dentro de um determinado grupo de sons e alguém eventualmente repara no resultado dessas escolhas.

 


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As pessoas passaram à frente de muita coisa, já quase ninguém liga a cassetes. Imagina, quando havia James Brown, havia também um James Brown japonês ou brasileiro. Isto mostra como existe um tesouro, uma infinidade de sons que podes encontrar [em cassetes velhas].
– Sporting Life


E lançaste a tape, bem… em cassete. O que é que encontraste de fascinante neste formato?

A minha interacção com cassetes tem sido muito interessante. Houve um gajo na Chinatown de São Francisco que me deu umas cassetes e entre essas acabei por dar algumas e perder outras, já nem sei. Cassetes têm aparecido e desaparecido ao longo da minha vida enquanto produtor. Foi-me sugerido lançar no formato e então pensei em como as cassetes envelhecem e o som se torna diferente ao longo do tempo e isso é algo que acho interessante. E é também um formato onde ainda não ouvi música minha, talvez porque tinha algum receio. Nunca sabes o que as pessoas gostam de ouvir e lançar uma cassete pode não apresentar o som da forma clara que as pessoas desejam. Mas por vezes tens de fazer algo que é, de certo modo, novo para veres as possibilidades que daí advêm. Quero ver como soa o projecto dentro de uns anos. Ah, e também pelo design e artwork das cassetes, são incríveis. É mesmo a melhor parte de criar uma cassete.

Quem é que criou o desenho da cassete?

O design é da minha amiga Camilla Venturini. Sentámo-nos e encontrámos a font da Ralph Lauren e depois eu e o Director Criativo da Letter Racer virámos do avesso o logo da marca. A fotografia é de uma senhora que foi ver um set que passei numa sessão do Boiler Room. Acho que está mesmo classy. Já a artwork da capa foi desenhada por Cairo Marcopoulos, filho de Ari Marcopoulos, um fotógrafo com quem costumávamos trabalhar.

Consideras-te um digger de cassetes?

Sim, estou sempre à procura de cassetes que não estejam muito estragas. As pessoas passaram à frente de muita coisa, já quase ninguém liga a cassetes. Imagina, quando havia James Brown, havia também um James Brown japonês ou brasileiro. Isto mostra como existe um tesouro, uma infinidade de sons que podes encontrar [em cassetes velhas]. Com novos programas como o Ableton podes tornar modernos esses sons e fazê-los soar a qualquer coisa. Isso dá-te ainda outra mina de ouro de sons para recolheres e alterares e criares coisas únicas.

Tens em agenda um longo para 2016 e estiveste recentemente ocupado com o disco do Wiki. O que nos podes contar sobre estes projectos e, já agora, sobre o futuro dos Ratking?

Estive recentemente a trabalhar com pessoal como o Patrick [Morales aka Wiki] e o Novelist, ando a fazer imensas coisas. Ajudei a misturar e produzir algumas faixas para o projecto do Wiki, que está mesmo aí a sair. Depois tenho uma ideia de um plano para fazer um disco. Não é nada propriamente coeso nesta altura e não sei quando sairá, mas estou a tentar planear da melhor forma possível. Quanto a Ratking, vamos lançar um disco novo, estamos a trabalhar nisso. Não sei quando estará pronto, estou a tentar trabalhar o timing em tudo isto. Veremos.

 

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