5K7s # 12

[TEXTO/FOTOS] Rui Miguel Abreu

Objectivo cumprido: um ano depois do arranque do Rimas e Batidas chegamos ao 5K7s # 12, ou seja, atinge-se, ainda que não de forma linear, a média de uma nova entrada nesta série a cada mês. Na verdade, a coluna poderia ter-se chamado 7 K7s ou 10 K7s porque matéria para a alimentar não teria, certamente, faltado. Mesmo na música portuguesa têm sido muitas as propostas a usar este formato. Na próxima edição do 5K7s, por exemplo, conto trazer aqui novos lançamentos de Rui Maia e da Monster Jinx, por exemplo. Em ambos os casos até já poderia ter avançado com críticas – uma vez que já conheço as versões digitais -, mas por aqui só contam os objectos reais, fotografados em frente de bonecos avulso, só para indicar que algures neste planeta estas cassetes estão mesmo arrumadas numa estante e a ser alvo de generoso uso.

E por falar em generoso uso, um aparte: esta semana houve também um baque – descobri um belo deck Nakamichi à venda, mas muito para lá do alcance das minhas modestas posses. Mas lá chegaremos um dia, que a colecção cá por casa começa a merecer esse investimento.

Este mês, como hão-de aliás reparar, quatro dos cinco lançamentos escolhidos chegam de uma só etiqueta, a excelente Dream Catalogue. Um dos registos, aliás, já mereceu mesmo por aqui atenção de Miguel Arsénio (que me presenteou, e já agora, com um exemplar da cassete Nuwrld Version sobre a qual poderão ler mais abaixo).

A Dream Catalogue está para a cena vaporwave um pouco como a Ghost Box estará para a hauntologia. E logo que possível trataremos de apresentar aqui no Rimas e Batidas um guia para esta cena, mas considerem este primeiro olhar sobre estes quatro lançamentos da etiqueta comandada pelo misterioso Hong Kong Express como uma abordagem inaugural a uma difusa cena que pega nalgumas experiências pioneiras de Oneohtrix Point Never (sobretudo os delírios de Chuck Person) e as toma como ponto de partida para uma música que vive da construção de universos paralelos de fantasia. Tal como a cena exotica de Martin Denny e Les Baxter de finais da década de 50, quando a descoberta de novos mundos através da televisão tinha um equivalente aural na imposição do então novíssimo espectro stereo. Hoje em dia, no vasto plano da internet cabem mesmo todos os universos…

Mas passemos então ao que interessa.


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[Death’s Dynamic Shroud.wmv] Nuwrld Version (I’ll Try Living Like This Remixes)
(Dream Catalogue, 2015)

Da junção de HCMJ e Giant Claw surgiu o projecto Death’s Dynamic Shroud.wmv que fez de I’ll Try Living Like This uma das mais celebradas entradas do catálogo da britânica Dream Catalogue, etiqueta que desde 2014 já somou mais de 130 lançamentos (!!!!). Esta é a entrada 115 no seu prodigioso catálogo e resulta de um desafio lançado por Death’s Dynamic Shroud.wmv a uma série de nomes do roster da Dream Catalogue (e não só) para remisturarem o álbum na íntegra. Surge portanto aqui uma versão alternativa, o que não deixa de ser um curioso gesto estético, como se esta música vivesse de uma constante redifinação de coordenadas, de um constante reajuste e reinvenção. Muita da música original começa por resultar de uma criativa abordagem sampladélica, pegando em obscuros (ou nem por isso…) pedaços de memória dos anos 80, desacelerando-os de forma lisérgica e tomando esse gesto como ponto de partida para a construção de algo de novo. Há por aqui nestes gestos de remistura a cargo de nomes como DEZMO x OSCOB, HKE, Golden Living Room, NMESH ou t e l e p a t h テレパシー能力者 exemplos dessa prática, mas também abordagens dissonantes, puramente experimentais, reinvenções digitais de um universo que não é, ele mesmo, real. O que chega a ser, de certa forma, algo perturbador, como se estivéssemos a olhar para uma paisagem permanentemente distorcida e difusa.

Edição em caixa de plástico transparente com insert a cores impresso profissionalmente. Cassete em concha de plástico roxo opaco com etiquetas em papel coladas.

 


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[Flash Kostivich] Hacking For Freedom
(Dream Catalogue, 2016)

Como sempre acontece, nste esforço para erguer dimensões paralelas, a moldura conceptual para Flash Kostivitch soa rebuscada e fantasiosa: membro do colectivo ucraniano de ravers experimentais Kroko Krew, Flash Kostivich terá lançado Hacking For Freedom na etiqueta de hardvapour Antifur. Soa rebuscado e apetece-nos pensar que Flash Kostivich é afinal um tipo a viver algures no País de Gales, a frequentar o 11º ano e cheio de borbulhas. Talvez. Mas a Antifur existe (embora conte apenas uns suspeitos 166 likes… hum…) e Hacking For Freedom parece de facto ter sido editado antes apenas em formato digital. Qualquer que seja a verdade – Ucrânia ou País de Gales ou outro sítio qualquer – a música existe: uma mescla de sons ambientais, quase suporíferos e outros abrasivos, perturbadores, o som de máquinas em colapso. Talvez depois de alguem ter apostado em “hacking” para conquistar a liberdade. Vaporwave como a banda sonora de uma revolução digital em curso, com ecos de rave, de house e techno dos anos 90, tudo processado por uma visão distópica da realidade, como se vivêssemos todos afinal de contas numa Hong Kong futurista onde é sempre de noite e todos somos banhados em luz artificial de néons gigantes. Ou algo do género.

Uma vez mais, a edição é numa caixa de plástico transparente com insert a cores impresso profissionalmente, cassete em concha opaca cionzenta com etiqueta colada a cores.

 


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[IMMUNE] Breathless
(Dream Catalogue, 2016)

Sobre este álbum tivémos a oportunidade de publicar a crítica de Miguel Arsénio em fevereiro último. O meu estimado camarada chama-lhe “milagre de fulgor e abrangência” e acerta na mouche: este álbum do anónimo (como quase todos os nomes envolvidos na cena vaporwave) produtor Immune é um exemplo vívido de como as modernas ferramentas digitais podem, afinal de contas, fornecer o interface perfeito para traduzir uma vida que é, ela mesmo, o resultado de um vertiginoso progresso tecnológico. Criado em Londres, pelo menos de acordo com a apresentação da Dream Catalogue, este Breathless pega na história recente da música electrónica de clubes, sobretudo no devir pós-house dos anos 90, e transforma essa história num pretexto para um retrato difuso e psicadélico, certamente nocturno, de uma moderna metrópole, multi-cultural, com a sua dose de perigo, claro, e oferece-nos uma visão panorâmica e cinemática, pontuada a espaços por vozes distantes como se parte da produção tivesse sido feita num qualquer “não lugar” habitado por uma massa disforme de pessoas, que circulam enquanto anúncios vão sendo feitos no PA. Há paz e caos, sonho e pesadelo, yin e yang nesta música, mas há também uma ideia de constante movimento, como se fôssemos todos tubarões num oceano de concreto e não nos pudéssemos dar ao luxo de parar um segundo sequer.

Edição em caixa de plástico transparente, com artwork impresso profissionalmente num insert a cores, cassete em concha de plástico opaco negro com etiqueta em papel impresso colada por cima.

 

 


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[TELEPATH テレパシー能力者] 緒に別の夜
(Dream Catalogue, 2016)

Como quase sempre acontece com as edições da Dream catalogue, também esta – um relançamento de uma edição digital de autor de t e l e p a t h テレパシー能力者 numa cassete limitada a 100 exemplares – já se encontra muito valorizada no discogs. De todos os lançamentos aqui abordados, talvez este seja o mais conseguido: duas longas peças de 44 minutos cada (44:44 para ser mais exacto – os pormenores contam nestas coisas), uma para cada lado da cassete, de música que parece viver entre as reverberações dream pop de algum catálogo da 4Ad dos anos 80, tudo pesadamente processado, claro, e uma nebulosa electrónica. Se na década de 50, mestres de exotica como Les Baxter ou Arthur Lyman imaginavam música para ilhas perdidas no Pacífico com palmeiras e nativas inocentes vestidas apenas com saias de palha (as fantasias coloniais eram tão transparentes…) a banharem-se em águas límpidas, telepath parece fazer o mesmo para praias que ninguém frequenta por se encontrarem mesmo à frente de centrais nucleares que à noite se iluminam como uma estranha nave pousada no que terá sido antes um paraíso. Parece ser o “huuum” da própria electricidade que alimenta as cidades que atravessa esta música, que também se faz de vozes desmontadas, desaceleradas, incompreensíveis, ecos distantes de uma realidade que já não se consegue descortinar. Música ambiental, sim, mas para um universo irrequieto, feito de fluxos constantes, de muita informação e assaltos sensoriais constantes.

Cassete em caixa transparente, com artwork impresso profissionalmente a cores e cassete em concha de plástico transparente de purpurina verde com etiqueta em papel colada em ambas as faces.

 

 


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[BOREAL NETWORK] Itasca Road Trip
(Illuminated Paths, 2015)

E agora para algo completamente diferente, como diriam os Monty Python. Ou talvez não. À beira de uma edição em vinil deste lançamento da Illuminated Paths pela interessante e algo hauntológica More Than Human, a revista Fact dedicou atenção a Itasca Road Trip e a Boreal Network, projecto de Nicole Johnson de Seattle, uma produtora certamente atenta a alguma pop mais evocativa, melancólica e electrónica, dos Broadcast aos Boards of Canada que, aliás, são apontados como referência directa pela própria artista nas “tags” que permitem que naveguemos no Bandcamp. O álbum faz-se de uma luminosa (por oposição à nocturna música da Dream Catalogue) sucessão de miniaturas pop de electrónica lo-fi inspiradas pelo contacto com a natureza num passeio por Itasca, pois claro, um parque nacional no Mississippi. E aí começa a fazer sentido a menção dos Boards of Canada no mapa de influências deste projecto, já que tal como o projecto da Warp, Nicole Johnson também retira inspiração dos documentários de finais dos anos 70 e inícios dos anos 80 que além de mostrarem ao mundo imagens de paraísos distantes ou não, mas ainda intocados pelo progresso, continham música electrónica que se veio a revelar uma influência profunda, talvez por estar tão colada a certas imagens. Há por isso esse recorte levemente hauntológico na música de Itasca Road Trip, certamente marcada e moldada por memórias televisivas. Se coleccionadas em primeira mão, numa infância passada em frente à televisão, se construídas à posteriori no youtube pouco importa. Hong Kong Express, da hoje por aqui muito falada Dream Catalogue, explicava em entrevista que parte do universo visual para que remete a sua etiqueta foi construído em longas sessões nocturnas a ouvir drum n’ bass e a ver vídeos no YouTube de “night rides” por Hong Kong ou Tóquio. Talvez a natureza que Nicole Johnson quis encontrar no seu passeio por Itasca tenha também sido primeiramente descoberta a ver velhos documentários sancionados pelo National Film Board of Canada.

Cassete de edição limitada disponível em caixa transparente com insert fotocopiado. A cassete está disponível em concha transparente apenas com um pequeno autocolante sem informação o que me fz pensar que a duplicação não é profissional, mas caseira.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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