Um só caminho?

[TEXTO] Moisés Regalado [FOTO] Stockroll

Depois de anos de evolução, a sonoridade crunk/dirty south foi perdendo o estatuto de nicho e afirmou-se como tendência à escala global. Em linhas gerais, passou-se o mesmo no decorrer dos anos 80 e 90. O lançamento de Illmatic, clássico tido como incontornável por quase todos, trouxe consigo várias críticas negativas e mesmo algumas discussões em fóruns online, ainda ao dispor daqueles que dividem a cultura hip hop entre a de “antigamente” e a de “hoje em dia”. “Too damn slow with like singing and shit”, dizia b versatile, utilizador da comunidade alt.rap, num post escrito a 20 de Abril de 1994.

Ainda assim, a comparação não é absolutamente certeira. Nasir Jones, rompendo com a forma que até então dominava, não colidiu por completo com a norma. A sua métrica e entrega evoluíam directamente de um Rakim, que, por sua vez, ainda carregava a sonoridade dos pioneiros, apesar de todas as inovações que trouxe para o rap. Ou seja, Nas, bem como todos aqueles que moldaram os padrões da chamada golden age, foram resultado directo de um movimento singular (já disperso no espaço, é verdade) e não de um sub-género paralelo.

E é por isso que o termo boom bap continua tão presente no imaginário e no vocabulário colectivo. O tempo ainda não provou se rap e trap vão seguir caminhos distintos ou se o futuro os vai conciliar e consolidar o suficiente para que sigam um só trilho. Ao longo das décadas, o flow de rap diluiu em si mesmo as suas versões anteriores mas, passadas as portas de 2018, ainda não se fundiu em absoluto com o chamado mumble – talvez porque o flow de trap não descende ou depende directamente do rap flow. Terá o hip hop abrangência para abrigar novas estéticas e filosofias?

Os intervenientes mais representativos parecem achar que sim. Drake, artista pop mais transversal que qualquer outro, fez evoluir a estética rap e trap sem abdicar de uma técnica influenciada pelo boom bap. Ou Kendrick. E Russ, que fez à escala mundial o que Dillaz conseguiu em Portugal e construiu o seu público com recurso ao mais acessível dos flows de rap. Também por cá, é importante ter em conta a diversidade de instrumentais em que Phoenix RDC ou Regula já rimaram, mantendo sempre as características essenciais. Lá fora, não esqueçamos os movimentos de Joyner Lucas, Dave East ou até Lil Wayne, numa mistura de competição e revivalismo.

Claro que o equilíbrio entre dicas, pausas e adlibs dos Migos ou os momentos mais indecifráveis de Lil Yachty também são flow e também são rap. E que um fast flow multissilábico não garante qualidade nem é requisito obrigatório para um ideal de flow. E é aqui que entra Conway, autor do melhor disco de rap que ouvi em largos meses e sobre o qual devia escrever imparcialmente. No entanto, cá estou, atirando-me largamente para fora de pé, tudo isto porque não é fácil explicar, em 2018, o que é um bom álbum de rap. Só rap, sem lhe chamar boom bap. Porque pensar nisso levanta várias questões que também ajudam a embrulhar a música.

Mas é fácil dizer que são 9 faixas produzidas por Daringer e um instrumental de Alchemist. E que, ouvidos os beats, a influência de Alc é notória. Ou que Conway tem, como MF Doom, uma métrica brilhante e camuflada, com uma presença semelhante à de Mr. Muthafuckin’ eXquire e histórias à Freddie Gibbs. Os convidados (BENNY, Raekwon, Prodigy, Royce 5’9″, Styles P e LLoyd Banks) parecem assegurar a qualidade e, na verdade, só Royce desilude por completo. Estão reunidos os ingredientes essenciais e nada falta. Muito menos as noções de boom bap, trap ou mumble, porque todas cabem na definição de rap. Só rap.

 


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