A Seat At The Table: “To be young, gifted and black”

[TEXTO] Núria [FOTO] Direitos Reservados

 

A canção original de Nina Simone e Weldon Irvine chegou-me pela primeira vez aos ouvidos na voz de Donny Hathaway. O peso da interpretação de um young, gifted and black “Donny Pitts” moldava-se, na perfeição, à mensagem que se pretendia de empowerment e orgulho negro na América dos 70 e à melodia evangelista, chorosa e musculada da soul. Uma receita bem sucedida, sem falhas, como, aliás, era apanágio daquela que é, ainda hoje, uma das maiores vozes afro-americanas.

 



Não deixa de ser curioso, no entanto, que um dos hinos dos direitos civis americanos à entrada do black power movement tenha encontrado incubadora no jazz a roçar a pop, numa homenagem cantada de uma mulher para outra. Ambas jovens, talentosas e negras. 47 anos mais tarde é, curiosamente, à pop das mulheres negras que devemos grande parte dos estandartes de um movimento que, necessária e urgentemente, tem vindo a recuperar espaço nas agendas do mundo. Uma curiosa felicidade, diria.

 



Solange deve à irmã o seu lugar à mesa. Uma sombra inevitável nas comparações, é certo, mas com contornos bem mais visíveis de benção do que aqueles que poderia ter de prejuízo. Queen B abre espaço para que o desafio de Solange àquilo que se acredita caber dentro do registo da pop aconteça, consolidando-se na rebeldia de um álbum por inteiro. Suavemente provocador, há em A Seat At The Table, ainda assim, uma espécie de manipulação interpretativa: não tivemos, ainda, tanto tempo quanto ela para nos adaptarmos a mensagens tipo murro no estômago sobre camas de açúcar em pó. A Solange falta-lhe a transparência, quase violenta, que Beyoncé tem de sobra na voz. Não é menos dura, no entanto, ao servir-se da franqueza na mensagem, assente grandemente na individualidade e numa linguagem simples, raramente metafórica, ao alcance de todos. Canta-se o que é concreto por entre narrações do que é concreto e, na maior parte das vezes, pessoal.

Goste-se ou não, o que faz é novo e assegura-lhe, por isso, destaque único: a luta negra e, principalmente, da mulher negra, têm agora um capitulo inteiro escrito a pop e R&B de primeiríssima qualidade F.U.B.U, quer por todos aqueles que a ela se juntaram nas colaborações – André 3000, Lil Wayne ou Q-Tip – quer pelas mãos de midas de Raphael Saadiq.

 



 

Mantendo-se mais ou menos consistentes em tempo e estrutura, as canções crescem principalmente dentro da própria temática. Rise abre-se como que em convocatória, suavemente marcial, para a aceitação e auto-afirmação. Weary antevê as frustrações e desilusões com aquele que é o quadro do mundo em 2016 para novamente se propor a uma busca pela apreciação individual. Em Cranes In The Sky, confessam-se todas as tentativas falhadas de aceitar noções de beleza, identidade ou pertença que não as próprias. Don’t Touch My Hair, o mais óbvio dos statements é, também, talvez, a entrada no segundo acto do álbum, momento a partir do qual as questões deixam de ser meramente individuais para abraçar as conquistas e questões do colectivo.

São 10 canções e 11 interlúdios, em jeito de guia interpretativo para o lugar da mulher negra no mundo. A Seat At The Table não é um álbum brilhante; perde-se um pouco, até, na falta de movimento e na suavidade constantes. Mas se há algo que consegue é libertar Solange para seguir um caminho que é, meritoriamente, seu e colocá-la à mesa com os grandes.

 


 

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