Jay-Z e Beyoncé no Stade de France: uma vénia aos Carters

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTOS] Direitos Reservados

A rainha e o gangster. É desta forma simples e quase antagónica que Beyoncé e Jay-Z se apresentam ao público, recorrendo a um vídeo introdutório que coloca a nu alguns excertos do seu quotidiano. Não sendo esta uma estreia na utilização das alcunhas (o primeiro episódio desta digressão conjunta, em 2014, já fazia uso delas), esta é a primeira vez que são propositadamente aplicadas em função do bem e do mal, do inocente e do culpado, da bela e do monstro. A história não deverá ser novidade para ninguém, muitos menos para as 80 mil pessoas que vibram com a sucessão de imagens no gigantesco e dinâmico ledwall que se ergue imponente no fundo de palco. Não nos podemos esquecer que estamos perante uma das mais eficazes máquinas do showbiz. Tudo aqui é pensado ao pormenor. Até o próprio enredo.

Cresce a emoção à medida que o vídeo se desenrola, mostrando mais excertos do dia-a-dia do casal, em catadupa, ora sozinhos, em momentos mais íntimos, ora acompanhados dos gémeos Sir e Rumi Carter (Blue Ivy não parece surgir neste pequeno filme). Há também alusões propositadas à fuga inspirada na história de Bonnie Parker e Clyde Barrow, uma perseguição iniciada em 2002 com o tema “03 Bonnie & Clyde”, presente no álbum The Blueprint 2: The Gift & The Curse de Jay-Z, prolongada em On the Run e reiterada com este On the Run II que para além de evocar o ideal criminoso vigente ainda explora as fragilidades de um casal que viveu recentemente episódios turbulentos, sejam eles reais ou também frutos da ficção. O remate para a introdução não podia ser melhor, com as frases “love never changes” e “love is universal” a serem exibidas no ecrã em letras garrafais.

De súbito, o ecrã vai a negro, divide-se a meio e parte em direcções opostas, colocando em evidência um cenário vertical com vários patamares e abrindo alas para a entrada em cena dos anfitriões da noite. Vestidos de branco da cabeça aos pés, de mãos dadas, como confirmação da mais forte aliança matrimonial da indústria musical, e de olhar fixo na plateia, os Carters iniciam então a descida dos céus numa plataforma elevatória, quais divindades a visitarem a terra por breves momentos. No preciso momento em que pisam o solo do palco que os liga à vida mundana e depois de avançarem ainda de mão dada em direcção ao público, o casal atira-se prontamente a “Holy Grail”, single de Magna Carta Holy Grail que vê a voz de Justin Timberlake a ser substituída por uma tão ou mais afinada Beyoncé.

 



Secundada apenas por um piano, Beyoncé navega por entre os versos que antecipam a entrada da batida, entoando frases como “and i still don’t know why / why i loce you so much” de olhar fixo em Jay-Z, enquanto este escuta calmo e sereno. Pouco depois, ouve-se um “you ready?” e segue-se então a explosão de bateria, baixo e teclas que sustentam as rimas debitadas por Hova. É neste preciso momento – ou seja, logo no início – que se desfaz a maior dúvida relativamente a este concerto. Sendo Beyoncé uma certeza adquirida no exercício ao vivo, com uma voz colocadíssima, a afinação de um diapasão e a força de um furacão, como se portaria Jay-Z naquilo que lhe compete a nível vocal? Pois bem, diga-se que o MC de Brooklyn não só cumpre com o que lhe é pedido como deixa muitos rappers mais recentes e mais bem-cotados a nível de performance a um canto.

Está lá tudo. Ritmo, flow, energia e, sobretudo, exactidão. A voz de Jay-Z soa como em álbum, o que facilmente nos remete para algumas das épocas documentadas, como serve de exemplo o clássico “99 Problems” entoado por um publico que já há muito deixou de ter freio nas suas manifestações efusivas. Pelo mesmo caminho vão “Dirt Off Your Shoulder” (e que força ganha ao vivo), “Big Pimpin” e “Song Cry”, com esta última a pedir isqueiros e luzes de telemóvel aos presentes, criando um ambiente único no estádio e arrancando ao rapper um emocionado “beautiful!”. Em nenhuma destas situações Jay-Z precisou de backvocals ou vozes pré-gravadas (a não ser as que fazem parte do próprio beat) para o auxiliarem na missão. Percorreu as suas letras sozinho e, em alguns casos, como em “FuckWithMeYouKnowIGotIt” e “Ni**as in Paris”, cantou excertos dos artistas que o acompanham na versão de estúdio. Numa altura em que vemos rappers como Lil Wayne e Future a protagonizarem verdadeiras banhadas ao vivo, sabe bem ver alguém a agarrar-se a seu repertório desta forma tão voraz, tão avassaladora. Que surpresa, esta.

Do outro lado está Beyoncé, uma verdadeira diva em palco, capaz de servir danças provocantes na sean-paulesca “Baby Boy” ou na sequência “***Flawless”/“Feeling Myself” e de, minutos depois, tocar no coração com “Resentment”, cantada a solo numa das extremidades da colossal passadeira que entra plateia dentro. E é ali, naquele momento, de cabelos ao vento (quantas ventoinhas serão necessárias para criar aquele efeito constante?), exibindo um majestoso vestido laranja e com as cordas vocais em vibração extrema, que Beyoncé nos obriga a uma inevitável questão: haverá alguém no mundo tão competente a nível de performance?

 



“Drunk in Love”, uma das canções que sucede a “Holy Grail”, é uma das músicas que nos ajuda a responder a essa questão. Depois de soarem as primeiras notas do tema e sozinha em cena (há aqui uma constante articulação de protagonismo, com constantes interlúdios vídeo que tutelam as entradas, saídas e trocas de roupa de ambos), Beyoncé dirige-se para uma plataforma que a ergue uns valentes metros acima das nossas cabeças. É desse patamar que parte para um conjunto de movimentos sensuais, que aludem obviamente ao conteúdo da letra, enquanto espera pela entrada de Jay-Z que mais uma vez prova a sua eficiência no microfone. Mas este momento é claramente de Beyoncé e do seu ciclónico vozeirão, capaz de deixar dezenas de milhares de almas em sentido. Nunca o termo “rainha” foi tão bem utilizado.

Juntos, Jay-Z e Beyoncé formam a mais poderosa aliança musical dos nossos tempos. Não há como negar. Vê-los ao vivo é testemunhar algo que só as séries da Netflix conseguem idealizar. A produção do espectáculo é mastodôntica. Há bailarinos por tudo quanto é sítio, muitas vezes a servirem de bengala às danças de Bey, como em “Formation” e “Run the World (Girls)”, ambas obviamente acompanhadas em júbilo pelo público feminino; há músicos espalhados pela tal estrutura vertical (assim de cabeça conseguimos discriminar baterista, percussionista, guitarrista, teclista, uma importante secção de metais que serve de sustento a “Upgrade U”, citando apenas um exemplo, e uma baixista que a dada altura sai do seu lugar para vir cá à frente dar as notas de “Déjà Vu”) e um cenário que muda constantemente e consoante a música.

A componente vídeo é do mais sóbrio que já se viu. Câmaras cerradas nos protagonistas e imagens ampliadas nos ecrãs que, aqui e ali, vão abrindo e fechando para dar ou tirar destaque à banda, aproveitando também para desenhar belos quadros, como acontece com os vitrais de igreja em “Family Feud”. O som, esse, é irrepreensível. Mais de duas dezenas de pontos de PA espalhados pelo estádio garantem que a escuta se faça equilibrada, sem ser preciso abusar em demasia do volume geral da mistura, muito menos da potência do PA principal, aquele que se localiza acima do paredão de ledwall montado. Deu para sentir os graves possantes de “Drunk in Love” e para ouvir o recorte dos pratos de choque de “Déjà Vu”, bem como o poder das guitarras distorcidas de “Don,t Hurt Yourself” e as cordas acústicas de “’03 Bonnie & Clyde”. Muita luz, com muito strob à mistura, para dar ênfase a “Ni**as in Paris” e “Run This Town” (tema que guardou toda a sua magnificência, apesar de não ter contado com a presença de Rihanna e Kanye West), alguma pirotecnia para rematar situações pontuais (“Ni**as in Paris” novamente na chamada) e pouco mais. Não houve bonecos insufláveis, drones a sobrevoar o palco e muito menos confetis. Tudo muito comedido e mensurado. Só ao nível dos melhores profissionais. Não deixa de ser estranho gastar-se tanta energia a publicitar as digressões dos U2 e dos Guns ‘n’ Roses quando existe um casal a fazer igual ou melhor a nível de espectáculo e com a particularidade de estarem ligados ao presente.

Existe em OTR II uma gestão meticulosa de alinhamento. Apesar de ser 37 a média de músicas tocadas em cada concerto, Jay-Z e Beyoncé, como empresários que sabem certamente levar um negócio a bom porto, optam por não interpretar algumas das canções na íntegra. Os temas nos quais Beyoncé canta nos dois primeiros momentos, deixando o terceiro nas mãos de Jay-Z, são muitas vezes reduzidos a uma versão light para poupar tempo e encaixar o maior número de informação em tempo útil de concerto. Perdem-se algumas partes importantes das músicas mas ganha-se uma dinâmica que nunca chega a dar repouso à audiência.

Um dos melhores momentos nesse sentido surge perto do final, quando, depois de uma passagem por “Déjà Vu”, Jigga parece querer atirar-se a “Show Me What You Got” (e que bela seria a visita a esta incrível odisseia de flows sobre um instrumental nervoso e polirritmado), não o fazendo para dar alas a uma inebriante “Crazy in Love”, que, lá está, salta directamente do primeiro verso de Beyoncé para as estrofes de Jay-Z, passando de seguida por uma versão em modo fanfarra de “HUMBLE.” de Kendrick Lamar, e desembocando numa poderosa e libertadora “Freedom”. Tudo isto acompanhado ao pormenor por um público que não poupa uma vírgula que seja a cada qual dos momentos.

 



Um acontecimento como este merece análise ao pormenor, por isso, não fizemos as coisa por menos e acorremos às duas noites de espectáculo propostas no Stade de France. A primeira delas esgotadíssima, até não entrar mais vivalma naquele espaço em Saint-Denis; a segunda à beira de esgotar. Antes de se proceder a um balanço geral da passagem da digressão OTR II por Paris, permita-se uma contextualização da situação. Este era um fim-de-semana de emoções fortes em França. No sábado, as celebrações do 14 de Julho, feriado nacional, com desfiles militares nos Champs-Elysées e o orgulhoso hastear da bandeira azul, branca e vermelha um pouco por toda a parte. No domingo, com a conquista do segundo título do Mundial de Futebol, num embate contra a Croácia vivido fervorosamente no próprio Stade France (a organização passou o jogo nos gigantescos ecrãs do edifício).

Terminado o tempo regulamentar de jogo e com o caneco do lado dos franceses, bastaria a Jay-Z e Beyoncé um par de alusões ao sucedido para incendiar por completo a plateia, já por si em estado de ebulição. Mas o casal foi mais inteligente e guardou o melhor para a interpretação de “Ni**as in Paris”. Hova dá início ao tema, deixa o público embalar-se na interpretação da letra e, a dada altura, pede para recomeçar tudo do início, como já o tinha feito na noite anterior, mas desta vez, com uma surpresa na manga (ou debaixo dela). “Tenho algo especial para vocês”, partilha ao microfone ao mesmo tempo que abre os botões do casaco e coloca em evidência uma t-shirt da selecção francesa com a palavra “Carter” escrita nas costas (Beyoncé seguir-lhe-ia o exemplo, minutos mais tarde, também ela com igual indumentária). A explosão de alegria foi imediata e o regresso a “Ni**as in Paris” único, com toda a gente aos saltos, em desmedida loucura, com direito a gritos, arremesso de cerveja e tantos outros indícios de felicidade extrema. Um momento que ficará certamente registado na memória dos dois artistas.

Ambas as noites chegaram ao fim com a interpretação em uníssono de “Forever Young”, com Beyoncé a cantar, algures pelo meio, “Perfect Duet” de Ed Sheeran. Mas a de domingo teve direito a bónus. Quando tudo dava a entender que o coro do original dos Alphaville seria a última coisa a ser entoada antes do regresso a casa, eis que, de rompante, nos chega aos ouvidos uma bombástica “APESHIT”, responsável pela derradeira manifestação entusiástica no Stade France (e que poder tem esta música ao vivo), onde, a título de curiosidade, estiveram também, em pleno coração da plateia, Michelle Obama e Ms. Tina Knowles.

Amor, perdão, união, celebração. Coube tudo em Paris.

 


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