Hippie Hop: Trippin’ out with Common and The Roots

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Electric Circus acaba de ser reeditado pela Vinyl Me, Please. O álbum de Common é a escolha de Outubro na nova rubrica que a plataforma dedica ao hip hop. Em 2002, Rui Miguel Abreu escrevia sobre esse disco do rapper e actor de Chicago e ainda sobre Phrenology, o quinto álbum dos Roots, texto que recuperamos agora no Rimas e Batidas.

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Depois de fazer o retrato de Gertrude Stein, Picasso mostrou-o a alguém que, surpreendido, lhe disse que não o achava parecido com a escritora, ao que o pintor, calmamente, retorquiu: “em breve será…”. Os novos discos de Common e dos Roots também podem não se parecer com a generalidade do hip hop, mas em breve hão-de parecer-se. A marca mais revolucionária destes discos – que em comum possuem a intervenção profunda de ?uestlove, o baterista e motor criativo dos Roots – encontra-se na forma como deitam por terra um dos mais sólidos dogmas do hip hop. Refiro-me ao facto de nesta corrente raramente haver referências a qualquer marca cultural mais directamente ligada à década de 60: sampla-se soul, funk e jazz pós-1969, referencia-se a produção cinematográfica balizada por Shaft (1971) e Scarface (1983), enfim, conta-se e reconta-se uma história com início certo na primeira metade da década de 70, ignorando-se o passado. Há uma explicação óbvia para isto: os pilares da Cultura, como Flash ou Bambaataa, cresceram durante os anos 70 e foi nessa década que se instituíram e cristalizaram essas ideias. O facto da intensa actividade arqueológica de escavação de samples não ter revelado grandes monumentos rítmicos pré-1969 ajudou a impor a ideia de que foi necessária a chegada da década da Blaxploitation e do escândalo Watergate para que a bateria viesse a assumir um lugar central na nova arquitetura musical.

Há ainda que recordar o facto de o hip hop ter dado alguns dos seus primeiros passos mais afirmativos precisamente no mesmo período em que o punk estalou o verniz do disco, do rock progressivo e de tudo o mais que encontrou no seu caminho. Estão bem documentadas as festas mistas com nomes provenientes dos círculos punk e hip hop em locais hoje míticos como o Roxy ou o Mudd Club. E enquanto os punks gritavam “morte aos hippies”, os b-boys faziam a cidade explodir de cor com tags caóticos que não podiam estar mais distantes da harmoniosa cultura “flower power”.

A segunda metade da década de 60 foi uma complexa época de afirmação colectiva marcada pelo Civil Rights Movement e pelo Black Panther Party, pelas manifestações contra o Vietname e pela exploração continuada de universos paralelos na arte através do combustível das drogas lisérgicas. Na música, essa agitada e entusiasmante realidade motivou incursões por zonas até então pouco familiares para a pop ou até para o jazz, expandindo-se os concertos e as composições em longas viagens a zonas estéticas não cartografadas. Através de uma combinação explosiva de LSD, política, vontade de quebrar regras e estudo de sistemas musicais não ocidentais, o jazz libertou-se e o rock tornou-se psicadélico, procurando imitar as formas fluídas desenhadas pelos slides de óleo dos concertos mais “tripantes” da altura.

 



O hip hop nunca entendeu isso.

Para começar, os anos 70 marcaram a chegada do barato e devastador crack aos ghettos. Se na década anterior o LSD e a marijuana tinham aberto as portas da percepção, o crack fechou-as com violência, substituindo a trip technicolor por um vazio negro. A ressaca económica, a falência das políticas sociais, o desemprego e consequente escalada do crime transformaram as cidades no depósito de lixo que Travis Bickle desejava em Taxi Driver (1976) ver limpo pela chuva (“someday a real rain will come and wash all the scum off the streets”). Por aqui se vê que o hip hop tinha que, necessariamente, tomar uma direcção diferente. A Cultura assumiu-se como um contraponto REAL de uma outra REALIDADE – caótica, opressiva, miserável… O espírito da Batalha (tão bem filmado em 8 Mile, com os confrontos verbais dos MCs num palco que parece montado num abrigo anti-aéreo) impôs-se como a elevação possível sobre a guerra ininterrupta das ruas, os MCs trajaram-se de soldados (vide Public Enemy) ou heróis guerreiros imbuídos de uma moral superior (Wu-Tang Clan) e os vencedores desta guerra continuada exibem agora o espólio das batalhas vencidas em orelhas, dedos e pescoços platinados e cravejados de diamantes (“bling bling, baby”). Os mártires da Cultura, esses sucumbiram quase sempre à lei da bala – Jam Master Jay, Biggie Smalls ou Tupac – e não à típica overdose decadente dos ícones do rock and roll…

Tão ocupado está o hip hop a tentar sobreviver nesta REALidade que a vontade de explorar realIDADES paralelas é praticamente inexistente. Ou era…

…até agora. Talvez o “pormenor” dos Roots apoiarem parte da sua estratégia estética na execução real de instrumentos os tenha conduzido até às margens possíveis de um estilo, aguçando-lhes a vontade de espreitar o lado de lá. Talvez o ar que se respira em Filadélfia – cidade designada como sendo a casa do “amor fraternal”, e haverá qualificativo mais hippie?… – seja diferente. Talvez ?uestlove ande a passar tempo demais com os seus amigos do jazz. Ou talvez o escapismo seja de novo necessário. Nos anos 60 a guerra do Vietname pode ter funcionado como o empurrão decisivo para o mergulho em realidades paralelas. Talvez  o 11 de Setembro tenha  reaberto a porta para esse universo alternativo. Ou talvez os Roots tenham descoberto o poder dos ácidos e oferecido alguns a Common. Provavelmente é tudo isso e nada disso. Provavelmente é mesmo só a música e a necessidade imperiosa de a expandir e abrir a novas possibilidades. De qualquer maneira, até há dois meses eu seria capaz de jurar que os Stereolab nunca se cruzariam com um rapper de Chicago.

Electric Circus mostra-nos um novo Common. O homem das cifras mordazes do clássico “Ressurection”, combatente das ruas, defensor da ética “keepin’ it REAL”, começou a mudar em Like Water For Chocolate, o seu álbum anterior produzido pelo “loose collectiv” Soulquarians, por onde orbitam ?uestlove, Jay Dilla, James Poyser e D’Angelo. Mas nada fazia prever o investimento criativo numa sonoridade mais ácida, como a que nos é apresentada em Electric Circus. Os beats expandem-se em longos mantras que, contra os mandamentos da urban radio, podem só encontrar-se com o flow experimentado de Common quando o “counter” do CD já ultrapassou o primeiro minuto. Títulos como “Aquarius”, “Star 69” ou “Electric Wire Hustle Flower”, a participação de Laetitia Sadier dos Stereolab no lisérgico “New Wave” e o namoro descarado com o regime “guitarrístico” do rock mais psicadélico em vários momentos do disco não deixam margens para dúvidas: Common descobriu os Doors, os Grateful Dead e os Jefferson Airplane de uma vez só. E, sobretudo, percebeu que há um novo herói negro para ombrear com James Brown – Jimi Hendrix, cujo espírito tutela a inspiração de Electric Circus e que é directamente homenageado em “Jimi Was a Rock Star”. Finalmente, e contra o que é comum no hip hop (que prefere fazer uma afirmação de força contra tudo e contra todos), Common decide confessar-nos a sua fragilidade, afirmando “I know pain, like Kurt Cobain” ao mesmo tempo que assume que a sua música está imbuída de um espírito diferente quando revela “i used to write shit to please niggaz/now i write shit to freeze niggaz”.

Por trás desta reinvenção estão os Roots e muito particularmente o grande ?uestlove. “Phrenology”, o seu novo álbum é, nem de propósito, uma viagem interior onde os Roots nos mostram como lidar com as tensões artísticas e as pressões da indústria para repetirem feitos anteriores (como o hit “You Got Me”, com Erykah Badu). “Phrenology” era uma ciência vitoriana que estudava a mente através da apalpação do relevo do crânio. Neste registo, os Roots convidam-nos a visitar a sua cabeça e a viagem revela-se alucinante. O álbum abre com uma declaração de intenções, quase o derrubar de outro dogma, com a voz de Ursula Rucker, assumindo o papel de uma divindade do mundo antigo, lendo palavras que soam como se estivessem gravadas nas tábuas guardadas na Arca: “in the beginning there was me, i was rhythm, life, two turntables, one…” A frase não chega a completar-se, porque a música interrompe o que soa a uma descrição da essência do que conhecemos por hip hop. O resto do disco mostra os Roots a derrubarem outros dogmas: há uma faixa de punk hardcore (“!!!!!!!!!”), a canção rock and roll que Lenny Kravitz adoraria ter escrito (“The Seed 2.0”), um normalíssimo tema que se desintegra num quadro abstracto de colagens sonoras (“Water”, com a participação de James Blood Ulmer), um exercício de “free hip hop” movido pelas palavras do grande Amiri Baraka (“Complexity”) e até, a título de faixa bónus escondida, uma escorregadela pelos terrenos do “techno”.

Como é óbvio, os Roots não esquecem o que é o hip hop (foram eles que secundaram Jay-Z na sua aventura MTV Unplugged…) e chegam a construir um dos melhores momentos do álbum – “Thought @ Work”, um “solo” do grande Black Thought, principal MC do grupo – sobre um dos breaks que ajudou a erguer o Dogma: “Apache” dos Incredible Bongo Band. Claro que a ?uestlove e companhia não interessa tanto fazer implodir a cultura, como alargar-lhe os horizontes. O álbum contém até o perfeito sucessor para “You Got Me” com “Break You Off”, mas recusa a simples repetição de fórmulas em favor de um desejo de pulverizar fronteiras e explorar territórios novos para o hip hop.

Também em Phrenology se sente o espírito… hippie (à falta de melhor termo) bem presente, na maneira como o impulso rítmico sucumbe à vontade exploratória, como a paleta tímbrica é dilatada para lá das cores normais da fundação (o funk…), como, muito simplesmente, a música se abre a espaços que se sabem mais interiores, mais experimentais. Ainda é hip hop? Claro que sim. Por vezes pode não parecer, mas, como Picasso estava certo de que as pessoas haveriam de reconhecer na forma como pintou Gertrud Stein as marcas que definiam física e intelectualmente a escritora, também os Roots e Common acreditam que o hip hop pode crescer para lá das malhas que o ajudaram a definir-se. Basta abrirem a cabeça…

 


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Artigo originalmente publicado na revista OP em 2002. 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu