Força Suprema: “A nossa música não tem código-postal”

[ENTREVISTA/TEXTO] Ricardo Farinha [FOTOS] Diogo Cruz [VÍDEO] Luís Almeida [PRODUÇÃO] Alexandra Oliveira Matos

Eles são NGA, Prodígio, Masta e Don G — a Força Suprema —, aqueles que já apelidámos como a maior força no hip hop nacional e uma das primeiras visitas que fizemos depois da abertura desta revista digital, em Abril de 2015.

Passado um ano e meio, voltámos a Sintra, ao quartel-general da Dope Muzik e do BOPE — “Para vivermos da música tivemos que ter muita disciplina e inspirámo-nos no BOPE do Brasil, o Batalhão de Operações Policiais Especiais. É trabalhar, ter valor e não ter preço, não ser preguiçoso nem coitadinho, ser um lutador, gostar da vitória e sentirmo-nos mal quando perdemos. Nós acreditamos nisso, enquanto homens e na música”, nas palavras de NGA, o líder do colectivo da Linha de Sintra que nasceu em 1998.

Ao longo dos anos, esta mensagem positiva do hustle — e a maneira como a colocam nas rimas e batidas do grupo — inspirou milhares nos subúrbios lisboetas, até se alastrar por Portugal e, posteriormente, chegar a Angola, aos outros PALOP e a países europeus por onde a Força Suprema tem pisado palcos.

É de equilíbrios e de aparentes (mas determinantes) paradoxos que é formado o ADN da Força Suprema. Se há um lado muito espontâneo e natural na criação artística, também existe pensamento e uma forte estratégia por trás, a sustentar e a consolidar o sucesso do grupo. A imagem que muitas vezes passam é a de que desfrutam de uma vida boémia e em constante festa, mas esses momentos, mais propícios a serem recortados pela luz dos holofotes, só existem porque nos bastidores, na sombra, são trabalhadores dedicados.

Não são Leonardo Da Vinci, Michelangelo, Raphael ou Donatello — os pintores italianos renascentistas que também deram o nome às tartarugas ninja. Mas NGA, Prodígio, Masta e Don G são visionários que pintam quadros e telas mentais, segundo nos contam nesta entrevista — “Eu pinto quadros tipo Van Gogh, ma nigga”, já nos tinha avisado NGA em “Van Gogh”, no EP Atitude.

O colectivo editou recentemente E A União Fez a Força — um álbum com 12 faixas e 12 vídeos — e assinou com a Sony Music para lançar o disco em Portugal. Nas últimas semanas estiveram a apresentar o álbum em Angola, onde se venderam milhares de cópias, se escreveram milhares de autógrafos e se tiraram milhares de fotografias, com a habitual euforia dos fãs que até os seguiram de mota pela estrada (tal e qual um autocarro da selecção de futebol em Portugal, sim).

Antes do concerto oficial de apresentação em Lisboa, o Rimas e Batidas visitou a Força Suprema na sua casa. A actuação acontece no estúdio Time Out do Mercado da Ribeira, no Cais do Sodré, esta sexta-feira, 25 de Novembro, pelas 23 horas. Basta comprar o CD/DVD acabado de editar na FNAC, por 9,99€, que dá direito à entrada no concerto.


Acabaram de lançar E A União Fez a Força, um trabalho colectivo maduro, após tantos anos de actividade. O álbum representa essa consolidação de carreira e a importância da união do grupo?

NGA — Sem dúvida. Fazemos 20 anos juntos em 2018 — lançámos uma mixtape em 1998, em cassete. E já estávamos juntos antes disso, mas só como amigos. Este álbum reúne tudo: os nossos altos e baixos e aquilo que passámos — porque a música é um dos nossos laços, mas não é o mais forte. Nós até temos poucos projectos em grupo, a maior parte deles é a solo. Temos este álbum, a mixtape FS4Life, com dois ou três anos, e alguns projectos mais antigos. Este álbum é a consolidação disso tudo: é um resumo, porque não dá para enfiar 20 anos em 12 faixas. É um resumo daquilo que nós somos, do que passámos, do que nos torna a Força Suprema, porque é que o nome é esse, e [porque é que] hoje ainda faz mais sentido do que na altura que o escolhemos.

Vocês existem enquanto colectivo desde 1998, são old-school, mas a percepção que passam não é a de que pertencem ao passado ou a uma era que já terminou. Penso que as pessoas vos vêem como estando no auge da carreira, ainda completamente actuais e deste momento. Como é que se sentem enquanto um dos colectivos do hip hop português mais antigos ainda no activo? E vocês são muito activos…

Prodígio — Eu acho que contribuo um bocado para isso, pelo facto de ser o mais novo. Vou sempre trazer mais coisas da actualidade, mais daquilo que se diz que está na moda… os produtores vão-me chatear a mim. Vou ter sempre beats fresh. E nós vamos ser jovens para sempre, de espírito. Acho que antigo não é velho. Acho que só por teres uma idade não tens que ser ou portar-te de alguma forma, ou a tua música tem que soar de uma determinada maneira. O meu pai tem 74 anos e às vezes ainda brincamos às lutas. Ele é o maior exemplo de que isso da idade é só um número. E a Força Suprema vai ser para sempre jovem, pelo menos eu acho que posso dizer isso pelos meus irmãos.

 


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Lançaram E A União Fez a Força com um vídeo para cada uma das 12 faixas. Porque é que quiseram apostar tanto na componente visual?

Don G — Pegando um bocadinho naquilo de nos actualizarmos… hoje em dia o contacto visual é mais importante do que aquilo que estás a ouvir. E fomos habituando um bocadinho as pessoas, porque já na FS4Life fizemos isso, dez faixas e dez vídeos. Não queríamos fugir àquilo que era a receita do passado. Além disso, uma vez que estás a dizer certo tipo de coisas, é importante que tu vejas, ou pelo menos que chegues perto daquilo que eu estou a tentar dizer. Então os 12 vídeos acompanham a trajectória e aquilo que a gente está a dizer nas músicas.

Tentaram ter vídeos diferentes, com estéticas variadas? Como funcionou essa parte de falarem com os realizadores?

Prodígio — Os manos que fizeram os vídeos são pessoas que a gente conhece. E portanto sabiam exactamente o que queríamos dizer, como, por exemplo, o WilSoldiers, com quem já trabalhamos há mais de uma década.

Don G — O homem é praticamente um trabalhador da Força Suprema [risos].

Prodígio — Do Nuninho — que é o Black Rose, que por acaso andou comigo na escola, desde o quinto ano — até ao André [Santos], que é um dos meus realizadores portugueses favoritos… é pessoal que entende aquilo que queremos dizer. Eu sei que eles vão representar, pôr em prática as nossas teorias, e isso é que faz sentido.

Quanto tempo é que demorou este processo todo, de gravar os vídeos e editá-los?

Masta — Foi, mais ou menos, seis ou sete meses.

Como é que o disco tem sido recebido e como foi para vocês fazê-lo?

NGA — O feedback tem sido super positivo. Eu próprio, como fã de rap, curti muito a química e a sintonia, de quatro MCs durante o álbum todo. E nós vivemos literalmente juntos debaixo do mesmo tecto, ou passamos a maior parte do tempo juntos, o que faz com que a música se torne ainda mais pessoal e credível, porque é mesmo verdade, nós estamos mesmo juntos há este tempo… e acordamos juntos, seja no estúdio, na tournée, e muitas vezes dividimos a mesma cama, o mesmo prato, entendes? O que estamos a dizer é mesmo credível, é for real. É verdadeiro, é autêntico, genuíno.


 

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Vocês já estiveram a apresentar o álbum em Angola, onde já estão habituados a uma grande euforia por parte dos fãs. Porque é que acham que são mais mainstream em Angola, em relação a Portugal, apesar de todo o sucesso que também têm tido por cá?

Prodígio — Angola é um país maior… tem mais pessoas e é um país mais quente. Vou dar um exemplo: quando eu vivia em Angola, aos oito anos, a música em Luanda, do meu vizinho, começava às oito da manhã. Começas a ouvir kuduro às oito da manhã. Então já acordas para o dia com uma energia diferente. Quando não vemos um irmão há dois dias, a gente abraça-se, salta para cima um do outro, empurra-se… isso nota-se na malta jovem, mas os mais velhos também gostam. Nós cruzamo-nos com pessoal do banco, do executivo, do partido… que diz que gosta da nossa música. Só que obviamente os mais jovens têm uma forma mais calorosa [de o demonstrar]… costumo dizer que eles gostam mais de atenção. Quando eles gostam de alguém querem mostrar que aquilo é melhor do que tudo o resto.

NGA — Portugal também tem pessoal mais velho, e os jovens é que criam a tendência. Para muitos, a Força Suprema, neste momento, é uma moda. Uns anos depois dirão se, para eles, continua a ser moda ou se passou. Então, o facto de Angola ter muitos jovens torna aquilo que tu crias — no nosso caso, música — mais popular de uma forma mais rápida. Porque, de resto, o carimbo que nós temos não tem código-postal.

Mas é interessante que apesar de usarem muito (e bem) a Internet para promoverem e espalharem os vossos trabalhos, em Angola a indústria ainda funciona de forma tradicional e isso não tem sido, de todo, um obstáculo. Vocês organizam vendas de discos e sessões de autógrafos que têm centenas ou milhares de pessoas…

NGA — Mas isso também passa por outros factores, o acesso à Internet… estamos a falar de um país que continua a recuperar de uma guerra civil muito longa. O que importa é o calor humano, que as pessoas curtem, se é no CD ou no YouTube, se é no que for, não interessa, é só uma plataforma. Isso é só o prato, o importante é a refeição, a comida que está no prato, e essa tem sido bem consumida.

 


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NGA: “O hip hop é seres independente, fazeres com aquilo que tiveres”


Apesar de serem angolanos, vocês começaram a fazer rap aqui, na Linha de Sintra, em Portugal. Como é que depois se deu esse regresso a Angola através da vossa música?

Don G — Eu e o NGA chegámos cá em 93/94, vivemos toda a nossa vida aqui, começamos a carreira cá, vivemos em Angola só até aos 9 ou 10 anos. Então tínhamos aquela imagem um bocadinho desfocada. Depois de fazermos muito rap, o NGA fez contactos, mandávamos músicas para Luanda, mixtapes, havia algum pessoal que já tinha Internet. Depois foi aquele processo até chegarmos mesmo a Luanda, em 2009. Querendo ou não, nós somos angolanos, somos imigrantes em Portugal. Então não há nada melhor do que voltares a casa e seres bem recebido. E a música tem sido cada vez mais consumida — não só lá, aqui, mas noutros lugares onde nunca imaginámos que alguma vez fosse consumida.

NGA — É a força da música. É como água, podes meter o que for, aquilo fura. Leva algum tempo… mas depois passa. Hip hop tem isso. Um gajo ouvia rap francês, e até hoje só entendo uma ou duas palavras, mas é a alma, o feeling, a vibe, os instrumentos, os instrumentais, o flow… ainda por cima Angola, Portugal, Brasil, e outros países, partilham o português. Era só uma questão de tempo até acontecer. Porque até antes dos nossos contactos nos abrirem as portas em Angola, antes de irmos para lá, a nossa música já tinha ido. Nós depois é que fomos contactados: ‘olhem, a vossa música está a tocar aqui’. Mas quem realmente levou foram as ruas.

Já disseste em entrevistas que praticamente não escrevias as letras, era tudo muito espontâneo… como é que funciona, afinal, o vosso processo de escrita de rimas?

NGA — Eu não escrevo na folha. Vou pintando o verso na minha cabeça, como se estivesse a escrever numa folha, mas na minha cabeça — só que levo o tempo que for, até se tornar para mim como uma música popular, já conhecida. Repito aquilo na minha cabeça e vou mudando… é um processo mental. Como não faço outra coisa a não ser música, ocupo o meu tempo com isso. De vez em quando também gravo umas melodias no telemóvel para não me esquecer. Mas as letras têm de ser assim na cabeça. E às vezes um gajo esquece-se. Acordo super inspirado, vou comer qualquer coisa e desapareceu tudo. Mas acho que isso faz parte do processo do artista, faz parte da beleza da coisa… mas depois também fico ‘epá, perdi granda cena’. Faz parte.

E com os outros, também é assim que funciona?

Masta — No meu caso é um bocado diferente. Eu aponto no telemóvel e depois também vou pintando na minha cabeça, chego no booth [cabine para gravar a voz] e tento meter linha por linha para ser mais fácil. Às vezes sai com aquela alma boa, mas noutras olho para o telemóvel para a entrega ser melhor. Em geral vou cada vez mais metendo a caneta e o papel de lado…

Prodígio — Para mim é um bocado fácil porque eu venho da escola do freestyle, antes de fazer música passava o tempo todo na rua a fazer freestyles. Sou mesmo um bebé do rap [risos], então para mim funciona mais ou menos como o NGA, mas acho que ainda arrisco um bocado mais. Mas na vida também sou assim. Ele é mais organizado e eu sou um bocado mais maluco, então vou muitas vezes para o booth sem nada, só com o instrumental [risos].

Don G — Quanto mais praticas mais profissional ficas. E a cena é básica, estás a ouvir um beat, vem-te uma melodia que se vai transformar em palavras, depois em versos, e assim sucessivamente… é um processo que, aqui, é mesmo natural. Graças a Deus, tenho monstros ao meu lado, então estou sempre tranquilo.

 


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E no que toca à produção e realização dos vossos projectos, vocês organizam-se enquanto grupo, definem estratégias, ou, tal como as rimas, é mesmo natural e vão fazendo as coisas?

Don G — Na Dope Muzik, que é o quartel-general… independentemente do trabalho que seja, há sempre prazos. E aqui só se cumprem ordens. Só o Monsta e o Deezy é que de vez em quando não cumprem. Desde as mixtapes aos álbuns, é sempre determinada uma data, as cenas são sempre feitas com antecedência e nada é feito por acaso — do género ‘vamos acordar e amanhã vamos lançar um som’ — não funciona assim. Já aconteceu no passado, mas agora não.

NGA — Nós tínhamos o ano de 2016 planeado em 2015. Lançámos cinco projectos: em Fevereiro, dia 14, Prenda; em Março, Cozinha Aberta 2; o projecto do Deezy, em Abril; depois o do Monsta; e depois este álbum. O álbum foi preparado no meio dessas mixtapes. E era suposto sair depois dos treinos, nós encaramos muito as mixtapes como um ginásio, por isso é que criámos esse hábito… na altura [início] não havia YouTube, era na Kingsize, onde comprávamos singles e rimávamos em cima de qualquer instrumental. Daí muita gente que não percebe a cultura hip hop achar que um MC “roubou”… eles não entendem. O espírito do hip hop é seres independente, fazeres com aquilo que tiveres. Por isso é que em casa gravámos com caixas de ovos para insonorizar, por isso é que fizemos videoclips com a primeira câmara que encontrámos, isso é hip hop. Não é suposto estar bonitinho, é suposto ser como é, na altura. E depois melhorar. E connosco foi esse processo. As mixtapes foram esse ginásio, e depois encarámos o álbum como uma luta final.

E em relação aos instrumentais, como é que trabalham essa vertente?

NGA — Nos álbuns é mais pela vibe. Nunca sabemos que instrumental vamos receber, porque nenhum de nós produz. Só o Prodígio, que depois trabalha [os beats] com o Ghetto Ace. Mas há aqueles [instrumentais] que te tocam de uma forma diferente porque te levam para um momento que tu sentes que é para o álbum. As mixtapes são como um convívio onde tu não aprofundas muito a conversa — mulheres, festas, assuntos mais leves. Não chegas à festa com os teus amigos e começas a falar de todos os teus problemas de casa. Isso tu fazes sozinho ou com um amigo muito próximo. Então esse momento — com um amigo próximo — é o que a gente vai pôr no álbum.

E trabalham com produtores habituais?

NGA — Temos muitos habituais [risos]. O Ghetto Ace, o produtor que está connosco há mais tempo; durante muitos anos trabalhei com o Madkutz; o Juzicy; o DMinor; o Gaia, em Angola; o Ksuno… mas de vez em quando aparece um [beat] daquele mano que não estava nos planos e nós vamos pelo instrumental, pela música, não vamos pelo nome. Se um gajo gosta, usa.

 


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
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