Flying Lotus: o futuro aconteceu há 10 anos, em Los Angeles

[TEXTO] Diogo Santos [FOTO] Direitos Reservados

Não foi à primeira, com 1983, foi à segunda, com Los Angeles, que Flying Lotus refinou a sua arte e se ergueu bem alto como um dos mais proeminentes nomes do hip hop e de todas as suas ruas e ruelas. Na altura, e sem espantar, Madlib e J Dilla apareciam como grandes influências e, mais do que isso, figuras inspiradoras. Steven Ellison, que tem os gigantes Coltrane na árvore genealógica, nunca escondeu a admiração pelo mestre Dilla, naturalmente. Texturas. Camadas. Ruídos. Piscares de olhos a uma variedade de sub-géneros e culturas, do dubstep ao IDM, do techno à soul. Do bass dos clubs, ao corte-e-cola saído da mala de um Honda Civic estacionado num qualquer In-N-Out.

A forma de destruir e construir não é nova e tem raízes bem evidentes, especialmente as já citadas anteriormente. A ousadia está na forma como a estática, o ritmo, a distorção e o ruído se unem num caleidoscópio sonoro que primeiro se estranha e depois, pronto, é o que sabemos. Não é fácil. É até desafiante e compreende-se muito melhor se escutado de uma ponta à outra — regra que é de aplicar ao resto da discografia. Los Angeles, ou a Califórnia para alargar o espectro, é berço de intocáveis nestas e noutras andanças. Mas se na última década se falou à boca cheia do som de LA, é muito por culpa da onda que FlyLo ajudou a criar. E não deixa de ser curioso (ou é óbvio?!) que o álbum intitulado Los Angeles seja um dos cartões de apresentação da cena. Isto é, apesar da capa a fazer lembrar o Mezzanine dos Massive Attack, sabemos que vamos para a um sitio onde há sol, os Lakers, estúdios de cinema, etc..

Los Angeles apareceu ao mundo com o selo da insuspeita Warp, onde Lotus já tinha editado o EP Reset. Chegar, e com estrondo, à editora de Aphex Twin ou Boards of Canada era per si algo de assinalar numa carreira ainda a dar os primeiros passos. E já que aqui estamos, a coisa correu-lhe tão bem que a faixa de abertura de LA, “Brainfeeder”, lá serviu para baptizar a editora onde o rapaz Ellison faz, deste então, disseminar o som da vizinhança. A homenagem à cidade do estado da Califórnia é evidente ao longo dos 17 temas. A paleta de cores não tem fim. Primeiro, os sons quase acolhedores como “Breathe Something/Stellar Star”. E depois, até mais ou menos a meio, há um Flylo a puxar dos galões e a demonstrar faixa a faixa toda a sua técnica. Em “Riot” já nos deparamos com mais fricção e confusão, com a electrónica e os sons mais paranóicos a tomarem Los Angeles de assalto – seria OST perfeita para um remaster do Grand Theft Auto San Andreas. As últimas cartadas do segundo longa-duração de Flying Lotus batem-lhe à porta do quarto e não tanto ao portão da rua. Há mais soul e sonoridades clássicas da música negra que ouvira em garoto, nomeadamente um sample de material da sua tia-avó Alice Coltrane, em “Auntie’s Harp” e “Auntie’s Lock/Infinite”. E sim, é também por aqui que o amor a J Dilla sobressai ainda mais, com composições mais relaxadas e envolventes. Um Donuts e um café, se faz favor.

Há 10 anos, Los Angeles era o futuro. Juntamente com artistas como The Gaslamp Killer e Shlohmo, FlyLo ajudou a trilhar caminhos para o som de LA, a dar-lhe uma identidade e uma estética mais ou menos reconhecível em todo o lado. De lá para cá, Flying Lotus tornou-se um dos maiores embaixadores da música de raízes negras, sem fronteiras. Não é que fosse muito necessário neste exercício, mas as aproximações a Burial, MF Doom, Kendrick Lamar, Thundercat ou Radiohead são bons exemplos, quer da notoriedade de FlyLo, quer da sua capacidade para explorar os mais diversos terrenos. De então para cá, mais três discos imperdíveis e um sem número de outros projectos e colaborações. Filmes. Bandas sonoras, e a última assenta-lhe quem nem uma luva — Blade Runner 2049Black Out 2022 — uma vez que é música do futuro para o futuro.

 


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