Fizz sobre Inshallah: “É um grito de esperança, positivismo, luz e brilho”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Dom Vivi

Fizz regressou aos álbuns com Inshallah. O rapper e produtor do Miratejo voltou a contar com Quim nos convidados e adicionou Mr. Razor, Subtil e Marliza à equação.

Mais de dez anos separam Inshallah de Dias, Semanas, Meses e Anos…, o primeiro trabalho de originais de Fizz. O número 30 é o ponto-de-ligação entre todas as obras do rapper e produtor do Miratejo, que tem lançado todos os seus LPs no último/penúltimo dia do mês.

Numa fase em que o artista, actualmente a residir em Londres, voltou a sentir a necessidade de se expressar com rimas e batidas, Inshallah é a primeira parte de um projecto duplo. “Voltei a ligar a MPC que andava desligada há dois anos e voltei a ganhar o mesmo amor que tinha quando comecei”, revelou em conversa com o ReB.

O currículo de Fizz também contém discos como Caderno Diário (2009) e Lealdade Acima de Tudo (2013), bem como um projecto colaborativo com Fumaxa. Inshallah está disponível nas plataformas digitais e Fizz deixa ainda a promessa que irá disponibilizar o projecto em formato físico.

 



Porquê Inshallah como título do trabalho que lançaste hoje? É um álbum de fé?

Eu acho que a fé somos nós, acreditarmos em nós, muitas vezes sem direcções religiosas. Tu és o teu próprio génio sem precisares dos rótulos publicitários de descrição do teu ser. Tu conheces o teu potencial e tu sabes do que és capaz sem necessitar de aceitação social. Inshallah significa “Se Deus quiser”. Nós somos os nossos próprios Deuses. É um grito de esperança, positivismo, luz e brilho dentro de nós, que temos que ir buscar em nós nos momentos mais escuros e menos bons, momentos de conhecimento e crescimento pessoal. Recitei sempre essa palavra para me manter são e com os pés bem assentes no meio de tanta negatividade e rodeios com os quais não me identificava. Inshallah foi alcançar o impossível sem cunhas, fiz tudo sozinho desde os instrumentais ao mix e ao master, pormenores, flyers e capa. Senti que muita gente deixou de acreditar nos meus dons e tive que me surpreender a mim e a todos os que me seguem. Foi um álbum de valores — riqueza que muitos perderam.

Tens mantido sempre a escolha do dia 30 de um determinado mês para a edição dos teus projectos. Qual é a tua ligação com esse número?

Notei que os meus projectos passados foram lançados em dias 30 e, como queria desvendar o álbum soon, ou lançava a 30 de Julho ou a 30 de Agosto. O álbum estava pronto, só precisava de uns pormenores e decidi lançar agora. Há menos de uma semana escolhi a tracklist, no meio de 40 faixas gravadas, e meti cinco dias antes nas plataformas online, para ficar pronto no dia 30. Dia 30 terá sempre um sentimento especial para mim.

Cinco anos separam este LP do anterior. Como se desenrolou o processo criativo deste disco?

Existiram inúmeros acontecimentos na minha vida, como é normal, e cada álbum sempre representou uma era, uma fase, e em cada fase passamos por todo tipo de situações e vivências e isso irá ser reflectido pela sonoridade e pela escrita. Já tinha deixado o hip hop. Andava mais concentrado na vida pessoal porque deixei de me identificar com aquilo que o hip hop passou a representar. Mas sou uma pessoa que está sempre em constante evolução e aprendizagem. Gosto sempre de aprender mais e não meter limites. Voltei a ligar a MPC, que andava desligada há dois anos, e voltei a ganhar o mesmo amor que tinha quando comecei. Produzi mais de 100 beats, escrevi uns 70 e tal sons, empenhei-me a aprender novas técnicas de estúdio porque nunca quis depender de ninguém. E não fiquei satisfeito enquanto não fizesse um álbum que eu conseguisse ouvir do princípio ao fim sem fartar. Tens que ver que muitos manos deixaram de fazer o que gostavam porque a vida deles mudou. Talvez o amor que tinham deixou de fazer sentido porque se calhar se sentiram desvalorizados e tiveram que se concentrar na vida, ou simplesmente não quiseram evoluir mais e ficaram dependentes de muita gente no rap. As mesmas pessoas que te valorizaram serão as mesmas a desvalorizar e sabem muito bem o que fizeste por elas. O importante é vivermos com altos e baixos para podermos contar a nossa história duma forma real, profunda, detalhada e não ilusória para vivermos da verdade. É graças ao pessoal que me tagava e mandava mensagens sem parar ao love que me deram que eu lancei o Inshallah. Este álbum foi por mim dedicado a todos os meus ouvintes que são orgânicos. São reais mesmo.

Contaste com convidados da “velha guarda” como o Mr. Razor e também com caras mais “frescas” no hip hop, como é o caso do Subtil. Como se deram essas conexões?

Foi respeito mútuo. Eu queria muito um DJ no meu álbum, acho que é uma das vertentes mais importantes no hip hop, e o Razor para mim foi a melhor opção. É bastante experiente, super humilde, demasiado underrated e, quando comuniquei com ele, foi um convite humilde e directo. Ele na mesma semana começou a trabalhar na track. Senti a dedicação e acabámos por fazer três collabs mas eu só desvendei duas. O Subtil é um MC que tenho acompanhado ultimamente e é raríssimo eu convidar algum MC que não conheça pessoalmente, porque podemos não ter a mesma visão na faixa e o som não sair forte. Com ele foi respeito mútuo. Senti a evolução e a garra e que merecia um destaque maior com a mensagem que carrega. Já tinha o instrumental do “Ganha Pão”, convidei-o e fizemos um contraste ao rimar vidas muito reais num instrumental alegre e calmo. O Subtil vai ser um dos melhores MCs da “tuga” se ele quiser e o povo apoiar.

Apesar de estares a residir fora de Portugal, não quiseste deixar de homenagear a tua zona e os teus heróis em “Era Uma Vez No Miratejo”, tema no qual também ouvimos o Bambino e o Carlão. Este é também um álbum de “saudade”? De que forma é que o Miratejo ainda influencia a tua escrita?

Tive que contar a minha história no rap e como o encontrei dentro do bairro em que eu cresci e vivi. Não penso que estou a homenagear os heróis mas sim onde cresci. Eu vim da verdadeira essência do “Mira”, que relato na música, e explico pontos que muitos não tinham noção. Eu falo de spots que a maior parte das pessoas hoje em dia não os conhece, das incógnitas de quem lá não vive. Descrevi o Miratejo que foi e o Miratejo de hoje. Usei esses dois excertos [do Bambino e do Carlão] como referências do que já foi o Miratejo. O bairro é o mesmo, as histórias são diferentes, mas as coisas que eu vivi serão eternas. Estou sempre ligado à minha zona sempre que estou em Portugal e, por isso, essa saudade nunca existe. Já não é a zona que já foi mas quem conhece a história sabe do que eu falei.

Acompanhas à distância o “boom” que o hip hop em Portugal está a atravessar? Se sim, que artistas segues com mais frequência e quais são as caras novas do hip hop a trazer um conteúdo capaz de te inspirar na tua própria música?

Para ser sincero não oiço artistas da “tuga”. Estou mais ligado a coisas de fora. Eu não oiço tudo mas aquilo que me chega e seja bom eu vou reconhecer sempre. Tenho uns EPs com MCs a sair e, se estivesse a residir em Portugal, provavelmente já tinha feito como o Kanye — ter produzido EPs para mais MCs que fossem valer a pena. Existem muitos poetas crioulos e portugueses desvalorizados.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira