Faixa-a-faixa: o novo álbum de Cálculo explicado pelo próprio

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Rafaela Ramos

Cálculo lançou ontem o seu mais recente álbum, Tourquesa. O MC e produtor de Barcelos está de regresso aos discos — A Zul foi lançado em 2015 — e não veio sozinho: Macaia, Fábia Maia, Harold (GROGNation), BRDZ, Ace, Cuss e DJ Flip são alguns dos nomes que acompanham o artista ao longo das 13 faixas.

As apresentações do disco já estão marcadas: Kristóman e NastyFactor (que também vai tocar o seu novo EP nas duas datas) acompanham Hugo Martins no Hard Club, Porto, no dia 16 de Fevereiro, e Musicbox, Lisboa, no dia 23 de Fevereiro.

Ainda a tirarmos as nossas próprias ilações sobre o seu segundo longa-duração, desafiámos Cálculo a explicar, faixa-a-faixa, Tourquesa.

 


[“Estrelas”]

“O ‘Estrelas’ foi um dos temas que demorou mais a fazer a nível instrumental e a nível de rimas porque eu queria mesmo que transmitisse exactamente o que eu estava a pensar. No fundo, isto é um desabafo com as estrelas. Como se eu quisesse falar com elas e soubesse que no fundo elas nunca me iriam ouvir. É como daqueles desabafos em que estamos a olhar para o céu e queremos dizer alguma coisa. Eu utilizo aqui as estrelas como um escape e acabo por perceber que elas estão noutro tempo e que eu nunca sequer vou conseguir ter alguma importância em relação a elas. A nível instrumental, foi um som de que fiz o esqueleto rapidamente. A batida foi bastante rápida, mas depois tive que preencher com o sample que se adequasse ao feeling. Fui buscar um sample, como podem ouvir, meio jazz, dark, meio com ruído até, e juntei o baixo que foi tocado pelo Benny para dar aquele groove que eu estava mesmo à procura. O “Estrelas” é dos meus sons preferidos e decidi também fazer uma pequena introdução com o próprio som para o álbum para entrarmos no mood certo, digamos.”

 


[“Melhor de Mim”] c/ Macaia

“O ‘Melhor de Mim’ é um dos temas do qual me orgulho muito do álbum. E que demorou bastante até estar concluído a nível de instrumental e estético. Uma letra que foi escrita rapidamente naqueles momentos mais melancólicos em que procuro, de uma maneira feliz, tentar transmitir a mensagem de que o que interessa mesmo é deixarmos aqui algo grandioso e algo que nem sequer se pode materializar — que são os actos que vamos fazer durante a vida e a marca emocional, transcendente e espiritual que deixamos e para ficarmos bem com o nosso íntimo. A nível estético, como estava a puxar-me para um gospel, eu tive de falar com o Macaia para dar uma cena soul. Depois também tive de juntar o coro que ouvimos no fim. Foi um coro a que cheguei através do Macaia. É um som que também tem ali aquela surpresa no fim — o coro — que foi gravado num take numa igreja. Foi especial fazer este tema. É um tema em que eu procuro, de certa forma, dizer aquilo em que acredito e o que é significa mesmo a vida para mim.”

 


[“Salvar o Mundo”]

“O ‘Heróis’ e o ‘Salvar o Mundo’ foram os primeiras temas que eu fiz do álbum. Já tinha esqueletos de alguns dos temas, mas foi o que ficou pronto mais depressa. Também acho que tem a ver por ser uma mensagem tão directa e tão honesta sobre o que eu estava a sentir quando estava em Londres e também um bocado essa mentalidade de querer salvar os que me são próximos. Nós quando somos mais novos pensamos que podemos salvar o mundo inteiro, mas depois apercebemo-nos que temos que ir salvar tudo aos bocadinhos para conseguirmos fazer uma diferença maior. E é uma música que fala da luta de estar longe de quem eu gosto e de estar longe do meu país. Foi a música em que eu decidi mesmo, ‘vou voltar agora para Portugal e tentar fazer aquilo de que eu gosto e não vou perder tempo a não fazer aquilo que eu não quero’. A nível de letra, também foi bastante rápido na altura quando escrevi. Eu fiz o instrumental todo também bastante rapidamente. Foi uma vibe que me surgiu e depois pedi ao Dário, que é um pianista, para dar um toque mais jazz ao som. Também ‘tou contente por este tema. É um dos tema do qual tenho mais orgulho a nível da letra, e a nível da mensagem, e de ser tão transparente. E que dá, se calhar, a este álbum o tom. Foi o que abriu, foi o que iniciou, foi o primeiro single que lancei e continua a ser dos temas que ao vivo melhor funciona. É um tema que é muito especial para mim.”

 


[“Creme”]

“O ‘Creme’ acho que é o som mais gozão do álbum. É o tema em que eu arrisquei na minha faceta mais gozona e de brincadeira. Pronto, foi um tema que também começou pelo beat. Saiu-me este beat meio funky, meio blues. Comecei a imaginar uma batida que desse a cadência que eu estava à procura. Começou a sair uma letra que fala do C.R.E.A.M. e que é sobre uma luta que nós temos durante a vida: o que é que o dinheiro nos pode trazer de bom e o que é que nos pode trazer de mau e, como eu digo na letra, é um ‘inferno e o paraíso ao mesmo tempo’. E retrato aqui quase como se fosse uma pessoa. É um tema que também gosto. É gozão e tem um ritmo que eu gostei. O instrumental também foi bastante rápido de realizar. Foi dos mais simples até, a nível de produção, mas resultou bem.”

 


[“Não Paro”]

“O ‘Não Paro’ foi um dos últimos temas que fiz. E foi o último single que foi apresentado antes da saída do álbum. Foi um tema que fiz em conjunto numa jam. Estava a ter uma jam de beats enquanto fazia um live de Instagram e fiz dois acordes no Rhodes e guardei essa ideia. Na semana a seguir peguei nisso e comecei a cantar o refrão. E começou a vir-me à ideia uma história daquela cena quando tu começas a ter algum relevo e algumas pessoas vêm ter contigo por esse relevo, e às vezes iludidas que uma pessoa tem muito dinheiro. E, no fundo, nós ‘tamos aqui a lutar pelas nossas cenas. Acaba por ser uma sátira/brincadeira de uma personagem que vem ter comigo e que já era fã desde sempre — temos sempre aqueles fãs de sempre, mas que só quando ‘tás a surgir mais activo é que são mesmo teu fãs. E fiz uma história com isso baseado em histórias reais. É um tema animado, um tema que tive a participação do André Sobral na guitarra e, quando ele veio cá para fazer uma jam, surgiu também a ideia de ele entrar na música porque faltava ali qualquer coisa. A guitarra veio dar outra abertura ao som e outra textura mais agradável, mais quentinha. É uma tema especial, é tudo especial [risos].”

 


[“Fogo”] c/ BRDZ & Cuss

“O ‘Fogo’ é um tema que já devia ter saído há mais tempo. É aquela música de reunião com os meus amigos — BRDZ & Cuss. Antigos amigos com quem comecei a carreira hip hop mais a sério, com quem gravei as primeiras faixas, fizemos bastantes. Foi mesmo naquela altura muito criativa da minha adolescência/jovem adulto e decidimos juntar-nos de novo para fazer uma música de egotripping, dicas, uma música mais agressiva, mais gozona também. De ostentar skill, digamos. Aliás, o Cuss já não rima há muito tempo. Fui mesmo buscá-lo à inactividade. Ele já ‘tava meio reformado e não fazia música há algum tempo. E o BRDZ, claro, também é um prazer. Espero repetir mais músicas com os meus amigos. A nível instrumental, foi uma música também bastante rápida a ser feita. A única coisa que ficou para o fim foi mesmo as linhas de baixo. Também é um tema que eu prezo bastante por ser muito diferente. No fundo, eu tentei neste álbum ter sempre uma vibe diferente em cada som para tentar casar bem com a mensagem.”

 


[“Saíste”]

“O ‘Saíste’ foi o segundo single que saiu com videoclipe. Ainda foi feito em Londres. E é aquela música da redenção amorosa, quando o personagem vê que no fundo a pessoa que estava aqui, nesta almofada ao lado, afinal já não ‘tá. E que se calhar a culpa não foi dela, foi minha ou foi dos dois. É aquela música que sei que muita gente se identifica. Também recebi sempre feedback fixe de pessoas a dizerem que é exactamente isso que sentiram quando estiveram numa situação idêntica ou mesmo pessoas que estão em relacionamentos. É aquela música de amor em que paramos para pensar no porquê das coisas. É uma música que a nível instrumental teve a guitarra do Beni Mizrahi, que complementou mesmo bem. Eu quando fiz o instrumental com o sample pensei sempre que precisava de uma guitarra daquele género, a fazer aqueles dedilhados, melodias e riffs. E ficou mesmo também como eu queria. É das músicas que gosto mais.”

 


[“Heróis”]

“A ‘Heróis’ é uma das músicas mais sérias do álbum. Quando eu digo sério, é uma música mais real talk, mais introspectiva. E neste caso também acaba por culminar este pensamento todo em relação ao Tourquesa e o porquê deste álbum ser assim, uma viagem. Sempre ouvi dizer que nós fomos os heróis, que dividimos o mundo em dois com os espanhóis e que D. Sebastião era o maior, que desapareceu numa neblina, e que em Portugal somos os maiores do mundo. Mas eu acredito que isso é parte da história e eu não me sinto assim tão orgulhoso por coisas do passado, por grandezas do passado. Obviamente que Portugal é um país muito saudosista, o próprio fado também pinta isso, mas eu tento neste som, também por estar fora e ver o meu país de longe, pintar as coisas como elas são e de dizer que afinal há mais heróis do que aqueles que te ensinaram na escola ou do que foste aprendendo. Podes ser tu o próximo herói. Podes trabalhar nas tuas coisas. Podes moldar o mundo. É uma música um bocado de uplifting. Eu não quis aqui falar daquela maneira que todos falam de, ‘Portugal é uma merda, há desemprego”. Não quis entrar por aí. Quis que fosse uma música esperançosa. Talvez não só dizer os problemas, mas apontar a saída ou apontar a direcção certa para que isso seja resolvido. Penso assim. É uma música a olhar para Portugal de longe, de perto e uma retrospectiva. Nós é que somos os novos heróis. E temos que fazer isso. E há mais heróis do que aqueles que estão no livro de História. Há heróis do dia a dia. E também é uma música que, instrumentalmente, foi das primeiras que fiz. E também foi escrita em Londres e acho que dá para ver isso no feeling da música. É uma música que acrescenta uma vibe mais introspectiva, de nos fazer pensar um bocado nesse tema.”

 


[“Coisas Sérias”]

“O ‘Coisas Sérias’ é para vocês porem num churrasco com os vocês amigos naqueles dias de celebração, seja do que for. O nome também é um bocado gozão. É aquela música de esquecer os problemas e de boa vibração. É uma música que escrevi numa altura feliz, estava numa fase feliz, já estava em Portugal. E foi uma música que foi inspirada em mim, nos meus amigos e nas minhas vivências. E é uma música que te pretende fazer esquecer do resto. O instrumento é bastante soulful, aquele boom bap classic, east side feeling.”

 


[“Bala”] c/ DJ Flip

“‘Bala’ é aquele som do egotripping. ‘Bala’ é o som de rap do álbum. É onde descarrego o rap. Simplesmente rappar. Não tenho rappado nada, tenho que rappar… sobre nada. É um som em que eu ‘tou a rappar. Tive a participação do DJ Flip nos cortes para dar aquele feeling de cypher. Decidi não ter refrão porque o meu álbum tem bastantes refrões e eu até se calhar sou um bocado rotulado como aquele rapper brandinho, morno… E neste som também quis dizer, “ya, eu também sei rimar. Podes vir”. Aquela atitude battle. Este tema é mesmo isso.

 


[“Iguais”] c/ Harold

“O ‘Iguais’ foi um dos temas em que o instrumental me deu bastante trabalho/prazer a fazer. Foi numa altura em que estava a experimentar mais estéticas diferentes e até nível de gravação de drumkit com instrumentos de casa (chaves do carro, bater em tupperwares, uma garrafa e uma colher). O sintetizador desta música é misturado com a minha voz… Fiz aqui um arranjo engraçado também, comecei a experimentar mais e começou-me a dar aquele beat do love making. Este é aquele som para vocês ouvirem com a vossa tal. E é um som que fala um bocado também da música em si. E convidei o Harold dos GROGNation para fazer este som comigo porque achei que ele iria flutuar mesmo neste beat. E foi o que aconteceu. Neste beat, ele mostrou-nos o Harold que estávamos à espera. Um Harold que assenta bem neste tipo de temas e sonoridades. E é um tema que gostei muito de fazer o instrumental. É um dos instrumentais que mais me orgulho do disco. É um sonzinho para ouvirmos naquele domingo que está a chover lá fora e estamos com alguém especial.”

 


[“Vem”] c/ Ace

“A ‘Vem’ com o Ace foi um dos primeiros três ou quatro temas que surgiram para o álbum. Este foi um tema em que eu pensei quase mentalmente numa imagem, pensei como se fosse a cena de um filme. Vamos imaginar que estamos num sítio e que uma personagem feminina… ‘tamos tipo num bar ou num pub. E, neste caso, o homem e a mulher olham um para o outro e, sem dizer nada, sem nunca se terem visto, vão em direcção um ao outro e começam a dançar. E nós reparamos que essa dança não é perfeita. Reparamos que eles até não sabem muito bem dançar. Não é aquela cena bonita de filme que é tipo musical. É uma cena real. Ele não consegue dançar muito bem, pisa-lhe os pés, ela não tem muito jeito para aquilo, mas juntos estão ali na boa, a rir e numa bolha de felicidade e energia positiva. E esse som é a retratar isso mesmo, como se tivesse acontecido. E é uma metáfora para as relações entre pessoas. É assim que funciona. Não é nada perfeito tipo Hollywood. É feio, sujo e bonito ao mesmo tempo. É assim que existe. E para esta música escolhi o Ace porque faltava ali um toque no refrão com aquela voz que só o Ace tem — inconfundível. E foi mesmo uma grande honra ter feito um som com uma das minhas referências. É crazy mesmo.”

 


[“Q.A.M.A.”] c/ Fábia Maia

“O ‘Q.A.M.A.’, que significa “Quando a Música Acaba”, é a última música do álbum. É quando a música acaba, quando acaba tudo. Quando fecham as luzes, quando o artista fica sozinho. Quando passa aquela febre do concerto. Quando estamos a escrever uma música e o som de fundo acaba. Ficamos com aquela música na cabeça para sempre. Esta música é um bocado uma metáfora em relação a isso e é o sentimento que a música me traz. Quando a música acaba, não sou nada. É o que digo neste música. Escolhi para ser a última música do álbum pelo tema que é, que é quando o disco acaba ou a música acaba, mas no fundo nada acaba. E a música é um bocado isso. E agora vou admitir que é a minha música preferida do álbum. Adorei esta música. A nível instrumental também foi um prazer e a nível de escrita gosto muito e convidei a Fábia porque precisava da voz dela aqui e acho que resultou mesmo bem. É uma música muito introspectiva, mas é uma música com aquela boa vibe que nos leva a viajar. E decidi acabar o disco com esta música.”