dB: “Cada vez me sinto mais distanciado do universo clássico do hip hop”

[ENTREVISTA] Ricardo Farinha [IMAGEM] Sebastião Santana [EDIÇÃO] Luís Almeida

Atarefado com a época dos Conjunto Corona e cada vez mais apertado de tempo, é na ChicleteShop, no Porto, que dB nos recebe — passado uns minutos estaria ali mesmo a rodar discos. Falámos com o produtor de Vila Nova de Gaia sobre o que tem andado a preparar ou o que gostaria ou não de fazer nos próximos tempos. De qualquer forma, uma coisa é certa: dB está com as mãos na massa — nos samples —, e, seja a solo, ou a pensar na próxima aventura de Corona, vem aí disco. Ou mais do que um, quem sabe. No final, há uma pequena surpresa para todos os fãs do Conjunto de Cimo de Vila Velvet Cantina.

 



Depois do álbum de Conjunto Corona e de, no ano passado, teres editado 4400 OG, já estás a trabalhar em coisas novas a solo?

Eu agora tenho tido o meu tempo bastante limitado, porque também tenho uma vida dupla. Além da música, tenho uma vida que me ocupa o horário laboral. E entre Corona e entrevistas e convites para projectos — coisas do mais estranho que existe —, tenho estado bastante ocupado, mas continuo a construir a biblioteca das coisas para samplar para o próximo álbum.

E será um álbum tão específico como o último que fizeste? Era possível fazer um segundo volume sobre Gaia?

Sobre Gaia é possível fazer 50 volumes. Nunca há de acabar a chungaria em Gaia [risos] para fazer álbuns daqueles. Em termos de conceito, tenho dois ou três, mas não quero falar [sobre eles], porque dá azar falar antes do tempo. Mas, acima de tudo, tenho vontade. Ultimamente tenho tido muitas oportunidades de coisas para eu fazer — além da música, até —, mas realmente a coisa que me dá mais prazer é criar instrumentais. É uma questão de tempo até eu fazer outro.

Apesar de não teres muito tempo, ponderarias fazer um álbum ou um trabalho colaborativo com outro rapper, que não fosse o Logos em Corona?

Para ser honesto, não. Mais rapidamente faria um trabalho colaborativo com alguém do indie ou do rock do que com um rapper. Cada vez mais me sinto distanciado do universo clássico do hip hop e mais aproximado desses universos da música independente. Sinto que é um universo menos formatado com o qual, com as regras — ou a ausência delas —, me identifico mais.

Tens algum projecto em concreto nessa área?

Não, no entanto posso adiantar que tenho trabalhado com alguns artistas bastante improváveis para projectos que estou a preparar, nomeadamente para Corona.

E também tens sentido em Corona essa expansão de universo musical? Tanto nos festivais que tocam como no tipo de público que vai aos concertos.

Completamente. Especialmente nos concertos, em que temos uma percentagem muito pequena de hip hop heads, de pessoal do universo mais clássico do hip hop. O resto são pessoas de todos os estilos e eu fico muito contente por chegar a um concerto e ver pessoas de faixas etárias muito diferentes e que vêm de backgrounds e estilos de música muito diferentes. E, sinceramente, para mim, essa é uma das principais conquistas com Corona.

 


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Em Corona, e também no 4400 OG, ouvimos algumas rimas tuas. Alguma vez ponderaste seriamente lançar um álbum com rimas escritas por ti?

Não, porque as minhas letras são o resultado de um processo… como é que eu hei de explicar? Eu vivo. Relaciono-me com o tipo de pessoas mais esquisitas que podes imaginar, às mais normais. Vou ouvindo coisas e anotando num bloco de notas. E cada letra que eu faço não é o resultado de uma tarde de escrita, “agora vou escrever para cima deste instrumental”. É uma compilação de uma série de coisas que vou ouvindo aqui e ali. Como aquela do “Tu és tipo um micro-ondas/ aqueces para eu comer” [risos]. Esse tipo de coisas são tudo pedaços de frases de outras pessoas que vou apanhando aqui e ali. Então as minhas letras nunca são nessa lógica de me sentar para escrever e fazer um álbum. Não sei como é que funcionaria. Porque as minhas letras são muito específicas e funcionam nesta forma como eu te disse [risos]. São uma espécie de apanhado das coisas mais engraçadas que eu vou ouvindo nos últimos tempos.

Em Corona, vocês têm um registo bastante satírico e cómico. Achas que falta um pouco disso ao hip hop em Portugal?

Não, não acho que falte ao hip hop nem a nenhum estilo de música em particular. Acho que faz falta à música em si. Porque sempre fui fã de bandas como os Irmãos Catita e os Ena Pá 2000. Em todos os meus álbuns a solo antes do 4400 OG samplei o Manuel João Vieira. Era uma referência. E sou apreciador dessa parte do humor na música. Então acho que isso faz falta, em geral, e não só no hip hop.

Além de teres este lado satírico e cómico, tens-te relacionado com pessoas que fazem isto de uma forma mais profissional, como a malta do “Obrigado, Internet”, por exemplo. Alguma vez ponderaste ter um projecto nessa área? Um talkshow, um podcast mais humorístico sem ser ligado à música.

Certo, verdade. Tenho de confessar que, sim, já tive algumas ideias relativamente a isso e simplesmente o tempo não dá para tudo.

Mas gostavas de o fazer um dia?

Não é aquela coisa que eu faria como faço com a música, de lutar mesmo por isso e de ir atrás. No entanto, se surgisse uma oportunidade, um convite nessa área, seria o primeiro a aceitá-lo. Nessa área ou noutra qualquer, mais expansiva, além da música. Dentro das minhas limitações de tempo, estou aberto a todos os convites, especialmente para coisas que não tenham nada a ver com música [risos].

Neste momento — não sei se podes revelar porque pode indicar que conceitos de álbuns estarás a preparar —, mas tens andado a samplar algum universo sonoro específico?

Tenho, mas não posso revelar [risos]. Até porque depois posso trocar de ideias e dá uma imagem de insegurança, de perdido. Quando falo, é porque já fiz ou está prestes a sair. Como não está prestes a sair nada do que estou aqui a pensar, mais vale ficar caladinho [risos] e dizer que, sim, ando a fazer coisas, mas não posso falar sobre isso.

E tens uma lista, nem que seja mental, de universos musicais específicos que um dia vais querer explorar, mas que ainda não conheces muito bem?

Sinceramente, há um que é muito difícil, mas que gostava de explorar mais a fundo, que é o do pimba português. É difícil porque, da forma como eu produzo, só com samples, não acrescentando instrumentos nenhuns, é difícil encontrar músicas com corpo suficiente para fazer outra música. No entanto, já fiz um tema que me abriu os olhos para este universo, que foi um remix no último álbum do Dom Rubirosa, em que samplei o Nelo Silva e a Cristiana, aquela música do “Diz-me Diante Dela”, uma música muito forte. E fiquei mesmo muito contente com o resultado final e esse, sem dúvida, é um universo que eu gostaria de explorar nos próximos tempos, porque, além de ser improvável — e eu sou fã de coisas improváveis, das quais as pessoas não estão à espera —, é tuga. É português. E eu sou muito português. Gosto mesmo do meu país, gosto da minha cidade e gosto das coisas boas mas também das coisas más. Acho que isso também define a nossa identidade. E o pimba define a nossa identidade e samplar pimba concerteza iria resultar num projecto em que as pessoas, gostando ou não, se identificariam, porque é português, e somos nós.

Provavelmente também não queres revelar isto, mas tivemos três álbuns de Corona em três anos. Chegou o quarto ano. Queres lançar um quarto álbum este ano?

É uma boa pergunta. Só posso dizer que estamos a trabalhar ao mesmo ritmo de sempre.

 



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Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha