D-Styles // Phantazmagorea

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[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

O gira-disquismo é uma arte muito particular dentro do universo hip hop, uma espécie de Kung Fu de Shaolin, uma arte marcial criada por monges em isolamento, com movimentos muito particulares e poderes mortíferos. A analogia monástica com o gira-disquismo faz pleno sentido: esta vertente musical do hip hop evoluiu igualmente em circuito fechado, com os mais destacados membros desta cultura – gente como Roc Raida, Rob Swift, como Q-Bert e todos os seus companheiros dos Invisibl Skratch Piklz, como DJ Babu e os seus aliados dos Beat Junkies ou, claro, como D-Styles – a viverem imersos em crabs e flares procurando desenvolver uma nova linguagem em cima da criação de Grandwizard Theodore e Grandmixer Dst. Não por acaso, Dave Cuasito (o nome de baptismo de D-Styles) integra tanto os Piklz como os Junkies e colaborou de perto com Swift e Raida, sinal claro da sua posição no exclusivo panteão de gira-disquistas de nível mundial.

Do “wika wika” de Dst em “Rockit” (e percebem agora de onde vem o nome do selo que os Beatbombers usaram para a edição de vinil do primeiro volume dos seus Tuga Breaks, lançado em 2012?) até à complexa expressividade sonora exibida por D-Styles em Phantazmagorea vai uma distância tremenda. Mas se esses “wika wikas” primevos podem ser entendidos como os primeiros rabiscos artísticos nas paredes de uma caverna há uns quantos milhares de anos, o nível a que D-Styles e os seus pares elevaram a arte de arranhar discos com a agulha de um Technics 1200 será correspondente às explosões abstractas de um Jackson Pollock ou às vívidas visões afro-futuristas de um Jean-Michel Basquiat. Estamos aqui perante o pináculo de uma arte, de uma civilização, de uma cultura.

Em 2002, quando lançou originalmente este Phantazmagorea, D-Styles compreendia que a arte do Scratch DJ tinha já avançado muitíssimo. E o álbum surgiu precisamente no mais excitante momento da arte, quando uma série de editoras e crews impunham o gira-disquismo como uma linguagem autónoma, altamente expressiva e de tendência abstracta: o mundo que se desenha com este “most beautiful ugly sound” é admirável, novo e excitante. O gira-discos como instrumento, mas também como interface para a comunicação de avançadas ideias texturais, rítmicas, harmónicas. O gira-discos como a ferramenta para uma nova forma de escrita aural.

Neste álbum, D-Styles conjura uma psicadélica amálgama de snippets vocais retirados de filmes dos que passam a desoras nos canais de cabo americanos, de discos de spoken word, de discos de rock, de jazz, de funk, de reggae e hip hop e do que mais couber dentro da sua cabeça que está, obviamente, equipada com um generoso par de ouvidos. E aproveitando a fundação rítmica do hip hop, o DJ opera por cima de cada base como um MC que agarra a batida e sobre ela dispõe sílabas e palavras, frases e histórias, com maior ou menor sentido. Há flow neste arranhar, neste cozinhar de um belo som horrível, de um ruído que se torna musical porque dominado pela mão que com ele desenha imagens de mundos exóticos, de planetas distantes ou de cidades apinhadas de gente e de trânsito. Como acontece nos labirintos de cores de Pollock ou nos evocativos e caóticos traços de Basquiat, há sempre uma imagem que emerge da tela, ou, neste caso, das colunas. E cada um vê o que quer. Stereossauro e DJ Ride viram, certamente, um chamamento, uma inspiração para o caminho que agora desemboca no seu próprio álbum de estreia. Neste universo, como em todos os outros, de resto, anda mesmo tudo ligado…

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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