Criolo n’O Sol da Caparica: rap sambado nas bocas do mundo

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Caroline Bittencourt

“Não Existe Amor em SP” será, possivelmente, a faixa-título da já longa carreira de Criolo. O tema retirado do álbum de 2011, Nó na Orelha, catapultou o rapper de São Paulo para os palcos do mundo, contribuindo para que se transformasse, hoje, num dos nomes do hip hop contemporâneo brasileiro com maior expressão além-fronteiras, ao lado de Emicida. Uma dupla proeza já que  o rapper, na altura com largos 20 anos de caminho percorrido, conseguiu também aproximar o rap da MPB e angariar ouvidos nos quais, possivelmente, o hip hop pouco reverberara.

Filho de pais nordestinos radicados em São Paulo, nasce Kleber Gomes em 1975 e descobre-se Criolo Doido em 1989, ano em que começa a dar os primeiros passos na arte de sincopar rimas. Relativamente incógnito até aos anos 2000, lança em 2006 o seu primeiro trabalho Ainda Há Tempo – que viria a ser reeditado em 2016 – e funda a Rinha dos MCs, um dos eventos mais importantes do hip hop brasileiro que, até hoje, continua a abrir espaço para novos artistas quer através das festas mensais quer através dos circuitos de freestyle, vigorosos um pouco por todo o país.

Em 2011, põe de lado o apelido Doido e passa a ser apenas Criolo, no ano em que Nó na Orelha agrega ao rap a MPB, o funk, a soul, o blues e, em alguns momentos, até a clássica, deixando que o rap se encontre nas temáticas. De melhor artista a melhor álbum, ganhou nesse ano todos os prémios que a indústria tinha para oferecer. Nó na Orelha foi muito além, previsivelmente, de “Não Existe Amor em SP” para trazer “Bogotá”, “Grajauéx”, “Subirusdoistiozin” ou “Mariô” em incursões ora jazzísticas ora saídas de uma roda de capoeira. Se dúvidas ou surpresas houvesse em relação ao peso do trabalho, bastante diferente do primeiro, as mesmas desvaneciam-se rapidamente quando se olhava para a obra-prima como fruto de 20 anos de trabalho silencioso. Óbvio.

 



Em 2014, lança “Convoque Seu Buda” fazendo-se, novamente, acompanhar de Daniel Ganjaman e Marcelo Cabral e elevando ainda mais a fasquia ao trazer para a festa Tulipa Ruiz, Thiago França, Juçara Marçal, Rodrigo Campos ou Maurício Badé. Nomes que, podendo ser desconhecidos do público português, compõem uma espécie de liga dos cavalheiros extraordinários da música contemporânea brasileira e que contribuíram para um álbum de arranjos impecavelmente trabalhados, maduro, com boas doses de humor e de uma liberdade artística que o transforma numa possível excepção à regra, falando de sucesso comercial. Incisivo na crítica social, é também aí que cresce em relação ao antecessor.

 



Quem não conhecesse o passado do rapper em Grajaú, zona sul de São Paulo, diria-se surpreso ao perceber que, em 2017, lançaria um álbum de samba de uma ponta à outra. Espiral de Ilusão vai beber à infância marcada por influências como Raul Seixas, Luis Gonzaga, Martinho da Vila, Moreira da Silva ou Bebeto. As novelas ajudavam e a rua também. Era um sonho antigo de quem escreveu samba uma vida inteira e que optou por não reprimir as emoções quando estas o levaram a compor um trabalho ímpar em relação não só aos antecessores como aos seus pares.

30 anos a fazer rap não dão para esconder nem num álbum de samba. Ainda assim, foi no samba que o rap brasileiro começou a ver a luz do dia, principalmente se tivermos em consideração o carácter interventivo do género. “Não que eu tenha escolhido. É do mesmo jeito que vem a emoção e eu faço um rap. Foi esse caminho. (…) A grande surpresa pra mim foi a parada vir agora e o sentimento desaguar desse jeito. E eu não reprimi isso, deixei acontecer, como sempre faço com os raps, com qualquer coisa que me visite”, confessava numa belíssima entrevista à Vice Brasil, em maio deste ano.

O rapper está em Portugal para dois concertos: o primeiro acontece mais logo no Sol da Caparica e o outro, amanhã, no Theatro Circo bracarense.

 


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