CO3: A minha escola

[TEXTO] Tilt [FOTO] Sebastião Santana

Todos temos uma ou mais escolas, ainda que não consigamos, por vezes, reconhecê-las. Creio que tive duas escolas que me definiram: uma escola indirecta (dos States) e uma escola directa (e sinto que uma não existia sem outra).

O ponto de situação era o seguinte:

Eu e o Yev já conhecíamos bem a rima (e as suas bases) e o Brodi, melhor que nós na rima, estava no mundo dos beats a abrir caminho para o que seria o primeiro e o último álbum de CO3 — esse ultimato (talvez romantizado) deu-nos a necessidade de superação como praticantes para tornar possível a existência de um clássico.

Desde cedo, como MCs, fomos influenciados por aquela que era, para nós, a última grande escola de rap: o indie rap de Nova Iorque — que teve início em meados dos anos 90.

 



Esta escola já tinha influenciado outros MCs e crews como Matozoo, Clã da Matarroa, Nerve, etc.. E, para nós, era clara a diferença entre os MCs dessa linha de pensamento e os MCs da escola de Nova Iorque do início dos anos 90 (que eram a grande generalidade e também eram a nossa base).

O que é que existe, ou melhor, o que é que encontrei de tão especial nessa escola do indie rap para usá-la como modelo exemplar? Encontrei novos estilos (de uma diversidade impressionante), novo vocabulário, novas cadências, entoações, novas visões, enfim, uma lufada de ar fresco, mas com o knowledge clássico de Nova Iorque como pano de fundo.

E era isso também que era importante: o indie rap nunca excluía as lições da clássica escola de Nova Iorque, mas enriquecia o conhecimento dessa mesma década, explorando de uma forma mais detalhada (na minha opinião) os parâmetros que definem o rap conceptual.

A nossa insatisfação como praticantes e a necessidade de crescer na arte obrigou-nos a colocar questões-chave para o nosso desenvolvimento:

Porque é que nós, como pessoas, somos todos diferentes (pensamos diferente, usamos diferentes vocabulários, expressamo-nos de forma diferente, temos diferentes comportamentos e até mesmo diferentes tiques, etc.) mas no rap em Portugal é tudo tão genérico (salvo algumas excepções)? Porque é que parecem “todos” iguais? Onde é que está a individualidade na expressão de cada um?

Encontrámos a solução para este problema num treino constante do acto da rima e até da elaboração de ideias, mas isso só foi possível após detectarmos e admitirmos as nossas “falhas”, que não nos permitiam ir mais além, ir até ao que consideramos MCs de Topo.

Foi “tão simples” quanto isso. Para mim, essa busca é infindável, felizmente. E que assim seja.

Por outro lado, infelizmente, sinto que esta preocupação não é muito comum nos praticantes em Portugal, daí ter a necessidade de referir a sua importância e de demonstrá-la através do meu trabalho. Existe hoje uma certa preocupação em inovar, mas é muitas vezes associada à sonoridade (instrumental) e é raramente focada nos parâmetros da arte da rima. Isso terá as suas consequências.

Resumindo, CO3 foi a escola directa que me obrigou a confrontar-me para uma superação pessoal, a minha mola de acção e a minha base filosófica. Foi o que abriu caminho para uma exploração da minha expressão e para o EP Alimentar Crianças c/ Cancro Da Mama.

 


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