Black Thought na Hot 97: Longa vida aos reis!

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

Black Thought estreou-se com um freestyle na Hot 97 que foi lançado para o YouTube durante o dia de ontem.



Imaginam a fome de um miúdo com 18 ou 19 anos, nos dias de hoje, a receber um convite deste calibre? Salvo raras excepções, o procedimento, agora natural, será vestir a roupa mais vistosa que se guarda no armário, adoptar a posição mais descontraída possível e, no calor do momento, talvez até sacar do telemóvel para fora para recitar um par de versos de sobra – vulgo “lixo” – aos microfones que outrora foram um dos pilares para o aparecimento de muitas novas estrelas no hip hop norte-americano. A questão não é de todo o clássico “estamos a ficar velhos.” É mesmo a falta de respeito dos putos para com um movimento que esteve amarrado fora do mediatismo durante anos, em afirmação e superação constante, e que só recentemente começou a conseguir ombrear com a pop e o rock, que durante anos comandaram as massas.

O auge desta cambalhota artistica poderá muito bem ser a “inexistente” prestação de Playboi Carti num freestyle a solo, feito a propósito da edição deste ano da classe de caloiros da XXL. O minuto mais escusado de toda a história do hip hop – sem qualquer conteúdo lírico, a combinar na perfeição com a total falta de emoção e empenho do “MC”, apático por toda aquela situação. “Hey! A vedeta sou eu. A XXL é que devia fazer um freestyle para mim.” Será? Em toda a história do YouTube, não há memória sequer de um tão consensual uso abusivo do botão de dislike: em mais de dois milhões de visualizações, Carti carrega uma pesada cruz de quase 60 mil thumbs down. Quase o dobro dos “votos” a favor, que até já conheceram dias bem piores, não fossem os fãs da pétala de “Magnolia” salvar o seu role model, ao discretamente voltarem ao vídeo para lhe dar um empurrãozinho para cima.

Mas não é o único cromo nesta caderneta. Muita tinta já se fez escorrer sobre as mais recentes polémicas declarações de Post Malone. Jaden Smith também não lhes ficará muito atrás com tanta contradição no seu discurso para o Genius.

 

And y’all know I’m exquisite
Wicked as Wilson Pickett
The sickness I exhibit
I’m too legit to quit it
I don’t fake it ’till I make it
I take it to the limit, and break it
Never timid, what I’m about, I represent it

 

Black Thought tem 46 anos anos e representa os The Roots – uma banda que dispensa qualquer tipo de apresentações. Uma carreira cimentada nas boas práticas do hip hop, que até se podia dar ao luxo de, por momentos, encostar um pouco a cabeça e adormecer. Mas ele está aqui – para o bem de todos, na realidade. Sem que necessite sequer de afirmar qualquer tipo statement face ao seu talento, aceitou dar um salto à Hot 97 para se estrear num local pelo qual muitos jovens batalham diariamente para pisar. Não por um, nem por dois, mas sim 10 intensos minutos nos quais não lhe podemos apontar um sequer defeito. Teve rimas, teve flows, teve fôlego – só não teve telemóvel; Este é um daqueles freestyles que vão ficar para sempre na história, e a Internet reage já com mais de 300.000 rotações em menos de 24 horas.

Tirem as vossas conclusões. Eu tiro-lhe o chapéu. Longa vida aos reis.

 

It’s like a Sharia law on my My Cherie Amour
How much hypocrisy can people possibly endure
But ain’t nobody working on a cure? My young boy
Y’all just regular, I’m a Apex Predator
Brim stay fresh, feathered up, etcetera
Nevertheless, I got a message and left
One dead messenger, yep

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira