As rimas, as batidas, o jornalismo e o resto

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

As notícias que o Rimas e Batidas ontem publicou a propósito do fim dos Mind da Gap geraram, compreensivelmente, reacções. Para lá das reacções de tristeza por parte dos fãs do histórico grupo do Porto, que lamentaram o ponto final nesta carreira, houve igualmente quem questionasse a legitimidade da notícia. Este texto é uma benigna tentativa de esclarecer essa questão.

O Rimas e Batidas não é um blogue, uma plataforma de divulgação de eventos, uma página pessoal de um fã de música. O Rimas e Batidas é um projecto jornalístico focado nos universos comunicantes do hip hop e da electrónica. E enquanto tal pretende fazer jornalismo. Não uso a palavra “projecto” por acaso: a montante dos planos e das intenções traçadas existe uma coisa chamada realidade e o ReB todos os dias se confronta com a dificuldade de obedecer com rigor ao seu próprio caderno de encargos. Ou seja, temos sempre espaço para melhorar. E enquanto isso acontecer seremos sempre um mero projecto do que pretendemos alcançar. Somos, portanto, imperfeitos, mas temos consciência disso e procuramos a cada momento corrigir ou minimizar essas imperfeições.

Tendo deixado isto claro, não creio que nos possa ser apontada alguma falha no tratamento ontem dado à notícia Mind da Gap. Passo a explicar: terei com os homens de “Todos Gordos” três relações diferenciadas – uma certa amizade que deriva de mais de duas décadas de conhecimento e de algum trabalho feito em conjunto; uma outra relação de admiração própria de um fã que lhes procurou seguir todos os passos; e, claro, essa mais profissional relação que o jornalista deve manter com os objectos da sua atenção.

Quando ontem vi o post de Rolando Sá, que nos Mind da Gap assina como Serial, a minha primeira reacção foi igual à de todos os outros fãs, depois senti vontade de, como amigo que acredito sempre ter sido, lhes manifestar a minha gratidão e apoio, mas enquanto jornalista não podia ignorar a notícia que ali se encontrava à vista de todos. Porque – muito importante – apesar de pessoal, a página de Rolando Sá serve para comunicar informações sobre as suas actividades artísticas e a declaração contida no tal post foi, afinal de contas, proferida no espaço público. Merecia, por isso mesmo, ser noticiada.

Ditam no entanto as regras do jornalismo que as informações devem sempre ser confirmadas e consubstanciadas. E assim foi feito: foram contactados os três membros do grupo. Serial não respondeu às solicitações feitas telefonicamente; Presto amavelmente escusou-se a fazer comentários; e Ace só mais tarde se prestou a dar o seu depoimento, originando uma segunda notícia (o próprio Ace partilhou depois a notícia que o seu depoimento originou, deixando claro que nada nessa notícia era contrária ao que ele mesmo queria naquele momento comunicar).

Para a primeira notícia publicada, com o título “Serial aponta para o fim dos Mind da Gap”, não conseguimos, portanto, obter de imediato nenhum esclarecimento adicional por parte dos membros do trio, mas chegámos à fala com uma fonte próxima da banda que confirmou que aquele “The End” publicado por Rolando Sá significava mesmo que se estava a referir ao fim do grupo de que sempre foi o produtor. Foi o que escrevemos: nada no texto que publicámos resulta de especulação – o título refere-se directamente à frase que Rolando Sá partilhou publicamente e no corpo da notícia temos o cuidado de partilhar o seu post original e de não fazermos qualquer consideração de valor pelo acto em si. Limitamo-nos, portanto, a ecoar a notícia de que Rolando Sá foi, ao fim de contas, o primeiro emissor.

Estes são os factos. Dar uma notícia não é “aproveitar” o que quer que seja, nem se dá uma notícia para prejudicar seja quem for. Mas o inverso não é verdade: podemos prejudicar os nossos leitores se ignorarmos uma notícia desta natureza. O alcance do post da notícia no nosso mural de Facebook – que teve mais de seis dezenas de partilhas e reacções directas de cerca de três centenas de pessoas com um alcance de perto de 25 mil pessoas, de acordo com as estatísticas do próprio Facebook – indica que esta era de facto uma informação que interessava a quem nos lê. Poderíamos, como tantas vezes fazemos, ter amplificado o alcance do post através das ferramentas de promoção que o Facebook coloca à nossa disposição, mas, neste caso, preferimos não o fazer, acreditando que uma difusão orgânica seria mais respeitadora da natureza séria da notícia. Pela mesma razão não republicámos o post, por acreditarmos que a sua publicação original tinha cumprido o seu dever.

Soubémos entretanto por outras publicações que a Meifumado, editora a que agora os Mind da Gap estavam ligados, confirmou o fim do grupo. E finalmente o próprio depoimento de Ace, algumas horas depois, veio corroborar o que já antes tínhamos publicado.

O Rimas e Batidas não dá notícias para obter benefícios que não sejam a fidelidade dos seus leitores. O facto de ontem termos igualmente noticiado novos projectos de Rocky Marsiano, Ab-Soul ou Colónia Calúnia, de termos publicado entrevista com Rui Maia, de termos dado conta de um debate que hoje mesmo acontece em torno da série documental De Sol a Sol, de termos dado espaço a impressões de Keso na sua visita ao Brasil, ou avançado a nossa opinião sobre o mais recente álbum de The Weeknd é uma boa amostra daquilo que pretendemos fazer sempre, diariamente: ser um espaço de informação e de opinião, tanto de assuntos que sabemos mobilizarem amplos segmentos de leitores como de outros que sabemos à partida importar apenas a franjas muito mais reduzidas. Todos esses conteúdos que publicamos, os de maior e os de menor alcance, nos merecem o mesmo empenho e rigor. Não trocamos uns pelos outros. Não ignoramos uns em detrimento de outros. Porque é isso que acreditamos ter que fazer para prestar o melhor serviço possível a quem nos lê. Nada mais. Nada menos. Achamos que se chama a isto fazer jornalismo.

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu