Quando a arte supera o artifício

[TEXTO] Manuel Rodrigues [FOTO] Direitos Reservados

Foi considerada a melhor actuação da edição deste anos dos GRAMMYs por sites como o Washington Post, USA Today e até pela Billboard. Não pela definição super mega/hiper/ultra HD do ecrã utilizado, muito menos pela jigajoga dos candeeiros pendurados no tecto do Madison Square Garden, em Nova Iorque. Lamar tem sempre algo a dizer, até mesmo quando se cala e deixa Bono e The Edge intervirem, até quando se cala e deixa Dave Chappelle falar. É a prova que no presente há sempre espaço para evocar o passado (no caso dos U2) e que num assunto sério há sempre espaço para algum humor (no caso do homem de Block Party).

A riqueza na narrativa de Lamar é tanta que, no final das suas actuações — seja na cerimónia dos GRAMMYs, nos talkshows norte-americanos, num palco festivaleiro, no meio da rua ou até na cochinchina — acabamos sempre por passar uns bons minutos a reflectir sobre o que aconteceu ali. Ou porque abordou temas delicados sem qualquer filtro ou floreado, ou porque introduziu na sua prestação variáveis improváveis com as quais ninguém se atreveria sequer a sonhar, ou porque, sei lá, nos deixou simplesmente colados ao ecrã do telemóvel ou computador, quais lexicodependentes à espera de mais uma dose.

Trabalho numa área (espectáculos, eventos) em que, infelizmente, o conteúdo é por diversas vezes desprezado. Investe-se na qualidade da embalagem, nos materiais utilizados, e raramente se trabalha bem o miolo da questão, o epicentro da informação a propagar. Para Lamar, as coisas funcionam ao contrário. Primeiro, preocupa-se em ter algo a dizer; depois, trabalha ao máximo a forma como o diz (como uma excelência de fazer inveja a muitos); por fim, sobe ao palco para pregar de forma concisa, sóbria e com elevada primazia. O audiovisual que o rodeia? Fixe. Serve de condimento e não de ingrediente principal. Está lá, mas podia nem sequer ter sido utilizado. A acção continua a centrar-se ali, naquele homem de imagem profana e nas suas palavras sagradas.

Nem toda a música é feita para deixar o ouvinte em profundo estado de reflexão — e ainda bem. Há música para dançar, para chorar, para sorrir e até há música criada para não despoletar qualquer tipo de sentimento no receptor. Porém, até a canção oca tem que ser bem feita. Senão, nem sequer música chega a ser.

 


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