1º Festival Rimas e Batidas: um sonho à espera da realidade

Não é de hoje.

Em 1999, a festa que assinalou o primeiro ano de vida do programa Hip Hop Don’t Stop, que eu e o DJ Jaws-T dos Líderes da Nova Mensagem fazíamos na Rádio Marginal, trouxe pela primeira vez, se a memória não me falha, um nome do circuito underground de hip hop norte-americano até Portugal: os fantásticos All Natural de Chicago subiram ao palco do Ritz com os Mind Da Gap e os Micro e os Scratchin’ Furious de DJ Kwan e Cruzfader. Noite épica.

Em 2000, na ZdB, organizei a primeira apresentação de DJ Vadim no nosso país, numa noite em que os meus Arkham Hi-Fi também tocaram (a dada altura, durante o sound-check, Vadim Peare parou o que estava a fazer porque reparou num rosto a olhar para si insistentemente do lado de lá do “aquário”: era Kevin Martin, à época de Techno Animal, actualmente dos Bug e King Midas Sound).

Depois, com o nascimento da Loop:Recordings, eu e o D-Mars estivemos meses a fazer barulho regular na ZdB, com festas incríveis que tiveram convidados como Rodney P, Braintax, DJ Harry Love, Micro, Dealema, Xeg, Kilú, Fuse e certamente muitos mais que agora não consigo recordar.

Pouco tempo depois da edição de Beats Vol. 1: Amor, de Sam The Kid, veio o convite do Super Bock Super Rock para que desenhássemos dentro da Loop uma das noites do festival: o resultado foi a vinda dos De La Soul para os Coliseus de Lisboa e Porto, em 2003 se a memória, uma vez mais, não me falha. Outra noite épica: com workshop de produção no átrio dos Coliseus, com Sam The Kid, Dealema, Micro e Mundo Complexo a subirem ao palco juntamente com os gigantes americanos. Foi incrível.

Nesta década que entretanto decorreu, muita coisa aconteceu. E esta cultura – de MCs e DJs e produtores, de hip hop e electrónicas multifacetadas – cresceu muito mais do que a minha mais optimista imaginação permitiria supor. O rimasebatidas.pt é uma consequência directa disso. Dessa vibração plural que abana as fundações da nossa história e nos transforma a todos em seres do futuro.

Fazer agora o 1º Festival Rimas e Batidas traz de volta aquele nervoso miudinho que me lembro de sentir à porta do Ritz, à porta da ZdB e a várias outras portas onde fui esperando que outras coisas acontecessem. Nervoso de antecipação e de responsabilidade. Porque quando se monta uma coisa assim, o resultado principal nunca é o que fica visível nessa noite, mas as possibilidades que abre para os dias que possam estar para chegar. E depois há o resto: as hipóteses de cruzamento que estas iniciativas abrem – será que Fábia Maia vai no futuro cantar num tema de Blink? Será que a Golden Mist vai querer trabalhar com VULTO.? Será que Beware Jack vai pedir um beat ao Slow J?

A revista rimasebatidas.pt leva quatro meses e meio de existência. Temos sede de futuro. E queremos mesmo ver onde isto vai dar. É por tudo isso que nos metemos a fazer estes pequenos festivais carregados de grandes artistas. Hoje é a eles que quero agradecer: obrigado! Vamos a isto?

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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