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Atente-se ao múltiplo presente: legiões armadas com laptops artilhados com os mais recentes e intuitivos softwares de produção que reimaginam o pulsar das pistas ou dos auscultadopres globais a partir do universo de possibilidades contido dentro de caixas prateadas com maçãs reluzentes que funcionam hoje como em tempos terão funcionado logos como Fender ou Marshall – símbolos de uma normalização sónica que sustenta uma identidade geracional; batalhões de exploradores das microqualidades do som equipados com estranhas máquinas de onde nascem fios que se cruzam em complexas redes coloridas que geram pulsares tímbricos que parecem traduzir a própria vibração do mais fundo dos universos; hordas de manipuladores de controladores midi feitos de abstractos botões coloridos que parecem estar vivos enquanto debitam cadências que comandam novas geometrias na permanentemente reinventada arquitectura do groove. Há de tudo. E para tudo isso houve um princípio, um arranque. Um big bang. Close To The Noise Floor – Formative Uk Electronica 1975 – 1984 é um possível mapa de um desses princípios. Um dos mais entusiasmantes de todos.



A generosa compilação que acaba de ser lançada pela Cherry Red estende-se por 4 CDs e inclui um livrete profusamente ilustrado de 48 páginas onde se incluem excertos de um lendário conjunto de artigos de Dave Henderson escritos em 1983 para a revista Sounds – Wild Planet era um vigoroso retrato de uma cena muito específica, uma revolução paralela ao punk, animada pela mesma ética DIY, mas capaz de produzir um som radicalmente diferente: “Underground, free-from, experimental, avant-garde, industrial, chamem-lhe o que quiserem”, sugeria então o atento Dave Henderson.

O foco de Close to The Noise Floor é mais apertado do que o explorado pelo jornalista da Sounds que numa era pré-internet foi ainda assim capaz de identificar as ramificações de uma rede global que se estendia de Inglaterra à Europa Continental e daí até à América, Japão e mais além. Nestes quatro CDs, e como o subtítulo deixa muito claro, identificam-se “excursões ao proto synth-pop, ao techno DIY e explorações ambientais” durante o que se defende ser o período “formativo da electrónica do Reino Unido – 1975 – 1984”. Ou seja, um vasto terreno de tem vindo a ser identificado com rótulos como “minimal synth”, “darkwave”, “industrial”, nuances diferentes para um mesmo impulso de exploração de novas possibilidades tecnológicas e de corte com o passado através da invenção de um novo presente.

As datas expostas na capa de Close to The Noise Floor são muito importantes e definem uma baliza temporal muito específica. Se 1975 marca a chegada dos primeiros sintetizadores mais acessíveis a todos os comuns mortais – por oposição aos deuses prog armados com toneladas de equipamento capaz de fazer ressoar as estruturas dos estádios onde se apresentavam regularmente ao vivo perante massas ávidas de peças imersivas e sinfónicas que se estendiam por dezenas de minutos e que traduziam mundos fantásticos imaginados pela cabeça de Roger Dean – por outro lado, 1984 será o ano limite antes dos bandos urbanos de alienados habitantes das cidades erguidas com arquitectura brutalista, apaixonados pela distópica literatura de J.G. Ballard, se terem definitivamente tornado parte da paisagem pop. Esse é, basicamente, o período descrito no fabuloso fresco histórico que é Synth Britannia e cujo visionamento se recomenda vivamente. Façam favor…



Em artigo recente para a Pitchfork, o estudioso Simon Reynolds, autor de importantes tomos como Retromania ou Energy Flash, fala de percursos inversos para a guitarra eléctrica e para o sintetizador: a guitarra, explica o crítico britânico, começou por ser “um gerador tosco de ruído excitante e energia dançável – fundamentalmente um som adolescente”. Já os sintetizadores, sublinha Reynolds, “nasceram prog: custavam uma fortuna e eram dificeis de operar e isto fazia deles um exclusivo de artistas estabelecidos, geralmente donos de uma inclinação virtuosística e de uma certa ambição artística. Ou isso ou então pertenciam a instituições como universidades e eram acessíveis apenas a compositores com ambições igualmente elevadas”. Certíssimo: a guitarra electrificou-se em Chicago para permitir que os lamentos acústicos das margens do Mississippi se fizessem ouvir acima do drone urbano criado pelo tráfego e pela indústria. O sintetizador, por outro lado, nasceu já em laboratórios de electrónica, imersos no oceano eléctrico da segunda metade do século XX, filho dos avanços tecnológicos que a indústria militar registou durante o período da segunda guerra mundial – sobretudo na área dos sistemas de comunicação e de detecção de radar. O ruído e a distorção na guitarra foram fruto de felizes acidentes com pioneiros como Ike Turner. O pulsar alien dos Moog e Buchla pioneiros eram fruto de calculados gestos matemáticos.



Mas há um momento em que as duas intenções se encontram. O primitivismo rock and roll recuperado pelo punk como gesto de oposição à pompa progressiva foi entendido por uma geração que no entanto não manifestou o mais leve desejo de pegar em guitarras e aprender dois acordes para se juntar à revolução. Estes não-músicos tinham crescido com estranhos ruídos em genéricos de programas da BBC criados pelo Radiophonic Workshop, tinham absorvido os pulsares graves da banda sonora de Laranja Mecânica assinada por Walter/Wendy Carlos, um dos pioneiros no uso de sintetizadores, tinham ficado fascinados pelo tipo de eyeliner e boas de penas a operar umas estranhas caixas no canto do palco com os Roxy Music. As referências destes músicos eram o menos rock and roll possível, mas o ideário do punk, a energia, o impulso DIY interessava-lhes. E quando os primeiros sintetizadores mais acessíveis chegaram ao mercado na segunda metade dos anos 70 começaram então a realizar as suas experiências. Esse é o momento em que Close to The Noise Floor começa, com bandas como os Klingons, Inter City Static, Bourbonese Qualk ou Voice of Authority (que era um projecto de Adrian Sherwood), duplas como Chris and Cosey ou Blancmange e artistas como Thomas Leer ou Kevin Harrison a espalharem por micro-edições em cassete experiências dissonantes pouco importadas com o exemplo electrónico apontado pela geração anterior de pioneiros como Tangerine Dream e mais preocupados em traduzir a opressão da nova cidade brutalista, imersa em tecnologia e controlada pelas autoridades. Esse é o som do primeiro dos quatro CDs desta antologia, projectos inspirados pelo aparecimento de bandas como os Throbbing Gristle, Cabaret Voltaire ou The Normal (pseudónimo de Daniel Miller, o criador da influente Mute Records), gente que encontrou espaço de edição após a explosão punk de 1977.



O segundo CD abre com “I Am Your Shadow” de Colin Potter, um músico e compositor com um vasto currículo nas franjas experimentais e esotéricas da electrónica britânica (passou pelos Nurse With Wound ou Current 93) e que continua no activo tendo no último par de anos reeditado em cassete muitos dos seus pioneiros lançamentos do arranque da década de 80. Neste tema há uma novidade: uma aproximação ao domínio da canção, um ensaio tangente à pop. Daí que a segunda faixa seja um take irónico de sabotagem de “D’Ya Think I’m Sexy” de Rod Stewart a cargo dos British Standard Unit. Tal como o punk teve na new wave o seu reverso de medalha, o seu flirt com a pop, também a corrente “minimal synth” começou a dar passos na direcção do estabelecimento do “synth pop”. Neste segundo CD surgem faixas de futuras estrelas pop como John Foxx (que vinha dos Ultravox), The Human League ou Orchestral Manoeuvres in The Dark ao lado de mais obscuros ou subterrâneos nomes como Gerry and the Holograms (dois membros dos Alberto Y Lost Trio Paranoias que com o seu tema homónimo inspiraram definitivamente a melodia vocal de “Blue Monday” dos New Order e que acabam de ser alvo de uma limitada edição do Record Store Day pela Finders Keepers de Andy Votel), Eyeless in Gaza ou Native Europe que com o seu “The Distance From Koln” (tal como “Vienna” dos Ultravox) traduziram uma ideia que resulta transversalmente evidente de todo o material incluído nesta antologia: afastada de uma ideia de sexualidade mais imediatamente associada ao rock and roll, a música que estes pioneiros procuravam fazer também procurava traduzir uma cultura, um sentimento, uma aura definitivamente europeia. Esta geração seria, por isso mesmo, muito mais filha de Stockhausen e Kraftwerk do que de Elvis e do rock and roll.



Nomes como os de Mark Shreeve, Ron Berry (que viu a Sanity Muffin reeditar há um par de anos as suas duas primeiras cassetes, do arranque dos anos 80), Carl Matthews, Paul Nagle, O Yuki Conjugate, Adrian Smith e o projecto EG Oblique Graph de Bryn Jones (mais tarde fundador de Muslimgauze) marcam o alinhamento do terceiro CD de Close to The Noise Floor que documenta um desvio em relação à norma de exploradores paralelos do primitivismo punk que domina a restante compilação. Em muitos dos momentos da terceira parte desta antologia sente-se uma dívida mais assumida para com alguns dos nomes mais aventureiros do lado electrónico do krautrock, como Conrad Schnitzler por exemplo. As explorações aqui incluídas, como “Sea of Tranquility” de Ron Berry ou “Mistral” de MFH, são mais expansivas, menos engajadas com secretos desejos de aproximação à pop, talvez mais claramente experimentais ou exploratórias.


https://www.youtube.com/watch?v=u1wBWhyKgW0


O último dos CDs deste painel em quatro partes que é Close to The Noise Floor mantém o grau de fascínio no máximo. Throbbing Gristle, Portion Control, Renaldo and the Loaf, Legendary Pink Dots, Muslimgauze, Alien Brains ou o projecto MZUI de Bruce Gilbert e Graham Lewis dos Wire em associação com o famoso designer Russell Mills garantem doses generosas de ruído alinhado com o zeitgeist do arranque dos anos 80 que se traduzia numa música não-conformista e ambiciosa no plano artístico, completamente empenhada em descobrir novas formas de tensão (“Eco Beat” de DC3 é um exemplo claro – tema de suspense para um filme a preto-e-branco sobre uma Europa anterior à queda do muro de Berlim, invadida por aliens e tomada por uma qualquer ideologia totalitária: era destas distopias que se fazxiam as visões desta música). Não há concessões aqui, não há tentativas de erguer novos paradigmas para a pop, ao contrário do que era assumido por bandas como Human League ou OMD, mas antes um claro desejo de ir a lugares tão remotos quanto possível, inexplorados e retornar de lá com uma música que nada devesse ao passado e tudo iluminasse do futuro.

Mesmo estendendo-se por 60 faixas espalhadas por quatro CDs há que registar omissões só possíveis de explicar por dificuldades de licenciamento como serão os casos de Depeche Mode, Cabaret Voltaire, The Normal, Art of Noise ou Fad Gadget, entre outros. Mas também em lugar algum se reclama para Close to The Noise Floor a condição de retrato definitivo de uma cena. Como se começou por explicar, o foco é demasiado apertado em termos geográficos e temporais para se obter uma mais ampla e panorâmica visão de uma época em que os sintetizadores e os estúdios equipados com tecnologia que hoje pode parecer primitiva ajudavam a concretizar ideias de presente e futuro, de urgência e de opressão, sendo até possível identificar nesta música actos de resistência política. Mas Close to The Noise Floor oferece, sem a menor sombra de dúvidas, um dos mais conseguidos estudos sobre o período em que a electrónica foi reclamada pelos habitantes das cidades como ferramenta de afirmação pessoal, como artefacto de expressão de identidade e não como arsenal para encenaçõs ritualísticas de poder. É nesse sentido que é possível estabelecer uma ligação directa entre o impulso de todos estes músicos aqui presentes e os que nos dias de hoje usam bem mais avançadas, mas igualmente acessíveis ferramentas tecnológicas para continuarem a traduzir o momento definindo-se a si mesmo através de uma combinação muitas vezes intuitiva de frequências, pulsares, ritmos e texturas. Continuamos todos a viver bem próximos de um solo preenchido com ruídos.


 

 

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