Vários Artistas // Additive Noise Function

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

A presente compilação reúne em triplo vinil o melhor dos três volumes da série Close to the Noise Floor, edições antológicas carimbadas pela Cherry Red que se focaram na “electrónica formativa” do Reino Unido, Europa e América do Norte, respectivamente. A organização é simples e clara: cada uma das rodelas de vinil é apresentada como uma amostra de um dos volumes das expansivas antologias lançadas em caixas de 4 CDs. Se pensarmos que transpor cada uma das caixas de CDs originais para este suporte analógico implicaria certamente edições com pelo menos 8 álbuns em vinil, é fácil perceber que a série inteira ficaria por preços incomportáveis para a maior parte das pessoas e, portanto, a presente edição é o compromisso possível, capaz ainda assim de satisfazer os mais dedicados fãs que não abdicam de ter esta música no suporte em que, bastas vezes, foi originalmente lançada (parte desta cultura musical específica foi também à época disseminada em cassete).

A série arrancou com Close to The Noise Floor – Formative Uk Electronica 1975-1984 (2016), volume que contava, como de resto os subsequentes, com notas de Dave Henderson, jornalista veterano com autoridade acrescida já que na altura em que esta música estava a ser originalmente criada e lançada assinava na Sounds a coluna Wild Planet que se focava precisamente neste nascente som electrónico, possibilitado por uma nova geração de ferramentas — sintetizadores, gravadores de fita, efeitos, caixas de ritmos — suficientemente baratas para serem acessíveis a músicos que, movidos pelo impulso DIY do punk e inspirados pela electrónica dos Kraftwerk, queriam deixar a sua própria marca impressa nas margens da pop.

Inteligentemente, os curadores da série souberam representar o topo da pirâmide musical electrónica que no período coberto também se soube instalar no topo das tabelas de vendas, incluindo no alinhamento nomes como The Human League ou John Foxx, mas cuidando também de olhar bem mais fundo, para os subterrâneos mais experimentais dessa nascente cultura sintetizada resgatando ao esquecimento nomes como Nagamatsu ou Spoon Fazer. Nesta edição em vinil, isso significa alinhar, no primeiro disco, nomes como O Yuki Conjugate (passaram recentemente pelo nosso país, tendo assinado concerto no Porto com carimbo da loja Matéria Prima), Thomas Leer, Bourbonese Qualk ou The Legendary Pink Dots, numa sequência de música abrasiva, de tons sombrios, que traduzia um clima político, uma temerosa visão do futuro, um mundo em plena transformação ideológica e tecnológica e por isso mesmo incerto. Em “Tight as a Drum”, por exemplo, Leer parece desenhar uma banda sonora para um pesadelo corporativo conseguindo, ainda assim, não esquecer a propulsão rítmica que dominava boa parte desta música: o mundo poderia estar à beira do fim, claro, mas nem isso seria razão suficiente para não se dançar numa cave escura qualquer. A voz sussurrada e altamente processada de Thomas Leer soa como a do narrador num filme noir. Tudo certo por aqui.



O segundo vinil deste tríptico reflecte o volume da série focado na produção europeia continental, Noise Reduction System, que até incluía um tema da Anar Band de Rui Reininho e Jorge Lima Barreto. Na transposição para esta concentrada amostra em suporte analógico sobreviveram faixas dos alemães D.A.F. ou Les Vampyrettes (projecto a que estava ligado o engenheiro Conny Plank e o músico dos Can Holger Czukay), do suíço Carlos Peron (ligado aos Yello), dos holandeses Minny Pops ou dos belgas Front 242. Há um sabor distinto, também sombrio como no caso britânico, mas talvez mais experimental, mais desligado de uma ideia de pop, mesmo que por oposição, resultando num som globalmente mais abstracto e exploratório.

Finalmente, na terceira rodela de vinil dedicada ao volume de Close to the Noise Floor focado na América do Norte, que levou o título Third Noise Principle, encontra-se gente como K. Leimer, Richard Bone ou Marc Barreca, todos exploradores do lado mais solitário da produção, com conotações pop ou new age, e bandas como os Residents ou os Tuxedomoon, acentuando a dívida da série ao catálogo da Ralph Records dos lendários mascarados de gigantes globos oculares (já no lado britânico se registava a presença de Renaldo and The Loaf, representação inglesa no catálogo comandado pela banda californiana). Tratando-se de produto americano, sente-se aqui um pulso mais próximo de uma certa ideia de showbizz, com faixas como “Creators” dos Data Bank A (originalmente lançada em cassete em 1983) a terem um pulso rock certamente herdado das experiências conduzidas uns anos antes pelos visionários Suicide.

Como é óbvio, este triplo vinil não deve ser encarado como substituto da bem mais ampla representação de uma época de aventureiros exploradores do futuro através da electrónica que assenta em 12 bem recheados CDs, mas é uma boa ferramenta para DJs que continuam a não dispensar o vinil e um saudável tónico para os ouvidos de quem crê que este som faz mais sentido num suporte analógico.

Podem escutar aqui.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu

Latest posts by Rui Miguel Abreu (see all)