Pontos-de-Vista

Hugo de Oliveira

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Uma expressão honesta de revolta.

Toy tira a cerveja do congelador e vem parar o terror

Enquanto em Inglaterra Bob Vylan lutam contra o cancelamento depois do seu apelo a uma insurreição global contra o ICE e, um pouco por todo o mundo, até bandas que raramente verbalizam posicionamentos políticos de qualquer quadrante discursam contra a ocupação da Palestina, condenada ao estatuto de nota de rodapé na história contemporânea, em Portugal, a figura musical mais activa contra o genocídio, o colonialismo israelita e o imperialismo americano, está longe das sonoridades marginais e mesmo do pop mainstream

Toy, situado na inóspita fronteira entre o mundo pimba, sem realmente lhe pertencer, e o da música pop, sem verdadeiramente lhe ser concedida entrada, tem paralelo apenas em Quim Barreiros. Mas onde o último é celebração na forma brejeira e subpolítica (ao contrário de outras, como o carnaval), o que lhe permite acesso à esfera pop via kitch, Toy é o mesmo cantor romântico de sempre, num mundo globalizado onde a supremacia dessa figura acabou associada às festas de aldeia.

Através das suas aparições públicas, como figura empática e acessível, em oposição a um intangível Tony Carreira ou a um Emanuel gentrificado pela televisão, Toy tem encontrado espaço junto de públicos que não são naturalmente seus.

Antes da era dos soundbytes se tornarem conteúdo das redes sociais como amplificação acelerada, já Toy se tornara viral devido a momentos como quando conduziu a alta velocidade usando os joelhos para controlar o volante enquanto dava uma entrevista ou quando admitiu fumar erva na consoada, em casa com a família. Essa exposição crua e espontânea da sua vulnerabilidade tem gerado identificação com o público culturalmente e geracionalmente mais distante, beneficiando do mesmo mecanismo de que a extrema-direita se socorre, embora nos seus antípodas.

Também como essa extrema-direita, Toy tem vindo a despontar como o rosto de um Portugal real, mas oposto ao do antagonismo contra o “outro”; o da solidariedade instintiva como a gerada pela tempestade de Leiria. Essa variação, nem calculada nem calculista, no ser popular e anti-populista, permite a crença em cada palavra sua como rebentação insuportável de uma emoção genuína, qualquer que seja o preço a pagar.

Chamar assassino de bebés a Nethanyahu ou, em bom e velho vernacular gil vicentiano, filho da puta a Trump nos prémios PLAY não surte a onda de choque moralista expectável. Esta não foi a primeira vez que Toy se posicionou contra Israel nem a primeira vez que o seu nome surgiu associado à política, ele que já apoiou a CDU, o PS, Marques Mendes e manifestado até o desejo de candidatar-se à presidência da Câmara de Setúbal. Ainda que estes gestos não lhe granjeiem novos ouvintes, garantir-lhe-ão certamente carinho junto de uma determinada tendência social mais afecta a novas tendências, não necessariamente apenas de esquerda, e tanto plebeia como urbana, abrindo-lhe a possibilidade de uma maior aceitação, para lá da dos seus ouvintes base.

A questão de fundo não se prende com o induscutível virtuosismo musical de Toy ou com quão azeiteiras são as suas músicas, mas no contexto e na sua história pessoal, indissociáveis da música, reside a sua intransponível limitação. Não obstante, tanto os celebratórios, como os provocatórios, todos os gestos de Toy, chegam-nos como a expressão honesta de uma revolta, cujo potencial viral, certamente não desconhecerá.

Se existir, nada há de errado com essa premeditação, potencialmente inauguradora de uma onda pós-populista como forma de superação do populismo político instituído pelo TikTok, até estarmos, enfim, estupidamente apaixonados, prontos para pôr a cerveja no congelador e, depois de tanto ódio, finalmente fazer amor.


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