Pontos-de-Vista

Hugo de Oliveira

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Falta de noção, coragem, imaginação ou empatia?

A silenciosa cumplicidade dos Bandidos do Cante na Eurovisão

O egocentrismo institucional nacional do desinteresse pelo outro, mascarado como neutralidade diplomática é longo, sobretudo por governos que menosprezam a cultura numa representatividade democrática exercida numa lógica top-down e não bottom-up, substituindo o espírito de Abril pelo mercantil, fazendo da recusa em boicotar a Eurovisão a sua continuidade lógica.

Mas agora, o extremar performativo dessa simulada neutralidade na híper-realidade algorítmica não reside em qualquer ministério ou mesmo na RTP, mas na banda que representará Portugal na Eurovisão.  Os Bandidos do Cante não se limitaram a promover uma isenção monástica relativamente à situação do Médio Oriente travestida em cortesia com o objectivo de os apresentar como os boys next door a evitar sarilhos, como se fosse possível ouvir o canto das aves sob o ruído dos aviões militares. Subiram a fasquia ao infantilizar o apelo a uma abstracta “união num contexto de divisão”, onde reside a sugestão velada de capitulação das vítimas, como se existisse qualquer alternativa além duma resistência equivalente à sobrevivência.

Nesse discurso padrão das Miss Universo, a sua defesa da harmonia equivale a nivelar mestres e escravos, invasores e invadidos, opressores e oprimidos, numa completa cisão com o real, interditando o genocídio na argumentação. Ao negarem o potencial soft-power dialéctico cultura / política, fica a dúvida se os Bandidos do Cante sofrem de falta de noção, de coragem, de imaginação, de empatia ou de um desconhecimento sobre a íntima cumplicidade cultural e política num país onde o contributo da primeira foi determinante para o fim da segunda, aplicada numa ditadura de 48 anos, cuja acção nas ex-colónias ecoa no Médio Oriente. 

As suas declarações tornam-se ainda mais kafkianas, não só pelas raízes do Cante alentejano serem proletárias, colectivistas e populares mas também depois de, contra todas as indicações, Salvador Sobral ter falado incessantemente sobre a situação dos refugiados aquando da sua participação na Eurovisão, de onde a Rússia está actualmente excluída na habitual duplicidade de critérios eurocêntrica.

As declarações da banda de Beja, cidade onde foi ensaiado um golpe de estado durante a era de Salazar, tornam-se ainda mais burlescas, por participarem no mesmo evento de músicas como a “Desfolhada” e a “Tourada”, ambas flagrante desafio à ditadura, e mais ainda, depois dos trabalhadores da RTP apelarem ao boicote da Eurovisão.

Qualquer crítica dos Bandidos do Cante à realidade do Médio Oriente comportaria um preço ao qual a banda não será certamente alheia, pelo que as leituras possíveis da posição assumida na sua recusa em assumir posição são a pactuação pelo silêncio ou a primazia da sua carreira. 

Seja qual for o motivo, no final, a única conclusão é a sua subscrição da desordem actual do mundo que afirmam querer resolver através da música, quando, até mesmo Jesus afirmou trazer a espada, não a paz, perante um cenário não tão diferente assim do nosso presente.


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