A espirrar mais que o normal? Se sim, não culpem os níveis descontrolados de pólen no ar por estarmos na Primavera. Em 2026, esta estação do ano ficará marcada como a Primavera de TILT, porque o primeiro longa-duração do rapper da Margem Sul finalmente brotou, em forma de ESPIRRO.
Concebido a partir de uma história real que até deu origem à capa, este ESPIRRO de TILT não dava mesmo para segurar, por muito que fosse incómodo e que sangrasse. Mas este ESPIRRO é apenas uma ínfima parte do problema maior, a doença em forma de uma obsessão com rap e cultura hip hop que o MC sofre há uns bons anos — pelo menos há 22. Logo a abrir este disco, salienta que foi “diagnosticado” em 2004 e que à data de hoje os sintomas continuam bem patentes.
O rapper dos ORTEUM trilhou uma última década simplesmente brilhante que o elevou a um patamar de rapper de culto, tornando-se dos nomes mais especiais do hip hop lusófono. Nesta espécie de confinamento musical, juntam-se a si vários pares do underground português, como Il-Brutto (há álbum colaborativo a caminho), Jack Crack, Nero, Nelassassin, Bambino e muitos mais.
Esqueçam as máscaras, esqueçam o álcool-gel e deixem-se contagiar por este ESPIRRO, que deverá ser um sério concorrente a álbum do ano. Mas cuidado, o contágio é fácil e não se conhece cura para esta estirpe de rap. Talvez seja caso para dar graças e dizer “ainda bem”. Portanto, da próxima vez que o homem espirrar, não digam “santinho”, digam “obrigado”.
O Rimas e Batidas aproveitou esta estreia para dissecar com TILT todos os detalhes do álbum que levará para a estrada no próximo mês de Maio, de Norte a Sul do país.
O “Traçado” é basicamente uma homenagem às tuas raízes, ao teu começo, há uma carga muito grande de memórias e referências tuas ali. Sentiste necessidade de encapsular isso? Já agora, não consegui apanhar todas as referências que tens ali, porque são bastante pessoais, especialmente o refrão.
Sim, falo sobre o Estrelas do Feijó, que é um clube do Feijó. Curiosamente, eu nunca fiz parte dos Estrelas do Feijó. O que acontece é que eu ia lá buscar vinho traçado, aquilo à noite tem tipo uma tasca. É a dica, tipo, “o meu destino foi traçado desde os Estrelas do Feijó”, então têm uma ligação ao início do meu percurso. Nesse som falo ali de muitas coisas, não é feito propriamente para as outras pessoas perceberem. Acaba por ser um som para os meus, são dicas muito pessoais, falo de pessoas que tu não vais conhecer.
Lembro-me do Vito.
O Vito por acaso até é uma personagem minimamente conhecida. O Vítor Delgado era um skater profissional da minha zona com quem eu também skatei no início, quando andava.
Passado uns bons anos, finalmente sai o ESPIRRO. Rotulaste-o há uns anos como o teu projeto mais pessoal e completo.
Sim, vais ali mais à personagem do André, visitas mais o André. Mostra-se um bocado o lado mais humano. O disco acaba por ser bastante sobre mim, em grande parte.
Olhando à tua discografia toda, com Alimentar Crianças Com Cancro da Mama, Karrosel, Karma e MIASMA acabas quase por ter uma versão compacta, maximizada desses três discos, com tudo o que está nesses três trabalhos numa só obra.
Concordo plenamente. Até acho que não só consegui entrar numa espécie de esferas que estavam nesses discos, como também consegui entrar em novas, como com o “Bateria”, por exemplo. O “Tundra” também acho que é um som que não estaria em qualquer outro disco, estaria neste. Eu saí um bocadinho daquela zona de conforto, tentei ao máximo tocar em várias cores, sem fugir à minha cena.
Logo a abrir, no primeiro som, o “Ferros”, dizes “estou-me a cagar se ninguém me dá sangue, é o meu que está na capa”. É a rima mais literal do disco, é um acontecimento real que te inspirou para o título e também para a capa do álbum.
Basicamente foi isso. Estranhamente, numa situação eu espirrei, não sei se foi a assoar-me ou se me tinha coçado, não faço ideia… mas espirrei e rebentei uma veia, saiu sangue. Tinha um lenço ou um guardanapo que usei e depois digitalizei-o. Serviu como base de conceito, foi algo a manifestar-se. Olhei para aquilo e pensei logo que dava para a capa de um disco, representava um bocadinho até a minha cena, podia fazer sentido uma cena assim. Eu tenho alguns conceitos guardados na gaveta, alguns a meio, outros só idealizados. Eu sou muito assim, pensar numa ideia principal, um universo ou uma ideia que me permita explorar a partir dela algo interessante.
O paralelismo com a pandemia de COVID-19 é óbvio e é normal. Na primeira vez que falaste disto mais publicamente foi aqui, no Rimas e Batidas. Vai um pouco de encontro a outras coisas que já fizeste na tua carreira, ligadas até à temática da saúde, como o Alimentar Crianças Com Cancro da Mama.
Nunca tinha pensado nisso, mas até vai, ya. O COVID acho que só potencializou a ideia na altura. Por exemplo, eu acho que esse pico já passou até. Mas acho que o conceito não se perde, porque o espirro, para mim, é um sintoma de um vírus ou uma doença. Para mim, a doença é a minha obsessão, o meu rap, a minha forma de estar. Aquilo é uma manifestação da minha doença, da minha loucura nisto, como um espirro. Pode contagiar, não é? Pode ter esse impacto.
Achas que és o paciente zero desta estirpe?
Sou da minha estirpe, porque sinto-me demasiado eu, sinto-me à vontade para dizer que sou demasiado eu. Acho que há muitos pacientes zero, cada um à sua maneira. Estou aqui para falar sobre mim.
Nessa pequena entrevista ao ReB em 2020 falaste um sobre este ESPIRRO como sendo um EP. Já se passou pelo menos uma mão-cheia de anos desde então. Como é que ele chegou até este formato de um disco de maiores dimensões?
Comecei tanto a criar mais algumas coisas, como também a juntar mais algumas peças, a ver o que é que encaixava, o que é que não encaixava. Tive várias várias fases do projeto. Várias fases, mesmo. Tive também muito em cima da produção executiva de todo o trabalho, à volta de como as coisas eram montadas e soavam, chamar músicos para fazer alguns arranjos. É um processo que me deu um prazer enorme, quase tanto como escrever. Assim, aos poucos fui juntando peças e peças até achar que tinha a cena.
Tens ali temas que já saíram há alguns anos, como o “Espinhos”, o “Contraste”. Achei curioso teres incluído esses temas no álbum. Já na altura estavas a trabalhá-los em prol deste ESPIRRO?
Na verdade, esses temas sempre foram planeados para lançar lá, mas fui lançando assim faixas soltas, estava a dar alguns concertos e queria manter algum movimento. Não queria manter muitos silêncios e fui fazendo isso. Honestamente, acho que numa próxima vez não vou fazer nada assim, acho que vou lançar num momento específico e aí trazer mais coisas, em vez de trazer as coisas tão espaçadas.
Acabas por conseguir encapsular várias temáticas de forma até bastante abstrata no conceito do álbum. Há imensos objetos/fenómenos que simbolizam algo maior, de forma “disfarçada”. Queres explicar um pouco este conceito?
Na verdade, o ESPIRRO — tirando o “Paciente Zero”, a introdução e os skits — não tem uma grande referência à questão do acto de espirrar. E porque é que eu acho que isto acontece? Porque o conceito de “espirro” permite-me simplesmente expulsar as coisas livremente. É um conceito que me permite ser livre, como existem vários conceitos de álbuns de rap que permitem ser livres dentro de uma cena. Há ali uma cola, sem grande necessidade de reforçar constantemente uma ideia ou um conceito. Isso permitiu-me, basicamente, ter um som a falar sobre “isto”, outro som a falar sobre “aquilo”, à vontade. Embora eu tenha feito as coisas também para seguir uma certa narrativa. Tipo, ao longo do disco é feita uma certa narrativa.
Gostavas de explicar um bocadinho melhor essa narrativa?
Claro. O “Ferros”, para mim, é uma introdução do álbum. Para mim, a narrativa é aberta no “Traçado”, onde eu falo sobre a origem, de onde eu vim, o meu percurso, onde eu estive, o que eu fiz, como é que eu conheci algumas pessoas, quem eram as pessoas que eu conhecia. Está tudo ali, subentendido. O “Esfaimado” é sobre viver da música, que é uma consequência do “Traçado”, uma consequência do meu percurso. O “Cinza” sou eu a renascer, sou eu a acordar para o “Contraste”, para fazer um certo comeback dessa narrativa. No “Espinhos” já entro numa onda igual à do “Contraste”, onde baixo os BPM, entro numa cena assim mais dark, a falar sobre mim. Passa depois para o “Tundra”, onde eu falo sobre a minha relação também com o exterior, o exterior estéril, assim de que vivo. Passa para depois para o “Bateria”, onde eu carrego as energias de toda esta negatividade. A seguir tens o MLK a dar-me na cabeça, para eu fazer a cena como deve ser. Depois, entra o “Influenza”, que é o nome científico da gripe, aqui mais virado para a questão da “péssima influência”. Fala sobre a merda que nós fazemos que é um bocado inconsequente, estamos um bocado a cagar-nos, a nossa cena é a expressão e é para quem é. Não somos escravos desse tipo de exigência. Falo também sobre encontrar a “Corrente” das coisas, o resistir, o ser firme, que, de alguma forma, tem um significado para a passagem ao próximo tema, “Labirinto”, que é sobre o nosso labirinto espiritual, o labirinto da nossa vida, das nossas emoções, da nossa mente, e termina com o solo brutal do Miguel Ferrador. Depois passa para o “Treze”, o clássico, é a faixa 13, que é um certo rebentar de toda a saturação do disco. A seguir tens um skit, que é a introdução do “Paciente Zero”, onde eu me manifesto como tal. Mais um egotrip, num drumless do Il-Brutto. Depois, à parte disto, o disco para mim termina aqui, mas tenho a faixa 16 que é o remix do “Sai-te Caro” com os Tradição. Amo esse som, amo essa versão. Tradição é uma clique que fez parte do meu percurso, foi um prazer enorme tê-los aqui manifestados. O tema diz-me bastante, eles dizem-me bastante, também como pessoas. Sei que muitas coisas que eles disseram ali foram sentidas, gostei de fazer parte desta manifestação.
Trouxe alguma escuridão, mas, acima de tudo, trouxe versatilidade nos convidados do disco, nomes menos comuns e invulgares, algo que também é característico da tua discografia, sempre a investir em malta nova.
Eu adoro trazer ao de cima people do underground. Tipo, apresentar talentos, basicamente. Adorei o Muka ter participado no projeto Karrossel, Karma, por exemplo. Nós, em ORTEUM, também fazemos isso. Gostei muito de fazer isso, pegar também em pessoas que ninguém conhece. Tipo, tu queres fazer som com people que rime fixe, independentemente de quem conhece, quantas pessoas conhecem, whatever. Mano, e fazer aquilo também é um pouco a nossa responsabilidade, não é? Que é partilharmos, fazermos a partilha de momentos. E um feat acaba também por ser isso. A partilha de um momento, a concretização de um momento em conjunto — o hip hop vive muito disso. E toda a gente ganha com isso, ‘tás a ver? Acho que é isso. Até tenho pena de não ter mais feats no disco, na verdade. Num próximo gostava de ter mais feats.
Falando em underground, como dizias, tens aqui a fina flor quase toda do underground, pelo menos na parte instrumental. Tens, se calhar, a maior parte dos meus produtores favoritos neste trabalho. Há poucos repetentes: o Nero, o Il-Brutto e o Martello. De resto, é tudo malta que assina um tema diferente cada. Foi uma dor de cabeça boa conseguires unir isto tudo do ponto de vista sonoro? Como correu essa parte do disco?
Epá, fui juntando, fui vendo o que é que fazia sentido. E tentei ser um pouco variado. Imagina, eu até agora só tinha lançado a solo projetos pequenos. E isso permite-me um pouco manter sempre o mesmo universo a nível de tonalidades, sem ser altamente cansativo. Agora, quando falamos de um projeto tipo este, que é um bocadinho maior, eu acho que é isso: preocupei-me em trazer alguma variação a nível de tons, de ritmos até.
Por acaso reparei numa grande presença de guitarra eléctrica, é uma tonalidade que não associava muito à tua música, mas que notei em alguns temas. Às vezes a dar um tom quase frio, gélido. Parece que quase todo este álbum está numa tundra, ou foi feito numa tundra.
A guitarra realmente foi usada em algumas faixas. Também tive algum baixo, esteve tocado em umas três faixas, e a guitarra também numas três ou quatro. Desde o “Treze”, o “Tundra”, o “Sai-te Caro”, o “Labirinto”, até no “Bateria”. A cena passava um bocadinho por eu ouvir as demos e pensar que me falta qualquer merda. E às vezes, no caso do “Labirinto”, eu não estava lá quando foi gravada a guitarra, foi gravada entre o Rob e o Miguel [Ferrador]. Mas tudo o resto… O “Sai-te Caro” foi gravado mesmo no estúdio do Nero, mas as outras que estou aqui a referir, eu pedi, por exemplo, ao Jackie, para ele me gravar umas notas, avacalhar uma merda, e de uma cena gigante eu aproveitava quatro coisinhas para criar ali um certo momento. Não é para ser um som de guitarra, ele sabia, ele percebeu. Logo quando nós fizemos o “Treze”, aquilo que eu procurava era experimentar coisas. É um processo que eu gosto também.
Há pouco, quando estavas a falar sobre a narrativa do disco, também falaste um pouco sobre a questão da influência e de não estarem muito preocupados com isso, mas eu até tinha uma pergunta que é quase antagónica com essa visão. No “Traçado” tens aquela voz inicial de uma criança a dizer que quer ser como tu em adulto. Mais à frente, no skit que tens do MLK, ele fala sobre abordar temas bons para quem te ouve. Deu-me aqui a sensação quase que te demonstravas preocupado com essa tua questão do legado, daquilo que queres deixar cá, com a tua música, mas já vi que nem por isso, não é?
Eu acho que nós todos somos bastante complexos. Acho que, de alguma forma, sei expressar essa complexidade e essas várias facetas e não me sinto muito preocupado com aquilo que deixo ou que não deixo. Eu sei a minha intenção nas coisas. Quando nós falamos de determinados comportamentos ou determinadas coisas que nós fazemos, que não são para as pessoas nos seguirem, são só relatos nossos, não é? Mas há muito essa preocupação, às vezes ouço essas merdas, e isso até vem um bocadinho em resposta às opiniões que um gajo ouve. Há coisas que eu faço que são claramente eu a falar a sério, e há coisas que sou eu a avacalhar. Eu não sou responsável pela falta de inteligência emocional ou educativa de alguém, não é? Mano, é assim, imagina, eu ouvi muita coisa que nunca fiz, vi muita merda que nunca fiz, então é um bocado de nos estarmos a cagar para o tipo de influência que somos. Na verdade, é assim que nós influenciamos também. Acho que até fui uma boa influência, no sentido de mostrar que somos simplesmente nós, sem tentar agradar ou desagradar, não é? É o que é. Obviamente que é sempre bom ser boa influência, mas na minha opinião, eu acho que é mais produtivo seres uma boa influência no teu dia-a-dia e no teu círculo real de ação, do que estares muito preocupado com a moralidade por trás das artes. Não sou bacano de pedir paz e amor nos sons para depois ser uma ganda merda para o meu vizinho. Eu prefiro ser real a esse ponto, ou pelo menos sentir a realidade dessa forma.
No “Esfaimado”, como descreveste, falas sobre a sobrevivência à base da música. Na tua lente, um pouco mais pessimista, também num tom quase satírico. De que forma interpretas a vida de um artista em Portugal?
Ya. Na verdade, o som sempre teve dois títulos, chamava-se “José Lopes Esfaimado”.
Queria falar sobre esse caso, também.
Eu devo ter começado a escrever o som pouco tempo depois de saber dessa notícia. Achei um ponto importante de se falar, é um bocado triste, mas é a realidade. Às vezes temos de escolher a nossa fome. Qual é a fome que nós vamos ter? Se é não termos tanto no prato, mas termos mais no espírito, ou temos mais no prato e menos no espírito? É uma cena ingrata de um modo geral.
É uma dicotomia que temos de responder em alguma parte da vida, não é?
Diria que sim, ou fazer o máximo para deixar de ser um problema. Lutar o máximo para espalhar a nossa cena, para a nossa cena fazer sentido. Mas não sei, o destino realmente não é fácil de prever. A maior parte dos artistas acabam na merda.
Em 2004, quando decidiste que estava “Traçado”, o que é que te puxou? Passaram 22 anos, já tens noção plena de como é que são as coisas e continuas cá, sem parar.
É amar fazer rap, estava traçado mesmo, não há volta a dar. Uma pessoa não pode dar as cenas como garantidas, tens de trabalhar todos os dias para ter os teus resultados, para chegares onde quer que seja. O que me fez chegar aqui foi mesmo a minha obsessão por rap.
Oiço-te várias vezes neste disco a referir o “Garcia”, o hospital psiquiátrico Garcia de Orta, algo que já referiste noutros temas, mas parece surgir num tom um bocado mais profundo, mais pessoal. Também tens rimas sobre teres estado em lugares estranhos mentalmente. Saúde mental também é uma questão que foste abordando subliminarmente?
Sim, eu creio que sim, sem querer. Não consigo desenvolver muito isso porque, na verdade, nunca pensei muito nisso. Aconteceu quase sem querer, parece que faz parte. Acho importantíssimo e acho que é um desafio também manter uma boa saúde mental nos dias de hoje.
Uma forma de fugir a esses problemas é com a tal “Bateria” que tu falas, que acho que é um tema muito especial. Adições e consumos são uma realidade que te circunda?
Sim, no “meio” esta merda é mesmo assim… é fácil. Se calhar é um assunto um bocado sensível, é difícil de explicar-te. Nesta vida, as cenas não são fáceis e os putos, quando estão à procura de significado, derivam muito. Também é nestes passeios pela vida que nós aprendemos a criar, mas isso leva-nos a passear também por sítios mais fatelas. Pronto, falo de algumas cenas que fazem parte, fizeram parte e é o que é, é real.
É uma analogia muito bem conseguida, parece-me. Como é que foi fazer este tema, sendo que é o tema mais “fora”, num bom sentido, do álbum? O refrão do Bigg Favz é muito especial.
Eu tento ser inteligente ou parecer inteligente. Esse som teve muitas fases, fui buscar o beat à MPC do Bambino. Por acaso, ainda hoje estive a ouvir a primeira demo que eu tinha desse beat e no início não tinha nada a ver. Tinha lá o sample do início, não tem os arranjos, mas já tinha o corpo dele. Eu já tinha ouvido rap neste tipo de ritmos e sempre foi uma cena que gostava de experimentar. Eu ouvi aquela merda e achei logo que conseguia fazer qualquer cena fat. Bem, nos entretantos, eu escrevi e gravei para a faixa, o Bambino deu umas vozes adicionais e finalmente decidi falar com o Favz e o gajo pegou logo naquilo. Mais ou menos nessa altura também falei com o Manel [Reis] para acrescentar um baixo, faltava aqui qualquer coisa, um groove qualquer, e o Manel matou com aquele baixo, eu adoro aquele baixo. Também tem baixo do Bambino, mas o Manel deu lá uma nota ou duas e ficou mesmo brutal. Depois decidi gravar umas vozes adicionais e esse momento parece um culminar de uma festa. Gostei, foi tipo a minha espécie de “som de festa”.
Reparei que no “Tundra” falas sobre labirintos e no “Labirinto” falas sobre tundras. Queres falar um bocado sobre esta simbiose?
Eu vejo o “Tundra” como uma espécie de labirinto exterior e vejo o “Labirinto” como uma tundra interior. Acho que é um bocado isto que eu sinto. É muito perdido no exterior, embora com reforços internos, mas o “Labirinto” sinto que é muito uma conversa comigo, à procura de mim.
Considero essa faixa como a mais pessoal do disco. Foi das vezes que ouvi o TILT mais vulnerável.
Sim, é dos mais pessoais. Na verdade, eu tenho sempre receio deste tipo de som. Tivemos a listening party há uns dias e, para mim, foi uma surpresa a malta ter reagido a este som da forma como reagiu. Gosto muito do ambiente da música, a guitarra acrescentou bastante também à música e a todo o percurso da cena.
Agora, uma curiosidade de nerd. Adorei o cut do Nelassassin no “Ferros” a dizer “put the game on tilt”. De quem é aquela voz?
É do Edo G. Ele teve um grupo que era os Special Teamz, com o Jaysaun e o Slaine. Conheço o projeto há bué anos e até tenho o disco deles. Essa dica tenho há bué guardada — tipo, pensei, “era fixe um dia ‘riscar’ esta merda”. Foi uma dica que sempre guardei, com carinho, ao longo dos anos. E agora o Nelassassin fez o que fez, maltratou a situação, e fez a magia que fez.
Depois de uma espera bem longa, porque sentiste que agora era o timing de lançares o teu primeiro álbum? O que é que mudou para ele vir cá para fora?
Deu-me vontade de espirrar, estava mesmo para sair… “Vai sair, vai sair, já saiu. Peço desculpa, foi sem querer.” Mas é assim, ya. Tive aí umas ameaças, mas foi agora.
No “Paciente Zero”, tens ali um refrão que dizes “Lanço BESTA brevemente, espero”. COLÓNIA CALÚNIA ia ter supostamente essa BESTA, um disco que iam lançar e depois acabou por não acontecer. Mais novidades a caminho?
Mano, basicamente, acabei por não lançar por lá, mas foi um conceito que eu carreguei comigo. Volto a dizer: eu fecho conceitos, tenho as cenas, mudo os beats, consigo recriar, que não é recriar, mas manifestar aquilo que é preciso ser manifestado. Neste caso, será em conjunto com o Il-Brutto, é o meu objetivo agora nos próximos tempos concluir esse trabalho. Mas sem grandes promessas que vai sair e não sei o quê, porque eu não sei quando. Isto vai ser assim: vou estar a trabalhar nisso, noutras merdas, vou-me estar a divertir, vou estar a fazer som, e vou estar a espremer este ESPIRRO, que para mim é especial, e espero que as pessoas o sintam dessa forma também. Espero que faça sentido estarmos a partilhar este disco durante o tempo necessário.
Ouvi dizer que este disco vai ter uma edição física com algumas inovações à mistura.
Sim, sim. Isto é feito pelo Sensei D., mas também vem muito aqui da minha cabeça e daquilo que nós conseguíamos discutir os dois até chegarmos a este resultado. Aquilo é um CD, é um digipack, embrulhado numa bandana. Podes usar à volta da cara, na cabeça, à volta do pescoço, como preferires. Mas lá dentro é que começam os detalhes. Porque, basicamente, lá dentro tem umas instruções ou precauções de contágio. Não quero dizer exatamente o que é, mas tem lá informações no CD, escondidas. Tens lá um QR Code e existe uma password escondida também que te permite, quando acedes ao QR Code, preencher um formulário que te dá acesso a um espaço, ao “Arquivo ESPIRRO”. Neste arquivo existem várias coisas. Desde pequenas demos antigas ou deste tempo. Umas relacionadas com o ESPIRRO, outras relacionadas com algumas participações, outras até fora disto tudo, e outros extras — tipo, quero meter wallpapers para o telemóvel e para o PC. Também vou ter lá algum material fotográfico, letras do disco e algumas curiosidades. Para além disto, vai lá estar uma pasta com o outro do disco. Essa pasta está encriptada com uma password e a password está escondida nas letras. E as pessoas podem-se dar ao trabalho de decifrar. E entramos aqui na questão moral que é: “O que é que nós fazemos quando temos uma coisa que se calhar não podemos ter? Será que partilhamos o ESPIRRO? Será que guardamos para nós?” E é essa a experiência que eu quero que as pessoas tenham. Eu acho que além de alimentar o conceito para quem gosta da cena, pode fazer, de alguma forma, consumir o disco de uma forma diferente. Porque tu vais andar à procura das cenas para consumir mais cenas e está tudo ali à tua disposição. Se vais conseguir aceder ou não, se vais querer procurar ou não vais querer procurar? O que é que vais fazer depois de encontrá-los? São outras questões. É para as pessoas se divertirem. É a experiência. Fazer com que as pessoas demorem mais tempo a consumir o disco, e nem é necessariamente estar a ouvir a música do disco. Às vezes, quando nós consumimos um livrete de um disco, não precisamos estar a ouvi-la. Estamos ali a ver as curiosidades, a consumir, a ler. O link para pré-venda já está disponível para quem estiver interessado.
Por fim, vamos ter este ESPIRRO pela estrada?
Sim, vai haver tour, em Maio vou a vários sítios. Começo no dia 15 em Lisboa, dia 16 em Braga, dia 22 em Évora, dia 23 em Loulé e no último fim-de-semana vou dia 29 a Leiria e fecho a 30 de Maio no Porto. É assim, há espirros que não dá para serem segurados.