O rap é a principal fonte da música nova hoje em destaque no Rimas e Batidas, toda ela alicerçada à volta de vozes que veiculam versos, mas há também produto colhido vindo de outras zonas do amplo espectro sonoro a que a nossa publicação tem dado especial atenção. E em vésperas de Mundial de Futebol, Portugal dá 4-1 à música internacional, surgindo em grande peso por entre as obras que mais caíram nas graças da nossa redação nos últimos dias.
Rola a bola e o jogo só para quando o leitor/ouvinte quiser, pois há que ainda ter em conta os mais recentes trabalhos também editados por gente como Basílio Teles (Lapa Rockstar), Elisa (Incoerente), Vaiapraia (Alegrigrigria), Helena Caldeira (ABALAR), Gui Aly (THIS IS WHAT LOVE FEELS LIKE), Luedji Luna (Acústico Luedji Luna), Bia Ferreira (Améfrica),, Moses Yoofee Trio (CHASING LIGHT), Brian Jackson (Now More Than Ever), 9th Wonder, JADA & S14H (The Zenith), Trio Grande (What’s Left), Scrim (runaway), Pouya (Foreverglades), Young M.A. (Kween), Young Chris & MadeinTYO (Made In Philly), ear (Rumspringa), Phoenix James (Teeth), New Jazz Underground (Hoodies), Boards of Canada (Inferno), Latto (Big Mama), Skye Newman (SE9), Conducta (Soundboy Johnny), obli (Soft Speak), RaiNao (Marcriá), Lagartijeando (Wirikuta), Danalogue (Teleportations) e Kikù Hibino & Merzbow (Rococo ∞ Echomatter).
[Richie Campbell] Elephant In The Room
Com uma formação musical profundamente enraizada na cultura reggae, especialmente ancorada no sub-género do dancehall, Richie Campbell tem-se estabelecido como um dos mais importantes nomes da cena R&B portuguesa das últimas décadas. Ao longo dos anos, o seu estilo — um registo único dentro do contexto da música portuguesa — foi levantando a questão sobre se era ou não legítima a sua forma de cantar com recurso ao patois jamaicano, e agora é o próprio a endereçar esse tema no seu mais recente álbum Elephant In The Room. A campanha de promoção incluiu a exibição de um documentário onde podemos ver os laços fortes que Richie Campbell nutre com as diferentes culturas que informaram a sua música e deitam por terra qualquer tipo de ideia associada a “apropriação cultural” que lhe possam colocar. E se a longa-metragem é brilhante, a música não lhe fica atrás, mantendo o selo de qualidade que o artista de Oeiras sempre nos habituou. São 14 malhas de R&B contemporâneo com enorme veia autoral, entre as quais se destacam êxitos recentes como “Before I Lose My Voice” ou “Obeah Me”, temas que têm ajudado a catapultar o nome de Richie Campbell para mercados internacionais.
[Freddie Gibbs] RBT
Qualquer vaga de calor se dissipa quando o “coelho” agarra no mic e faz pairar no ar os ares gélidos das suas rimas pontiagudas. RBT consiste em três faixas assinada por Freddie Gibbs e refletem o estado de combatividade e alerta máximo tão característico do rapper de Gary, Indiana, um dos mais audazes na arte de esgrimir versos com a caneta. Sem quaisquer convidados, a ficha técnica compreende apenas os produtores dos temas,Bizness Boi, Boi-1da, Norva “VA” Denton e Thurston McCrea.
[Óssio & Catalão] Ilusão Crónica
Há estatutos que demoram décadas a alcançar, outros chegam de forma quase imediata. Mesmo sem grande pegada musical deixada até à data, Óssio agigantou-se para tapar e criar sombra aos demais com esta sua Ilusão Crónica, a primeira jornada no formato de álbum. Com 13 faixas dignas de se ouvir de janela aberta e volume máximo no carro, Catalão é o beatmaker que acompanha o emergente rapper ao longo de todo o projeto, também ele a desempenhar a sua função com a mestria, como se já martelasse na MPC desde o berço da cultura hip hop. Colegas mais experientes como TILT, Chek1, Amon, Vácuo ou DJ Cruzfader colocam o seu selo de aprovação em Ilusão Crónica, um dos LPs que certamente mais cicatrizes vão deixar nos ouvidos ao longo de 2026.
[Tito, Trista & Di Cicilia] Café
Curto, longo, abatanado, pingado, com gelo ou natas. Quase não existem limites para as diferentes formas que existem de se consumir café. Da mesma forma, Tito e Trista unem esforços com o produtor Di Cicilia para mostrar as várias abordagens possíveis que lhes permitem os seus estilos de rap, tal e qual o Café. São-nos assim servidas cinco malhas de diferentes sabores — do trap melódico ao sexy drill — que comprovam a versatilidade destes três intervenientes, todos eles nomes em ascensão no atual panorama do hip hop português contemporâneo.
[Rita Vian] Liga Dura
Mais do que transcrever vivências pessoais para canções, Rita Vian atira-se a um novo disco como quem acumula aprendizagens após uma fase marcada por atritos e superação. Entre ruturas e recomeços constantes, a cantautora volta a explorar em álbum as dores do peito que lhe ameaçam a estabilidade sobre a habitual manta de retalhos sónica que cruza eletrónica vanguardista com tradições da canção portuguesa. Desta vez, quem a ladeia na edificação dos temas são os GOIAS, dupla de irmãos produtores que tem estado a dar cartas na nova música urbana nacional. Em palco, Liga Dura escuta-se já em Junho no Primavera Sound Porto’26, sendo que a apresentação ao vivo em Lisboa está marcada apenas para Novembro, dia 19 no Capitólio.