Semibreve’19 – Dia 2: memórias, histórias, encontros e desencontros no meio do vórtex

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Adriano Ferreira Borges/Semibreve

Há um lado interessante, embora, em parte pelo menos, invisível para a maioria das pessoas, num evento como o Semibreve e que passa pelo cruzamento dos artistas fora do palco. Nas refeições a cargo da organização, nos momentos que antecedem concertos ou nas conversas com artistas há sempre curiosos cruzamentos que no papel poderiam parecer impossíveis mas que podem até funcionar como estímulos para futuras colaborações. Ontem, antes da apresentação de Oren Ambarchi e Robert Aiki Aubrey Lowe no Theatro Circo, a uma mesma mesa de café sentavam-se Scanner, Adolfo Luxúria Canibal, Suzanne Ciani e Steve Goodman, aka Kode9. E o homem forte da Hyperdub não escondeu o carácter especial de tal ocasião: “estou um pouco deslumbrado por estar ao seu lado”, confessou ele à Diva dos Diodos. Estávamos todos, na verdade.

Numa entrevista conduzida durante a manhã, Suzanne Ciani falou longamente sobre a sua aproximação a este universo da música electrónica tão bem explorado num festival como o Semibreve. “Demorei dois anos a aceitar que o Andy Votel falava a sério quando me propôs relançar material dos meus arquivos. Nessa época eu já estava plenamente concentrada na minha carreira como pianista e compositora, tocava com orquestras, fazia música romântica, não imaginava que alguém se pudesse interessar pelas experiências que fiz com o (sintetizador) Buchla nos anos 70”, admitiu Ciani, referindo-se ao facto da sua “carreira electrónica” ter renascido por via do interesse gerado em torno das suas edições na Finders Keepers Records.

Na verdade o interesse é amplo e genuíno tal como bem demonstrado na vasta e atenta plateia que assistiu à conversa que com ela mantive nos belíssimos jardins do Museu Nogueira da Silva. Ao longo de uma hora, a autora de Voices of Packaged Souls puxou da sua fantástica memória para nos contar a sua história, recordou os tempos em que foi “homeless” em Nova Iorque, dormindo no chão do estúdio de Philip Glass e conhecendo, aí mesmo, gente como Ornette Coleman ou “um tipo com o assustador nome de Blood” que se percebeu depois ser o guitarrista James Blood Ulmer. Ciani abordou a sua relação com o Buchla, explicou como entende o lado performativo desse instrumento, como lutou por o tornar numa expressiva ferramenta de palco e não apenas num recurso de estúdio e, claro, respondeu generosamente às perguntas do público. Extraordinário momento em que desapareceram por completo as naturais barreiras que costumam existir entre quem assinou discos que fizeram história e os comuns mortais que os admiram.



O celebrado regresso dos noruegueses Deaf Center teve expressão total na sua apresentação no extraordinário espaço da Capela Imaculada do Seminário Menor. Erik Skodvin e Otto Totland recorreram ao piano e guitarra eléctrica altamente processada e tocada com arco para, fazendo subtil uso de um sistema quadrifónico, preencherem o espaço de reverberantes texturas harmónicas que nos transportaram a todos para um outro lugar. Muita gente concentrou-se no som fechando os olhos. E de facto, a música de Low Distance convida a essa contemplação interior, tão envolventes que são as suas derivas ambientais. De curta duração, ou pelo menos assim pareceu (espaço e tempo saem sempre deslocados destas apresentações), o concerto fez-se de sons de enorme beleza que proporcionaram o melhor fim de dia possível.

O primeiro concerto do Theatro Circo ficou a cargo da dupla Oren Ambarchi & Robert Aiki Aubrey Lowe que assim ali carimbaram uma estreia mundial. Dispensando projecções, com a parafernália dividida por dois estrados voltados um para o outro, esta performance expôs de forma clara o seu carácter profundamente dialéctico. Duas importantes figuras das esferas experimentais da electrónica contemporânea em inédita conversa musical em busca de algo de novo. O resultado foi estranhamente tranquilo, um diálogo de subtis pulsares que nos enredou numa nuvem de texturas analógicas esculpidas em sistemas modulares e que, no caso de Aubrey Lowe, resultaram de uma exótica e algo intrigante gestualidade que, percebemos depois, tinha que ver com o uso de microfones de contacto montados nas suas mãos. Quando subiram ao camarote onde staff e convidados do festival assistem aos concertos, Oren e Robert mostraram-se bastante satisfeitos com o encontro, mas confessaram que não gravaram o espectáculo. Esperamos, ainda assim, que deste encontro possa resultar alguma futura edição: as pistas ontem abertas merecem mais exploração, sem dúvida.

Seguiu-se o veterano Drew McDowall, homem que teve ligação aos Coil, para quem criou o hoje referencial Time Machines, ponto de partida para uma viagem algo alucinante a um cosmos interior e imaginado, perdido entre drones espessos, harmonicamente densos, como um lago feito de lamas movediças em que pudéssemos estar imersos. A corresponder à cascata sonora que se soltava da maquinaria de Drew McDowall estavam as imagens conjuradas por Florence To, hipnóticos pontos e linhas brancas num ecrã escuro que literalmente nos sugavam para dentro de um vortex. A força visceral desta actuação foi aliás tamanha que ditou, para quem assina estas linhas, o fim da noite, com a cabeça a ressoar ainda com aquele oceano de fundo som um par de horas mais tarde. Já não conferimos, por isso mesmo, as apresentações de Clothilde no Pequeno Auditório do Theatro Circo ou de Rian Trenor e Kode9 no gnration.

O Semibreve chega hoje ao fim com a tripla proposta de Felicia Atkinson (Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho, 15h00), Scanner com Miguel C. Tavares (Theatro Circo, 17h00) e Suzanne Ciani (Theatro Circo, 18h10).


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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