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Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 29/05/2026

Braga abre as portas a um dos heróis nacionais da electrónica experimental.

Semibreve fecha cartaz com regresso de Nuno Canavarro

Texto: ReB Team
Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 29/05/2026

O regresso de Nuno Canavarro é o principal destaque da última vaga de confirmações anunciada pelo festival bracarense Semibreve para a sua edição de 2026. Autor de Plux Quba, álbum que ocupa um lugar singular na história da electrónica portuguesa (e até global), o músico integra o alinhamento final do festival ao lado de Marta Salogni, Ricardo Jacinto, System Sophie, Peder Mannerfelt, RONI, Flora Yin-Wong, Suzan Peeters e Dawn Dani.

Canavarro apresentará Radiant Rift, uma nova criação desenvolvida com o compositor e produtor Bruno Miguel Pinto. A obra, que cruza electrónica, piano, voz e elementos visuais concebidos pelo próprio músico, terá estreia mundial em Braga, naquela que será uma rara oportunidade para assistir ao trabalho ao vivo de uma das figuras mais influentes e menos expostas da música experimental portuguesa.

Poucos discos portugueses tiveram uma trajectória semelhante à de Plux Quba. Editado em 1988 pela Ama Romanta, o álbum passou praticamente despercebido no momento da sua publicação, mas acabaria por construir uma reputação internacional improvável. Ao longo dos anos foi sendo descoberto por músicos, coleccionadores e críticos, ganhando um estatuto de culto que cresceu muito para lá da visibilidade do seu autor. Quando a editora norte-americana Drag City o reeditou, em 2015, Plux Quba já era visto por muitos como uma obra fundamental da electrónica experimental. Num texto publicado no Rimas e Batidas, o já desaparecido crítico Fernando Magalhães descreveu-o como um “álbum com escola”, expressão que ajuda a perceber a dimensão da sua influência. Plux Quba tornou-se uma referência para sucessivas gerações de músicos interessados em explorar novas relações entre melodia, textura, silêncio e espaço sonoro.

A própria carreira de Canavarro ajuda a explicar o lugar particular que ocupa na música portuguesa. Com formação no Instituto de Sonologia de Utrecht e passagens por projectos tão distintos como os Street Kids, os Delfins ou a colaboração com Carlos Maria Trindade em Mr. Wollogallu, desenvolveu uma linguagem difícil de encaixar nas categorias habituais da pop, da electrónica ou da composição contemporânea. Como recordava o próprio Trindade numa conversa com o Rimas e Batidas, a originalidade dessas obras continua hoje a desafiar tentativas de catalogação.



Mas o fecho do programa de performances do Semibreve está longe de se resumir ao regresso de Canavarro. A última ronda de confirmações reforça um cartaz que volta a reunir algumas das propostas mais relevantes e desafiantes da música electrónica e experimental contemporânea. Entre elas está Marta Salogni, produtora e engenheira de som que trabalhou com artistas como Björk, Depeche Mode, M.I.A. ou Gorillaz. Em Braga apresentará a,drift, uma nova obra construída a partir de gravadores de fita magnética e osciladores, desenvolvida em parceria com os festivais Berlin Atonal e Unsound.

Também em estreia mundial será apresentado Manto, de Ricardo Jacinto, peça para violoncelo preparado, electrónica e difusão multicanal que explora o som enquanto fenómeno físico e espacial. A produtora portuguesa System Sophie mostrará Carbolines, novo trabalho que cruza texturas digitais, ritmos irregulares e electrónica imersiva, enquanto a acordeonista belga Suzan Peeters levará ao festival Cassotto, uma exploração das possibilidades sonoras do acordeão através de técnicas estendidas e experimentação tímbrica.

A programação abre igualmente espaço à cultura particular da música pensada para a pista e para o clube. O sueco Peder Mannerfelt junta-se à franco-malaia RONI para um raro encontro entre duas figuras centrais da electrónica contemporânea, enquanto Flora Yin-Wong apresentará o universo sonoro construído a partir de gravações de campo, manipulação electrónica e referências à memória e à diáspora. A bracarense Dawn Dani completa esta derradeira vaga de confirmações.

Os novos anúncios juntam-se a nomes já revelados como Christian Fennesz e Oscar Jockel, Sam Slater, TYGAPAW, Noémi Büchi, Azu Tiwaline, Qasim Naqvi e Steven Wendt, PYUR e Tarik Barri, Malcolm Pardon e Gustaf Broms, ou João Carlos Pinto, consolidando um cartaz que volta a colocar Braga no centro do mapa europeu da música experimental e da arte digital.

Ao longo de quinze anos, o Semibreve construiu uma identidade própria, apostando em encomendas, estreias e cruzamentos entre som, imagem e tecnologia. A edição de 2026 não foge a essa linha. Mas entre todas as confirmações agora anunciadas, poucas terão o peso simbólico do regresso de Nuno Canavarro, um músico cuja obra continua a ser descoberta, discutida e reivindicada quase quatro décadas depois da edição de Plux Quba. No regresso pode ler-se igualmente uma possibilidade de uma nova edição que possa finalmente suceder ao histórico álbum prestes a completar quatro décadas de existência.


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