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Fotografia: Ben Do Rosário
Publicado a: 09/11/2020

Construir pontes entre o passado e o presente.

Rodrigo Cuevas no Museu do Oriente: voltar às raízes para pintar o horizonte

Fotografia: Ben Do Rosário
Publicado a: 09/11/2020

À noite no museu, a tradição e o folclore asturiano e galego ganharam contornos tragicómicos na boca de Rodrigo Cuevas, o agitador folclórico que tomou de assalto o panorama espanhol e que, por consequência, acabou por fazer o mesmo na primeira vez a actuar em solo português.

Nos primeiros segundos do espectáculo, mal se deu por iniciada sessão, foi perceptível o tom daquilo a que iríamos assistir: junto ao público, nas escadas que davam acesso para os lugares na plateia, Cuevas passou de protagonista musical da noite a assistente de sala, orientando, de forma bem-humorada, os que chegavam atrasados. “Não deixem entrar mais”, atirou, provocando a primeira de muitas gargalhadas que surgiriam ao longo do concerto que se incluía na edição deste ano do Misty Fest e da tour Trópico de Covadonga, “um lugar real mas que não é tangível, é emocional”.

A música do autor de Manual de Cortejo não é pura celebração efusiva e alegre (muito pelo contrário, como quando falou da decadência humana e de não acreditar na humanidade), mas a sua personalidade, pelo menos da forma como se que mostrou em palco, é expansiva e cómica: canta de peito cheio, dança como se ninguém estivesse a ver e, entre canções, dá-nos longas explicações sobre o propósito/a inspiração/as histórias de cada canção, tudo isto com comédia na ponta da língua.

Ladeado por Juanjo Díaz e Mapi Quintana, instrumentistas que se desdobraram entre timbalão, pads, sintetizador, adufes, pandeiretas e contrabaixo, o artista apresentou temas como a electronicamente-tensa “Ronda de Robledo de Sanabria”, a agitada (mas delicadamente equilibrada entre graves e elementos folclóricos) “Xiringüelu” ou a emocionalmente carregada “Rambalín“, um ícone local de Cimadevilla, em Gijón. Um “maricón de nacimiento” e um corajoso transformista que nunca teve medo de se assumir numa altura em que as dificuldades eram ainda bem maiores; uma inspiração para o próprio artista, que aproveitou a deixa para falar sobre a sua própria história de descoberta de orientação sexual.

Na entrevista com o Rimas e Batidas, Cuevas fala de nomes como Tiago Pereira (A Música Portuguesa a Gostar Dela Própria e Sampladélicos) e Fado Bicha enquanto referências de bons cruzamentos da “tradicionalidade com várias vertentes de expressões artísticas contemporâneas”, mas não é difícil vê-lo mais alinhado com outros como Pedro Mafama ou Conan Osiris. Ou, falando dum nome fulcral para se perceber o seu som, Raül Refree, produtor no disco, pode-se pensar em Lina, a fadista portuguesa, e, claro, Rosalía. A Península Ibérica parece estar a reencontrar-se com alguns dos seus sons mais tradicionais e Refree é um dos principais arquitectos da modernização desse encontro.

O que se viveu na passada quinta-feira no Museu do Oriente, em Lisboa, foi uma comemoração da liberdade (de todos os jeitos e feitios), mesmo que não se tenham içado bandeiras; e sem esquecer todas as condicionantes da situação actual. Com direito a longo aplauso da plateia que nem permitiu que o artista dissesse umas últimas palavras antes de sair.

Máscaras na cara, corações ao alto, tradição na base, modernidade nos contornos: Rodrigo Cuevas tem uma fórmula vencedora nas mãos e é possível que a aldeia seja demasiado pequena para que ela seja apresentada no seu esplendor total.

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