Reservada e contida nas palavras, diz que se pudesse “cantava só às escondidas”. Não dava entrevistas, nem tirava fotografias. Mas por detrás desta rapariga de poucas palavras há uma artista que canta com o coração todo na boca quando tem o microfone à frente. A inteireza com que canta — e a sua voz doce, portadora de um alcance vocal raro — faz parecer que a timidez desaparece assim que começa a música. Assim é Rislene, a artista da Sony Music que hoje assina o seu primeiro álbum, POI BEAT.
Nascida em França, com raízes em Assomada, na Ilha de Santiago em Cabo Verde, é no crioulo — a sua língua-mãe — que cose as linhas das palavras que despeja na música. Ainda que o rap tenha sido o primeiro lugar onde encontrou forma de se expressar, a sonoridade que hoje apresenta nasceu de um processo de descoberta. Vinha inicialmente de uma estética mais ligada ao boom bap, mas foi aos poucos expandindo a sua linguagem para outros territórios urbanos, aproximando-se do drill, trap e dancehall, enquanto descobria também uma voz cantada que até ela própria parecia ainda não reconhecer totalmente.
Em POI BEAT, convivem guitarras que lembram a morna, ferrinho, batuque e referências tradicionais misturadas com beats urbanos e a bagagem sonora de quem cresceu entre Paris e Cabo Verde. Neste primeiro disco, Rislene surge acompanhada pela dupla Ariel e Migz, Charlie Beats e ainda uma faixa produzida por DJ Dadda. O álbum inclui também participações de Richie Campbell e Apollo G. Inicialmente, a ideia passava por fazer um primeiro projeto totalmente a solo, apesar dos vários convites que foi recebendo. Mas o tema com Richie Campbell acabou por surgir de forma espontânea em estúdio, com um improviso de melodias que acabou na música “Ko Kai”.
Tendo quebrado a regra de ter um featuring, surgiu a vontade de incluir no álbum uma segunda participação ligada à herança cabo-verdiana. Chegou a lançar uma espécie uma pergunta nas redes sociais sobre possíveis nomes, com Apollo G entre os mais votados.
Ainda com um percurso recente na música, Rislene é já um dos casos mais sólidos da nova geração lusófona. A rapidez com que começou a atrair atenções é prova disso. O ano passado ganhou o prémio de “Artista Revelação” nos Cabo Verde Music Awards, e este ano está novamente nomeada nas categorias de “Intérprete Feminina do Ano” e “Hip Hop do Ano”, com o tema “Disisti”.
Aproveitando a sua vinda a Lisboa para a promoção do disco, o Rimas e Batidas sentou-se à conversa com a artista no estúdio Salva, em Lisboa.
Quem é a Rislene?
Tenho 25 anos, nasci na França, sou mãe de três filhos. Venho da Assomada, em Cabo Verde. Sou uma menina muito tímida, mas com muita coisa para mostrar para as pessoas, com muito sonho na cabeça.
Fazes rap, contudo, cantas muito bem também. Como é que entendes aquilo que fazes?
Eu comecei com o rap, mas comecei a cantar depois. No início ouvia muito boom bap, e depois fui testando outros limites com a minha voz. Tentei outro estilo, e comecei a cantar mais, e hoje canto mais do que faço rap.
A música sempre esteve presente para ti. Como foi perceber que querias mesmo fazer música?
Foi há três, quatro anos. Quando as pessoas começaram a dar-me moral — “Tens uma voz de ouro”. Sempre acreditei na minha voz, mas quando me começaram a incentivar, comecei a trabalhar mais.
Deu-te prazer? Medo? Esta sensação de continuar a progredir?
No começo só cantava como passatempo, mas depois, ao longo do tempo começou a ser um vício. Escrevia frases antes de dormir e sentia-me mais tranquila. Comecei a ganhar prazer e a sentir falta daquilo, e isso tornou as coisas mais fáceis. Um trabalho com amor é diferente.
Uma coisa que está no vídeo de apresentação do álbum no Instagram falava sobre esta coisa de chegares cá e não dominar tanto o português e inglês, mas sentires-te mais confortável com o francês e o crioulo, que é o fio condutor do álbum. Como foi este processo de intimidade e despejar ali na música com esta língua?
Primeiramente havia um stress, e comecei a escrever aquilo que me deixava enervada. Comecei a fazer a diferença de quando cantava só por cantar. Comecei a escrever sobre a minha dor. Se estava chateada, escrevia. Sentia-me mais à vontade a cantar em crioulo. Também podia cantar em francês, mas não ia cantar da mesma forma do que no crioulo.
É a tua língua mais natural…
Ya.
E como é que também foi todo o processo ao longo deste tempo de aproximação de artistas cá em Portugal? Na outra entrevista que deste ao Rimas e Batidas, referiste que a Ana Moura e o Diogo “Gazella” Carvalho foram duas pessoas responsáveis por dar a conhecer o teu trabalho. Como foi ao longo do tempo ires conhecendo outros artistas? Como é que te sentiste ao ver pessoas reconhecerem aquilo que estavas a fazer?
Aprendi a acreditar mais em mim, com mais olhos postos em mim. É uma nova forma de viver. Eu não sabia quem era a Ana Moura. Depois é que percebi que ela ouviu a minha voz no estúdio do Diogo. Ela seguiu-me e duas semanas depois recebi uma mensagem do presidente da Sony. Então fiz logo a ligação. Foi esta mulher com imensos seguidores lá de Portugal [risos] Depois confirmei que era ela. Posso falar que a Ana Moura mudou a minha vida. Graças a ela e ao Diogo que estou aqui.
Duas semanas é super rápido.
Sim. E ainda bem que eu não sabia quem era a Ana Moura. Quem era a Sony. Porque se soubesse acho que me descontrolava. Até achava que a Sony era a marca da tua televisão. E depois comecei a ver na Internet. Percebi que tinha que me concentrar mais na música, que já não era brincadeira. E aí comecei a cantar mais a sério. A focar-me mais na letra. Já fazia muita música, mas depois aprendi ainda mais.
E como foi com as várias pessoas com quem colaboraste para o álbum?
Comecei com o Dadda. Ir ao estúdio foi uma coisa importante no meu projeto. A cada dia aprendia sempre alguma coisa.
Foi divertido?
Sim, e eles viraram irmãos para mim. Ficámos com uma amizade fora do estúdio.
Já tinhas vindo cá a Portugal?
A primeira vez que vim cá a Portugal estive só cá um dia antes de ir para Cabo Verde, mas foi com a Sony que vim mesmo para cá.
Como está a ser conhecer Portugal?
É diferente. Pensei sair de Paris e vir viver para aqui. Portugal é sabi. Há imensos sítios para sentar, escrever e refletir. Tem mar. Paris tem mar? Não. Aqui tem muitos sítios para sentar, ter ideias, concentrar.
Quais são as tuas referências?
Antes de cantar ouvia imenso Adele, fora da música cabo-verdiana. Mas com o tempo comecei a ouvir rap. Quando decidi cantar, fui em busca do meu estilo. Tentei kizomba. Gostei ainda mais de rap. Mas sinto-me mais identificada com Adele, e sentia-me mais identificada com a sua história. Foi a única música em inglês que sabia cantar.
A auto-superação é uma tema muito recorrente no álbum. Foi natural para ti escrever sobre coisas muito íntimas?
Várias músicas que estão lá contam a minha história. Há outras que são sobre irmãs, primas. Mas a maioria das músicas no álbum são minhas.
Foi-te difícil cantar com essa vulnerabilidade?
Não, porque fui eu. Foi mais fácil porque alivia.
Uma das últimas músicas do álbum, o “Stop Violência” aborda a temática do machismo. Como vês hoje em dia esta questão e a forma como opera na sociedade?
Do mesmo jeito. Não mudou. E estou contra.
Sentes que haver mais mulheres, por exemplo, no rap é uma coisa positiva para lutar contar isso? Achas que tem algum impacto?
Acho que tem um impacto. Para que nós, mulheres, possamos abrir a boca. É preciso que os homens sejam educados.
Ainda tentaste kizomba. Mesmo tendo o rap e o cantar, como foi o processo de entender aquilo que querias a nível sonoro?
Eu gosto de kizomba, mas não em mim. Rap é mais simples de justamente passar a mensagem, aliviar a dor. Identifico-me e sinto-me mais à vontade. Porque até hoje eu escrevo com beat de rap. E depois quando chego lá, faz-se o beat, e depois continuo. Até lá canto a capella, e depois constrói-se o beat.
E o título vem também por causa disso.
Sim.
E foi fácil chegar ao título?
Até ao fim estávamos a procurar um nome para o álbum. Mas não gostei de nada do que procurámos. Mas POI BEAT foi algo que começámos a falar no início quando eu não sabia falar português, e eles tentavam falar crioulo comigo. Eles começaram a falar “poi beat”, e ficou o nome de grupo de WhatsApp. E um dia, na brincadeira, sugeri que o nome fosse POI BEAT. Os produtores não ligaram. Mas depois reunimos e ficou fixe. É simples.
Estando um bocado entre lugares, mas depois fazendo a música cá. Onde é que sentes que pertence a tua música? De todo o mundo? Entre França, Portugal, Cabo Verde?
Não sei. Não posso falar que sou daqui ou dacolá. Eu sou do mundo.
E já venceste um prémio nos Cabo Verde Music Awards.
[Foi um] stress, mas foi bom. Passei a acreditar ainda mais em mim, e a perceber que sou alguém. Ganhei e foi votado para mim.
E como foi essa sensação de ter esse reconhecimento em Cabo Verde em específico?
Senti um compromisso com o mundo. E agora estou nomeada em mais duas categorias.