Qual é o lugar da memória, e para que nos serve? Em tempos de mudanças de paradigma energético ou na barafunda disso mesmo, há novas estratégias em curso. Abandonam-se mega-estruturas, como as centrais energéticas alimentadas a carvão, desmantelam-se refinarias de petróleo — é a nova era, da descarbonização planetária. Parece que se caminha a todo gás (ou a vapôr, que seja) para um verdadeiro estado de Lítio (de sítio). A busca incessante pela energia limpa. Conscientemente, o que não polui a jusante paga factura a montante. Haverá mesmo forma de sustentar uma demanda energética sem precedentes? Há que tentar — dirão umas vozes. Outras, que parecem não decidir o rumo dos dias, preferem um decréscimo sustentável para tudo isto.
Após o anúncio da desactivação da refinaria de combustíveis de Leça da Palmeira (Matosinhos), em finais de 2020, o fecho da laboração viria a ocorrer em Abril de 2021. Terminava assim um longo período de mais de 50 anos de atividade. O complexo industrial encontra-se hoje em fase de desmantelamento. O que restará desse campo dunar transformado em industria e que muito modificou social e ambientalmente o território em redor? Junto ao mar foram outros os ruídos de fundo, junto à costa eram outras as luzes de aviso, na linha de horizonte as chaminés e as colunas petroquímicas rasgaram os céus. Há uma memória de tudo isso: numa população, num concelho, em todos nós que arcamos com essa herança.
Que uso fazer dessa mesma memória? A memória cuida-se ou então desvanece invariavelmente. Importa documentar para memória futura. Os artistas sonoros António Rafael, Luís Fernandes e Miguel Pedro, juntamente com o artista visual Miguel C. Tavares, inquiriram-se como colectivo sobre o “como e agora”. Miguel Pedro na sequência de visitas feitas à refinaria, no contexto do trabalho desenvolvido na Câmara de Matosinhos, teve a centelha prévia do memorizar o som do complexo. A ideia colheu entusiasmo na Galp, e os funcionários da estrutura tornaram-se fundamentais para o processo de recolha sonora e visual. Durante três dias, o colectivo ocupou o lugar antes do início do desmantelamento do complexo. Numa pós-paisagem sonora laboral, interessou-lhes esse legado, lidar com a memória acústico-visual do espaço e do o som e imagem remanescentes. Visualmente já não havia fumo, nem chamas. Sonoramente implantava-se agora como que um silêncio meio que ensurdecedor — havia urgência em perpetuar antes da irremediável perda. Um dos muitos tanques do complexo serviu-lhes de caixa acústica. Activaram nele estímulos sonoros, escutaram as respostas. Recolheram o reverberar do vazio, outrora cheio de materiais carburantes. Sintetizadores, microfones de escuta e captação como outras (novas) ferramentas de trabalho na refinaria. Dentro e fora dos tanques, a recolha das imagens centrou-se na escala e linha de funcionamento, mas com um olhar na arquitectura e paisagem.
A transmutação, como obra, viria em seguida. Seria de todo interessante ir ao lugar das recolhas, ver a obra no lugar de origem, mas o desmantelamento está já em curso… A instalação “RICOCHETE” teve lugar na cidade de Matosinhos (terminou ontem, 3 de Maio), ocupando também os despojos de uma unidade industrial de conservas — Antiga Fábrica Vasco da Gama, espaço reconvertido à cultura na cidade. Na ampla nave central do complexo, uma recriação remete para um desses tanques do complexo da refinaria da Petrogal de Leça da Palmeira. Como se estivéssemos dentro do TK6013, ou TK6003, ou só eles sabem se foi no TK6015 que lhe serviu de palco-bancada de trabalho. Antes mesmo, como um oráculo, um plasma permite visualizar o processo de aquisição sonora — artistas de fato-de-macaco e capacetes, trabalhadores sonoros, operadores de microfones, entre feixes de luz zenitais. Círculo de ferro oxidado e desnudado do seus ocupantes em estado líquido.
“RICOCHETE”, que agora finda, tem como peça central uma obra de seis canais áudio, 3 canais vídeo em telas 16:9, a duração varia em torno de 20—25 minutos, pois todo o dispositivo vai variando de acordo com a projecção programada em “loops assíncronos”, como é anunciado à entrada. Em tapumes, contra a parede no exterior envolvente, uma dúzia de fotografias em caixa de luz — como galeria de “radiografias”, coloridas e positivas — a visão do artista Miguel C. Tavares do espaço exterior. Dentro, um campo dunar industrial — visto do mar. Mais um petroleiro (será o último) na orla — vista da costa. Um bombordo e um estibordo, que em frente mostra o complexo como miragem — chaminés como torres de vigia ao passado. A refinaria que já nada mais refinará — memória refinada do tempo a passar. Fazer da matéria das entranhas da Terra, por processos em alquimia, líquidos que deixamos depender os nossos dias. A imagem evoca o processo, nas texturas proto-moleculares, o som parte de um tom em Lá, tal como afinam as orquestras antes da nova sinfonia. Escuta-se o som a saturar o meio, suportando tilintares longínquos — analepse pelo som. Memória de outros espaços, quando tudo maquinava, quando nas canalizações corria matéria — agora é o vazio. Há um espaço em transformação a operar nestes tanques que armazenam o antes e depois — agora como outrora o fizeram. E as imagens percorrem os circuitos, redes complexas sem fim.
Não abandonamos o presente lá de fora, esse que nos aponta a outros lugares análogos — um Estreito de Ormuz em perspectiva, enquanto em imagens se estreita a visão para este ricochete sonoro. O que provocámos haveremos de receber mais adiante, numa reacção em cadeia, um ressalto pelo desvio da trajectória. É este o diálogo poético nesta instalação — atentado a um processo de arrumar a memória num diálogo dinâmico com o presente. Do estimulo sonoro activado por Rafael, Fernandes e Pedro no tanque, obtiveram-se respostas não controladas. Da passagem em “loops assíncronos” servem-se experiências imersivas no novo tanque, desiguais às prévias. A passagem do tempo e a permeabilidade da memória, tornando-a não estanque — os tanques já não são herméticos, estão abertos ao presente, esperando o futuro. As imagens mostram essa nova realidade — colonizados pela matéria viva do presente.