#ReBPlaylist: Março 2020

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Pandemia, quarentena, vírus e COVID-19. Agora que utilizámos a quota diária de utilização destas palavras, vamos a algo que não é tão importante, mas que importa: a música. Encontrem, por aqui, nove faixas que não vão resolver os vossos problemas, mas que poderão ser escapes rápidos para uma realidade que já foi mais agradável.


[Seven Orbits] “Mantis (Zaliva-D Remix)”

Depois de ter mostrado ao mundo talentos indescritíveis como as produtoras Hyph11E e 33EMYBW, de terem estendido o raio de acção editorial até ao Uganda por via de Slikback (também selado pelas não menos excelentes Hakuna Kulala e Nyege Nyege Tapes) e à Indonésia com os Gabber Modus Operandi, e terem compilado em Cache 01 artistas como Tzusing, Hodge e Mun Sing, a editora Svbkvlt mantém o portento com o EP0001 de Seven Orbits. O que quer que a label de Shanghai esteja a fazer, faz bem; este novo lançamento fortalece, assim, uma regra ainda sem excepção, e alimenta ainda mais a ideia de que o novo vem de longitudes inesperadas.

O remix da dupla chinesa Zaliva-D de “Mantis”, uma das cinco produções originais de Seven Orbits neste lançamento, acrescenta catarse rítmica e um ritualismo extra na modulação de vozes, algo que parece comum aos produtores locais e visados pela Svbkvlt. Nada que desfaça os subgraves, samples de voz e cadências de geografias extremo-orientais que o produtor italiano já havia montado na sua interpretação, mas quem é que fica a perder com mais uma perspectiva?

Verdade seja dita, o desafio é apontar uma única música de um bravo conjunto de oito. Mais vale mergulhar no EP todo (e porque não no catálogo todo da editora?).

– André Forte


[Mick Jenkins] “Snakes” feat. Kojey Radical

Depois de lançar o EP The Circus, no início deste ano, foi em Março que nos chegou o primeiro single de Mick Jenkins no pós-disco. E no seguimento do que se falou em The Circus, “Snakes” serpenteia pelo tema que marca o mais recente projecto do rapper de Chicago: os vícios da indústria. Nesta parte do circo tem lugar o espectáculo das cobras, onde Jenkins tenta não ser mordido.

Neste sentido, “Snakes” podia perfeitamente ser a oitava faixa do EP, na medida em que segue a linha traçada naquele, seja na abordagem ou na sonoridade. Mick Jenkins é um artista de mão-cheia, e tem vindo a refinar-se progressivamente, no caminho para ser um dos melhores a fazer o que faz, apontando para o topo das suas capacidades. Na arte de fazer rap, com todas as variantes que isso implica, o membro da Free Nation distancia-se cada vez mais dos seus pares, destacando-se num lote restrito e à parte, como o próprio ressalva: “I’m lookin’ for Kendrick”.

Ainda assim, é de salientar a participação de Kojey Radical, que entra para dar outro sabor à faixa. Enquanto Mick assume a habitual faceta erudita, através da sua lírica construída à base de rimas cerebrais, Kojey traz as luzes de Londres que iluminam a crueza das suas origens e do seu registo. O encontro de estilos alia um rap rude e acutilante a uma sonoridade requintada e hipnotizante. Junta versos e punchlines, num cruzamento entre a poesia e o rap das ruas. É um banger sem essa pretensão e revela, acima de tudo, o talento que estes dois nomes têm para encantar serpentes. “Maybe it’s sorcery”. Talvez…

– Paulo Pena


[Childish Gambino] “0.00”

Na construção de um álbum enquanto uma peça única, são várias as preocupações que se têm de ter para a sua coesão. A ordem das músicas, a contextualização através de interlúdios ou skits, a música final e a música inicial. Vemos artistas como Frank Ocean, Da Weasel e Kanye West terem especial atenção a estes “pequenos” pormenores que mudam por completo o impacto que a sua obra tem. São muitas as vezes que esses detalhes são esquecidos quando se fala ou escreve sobre álbuns, mas no fundo também não foram feitos para serem o foco do disco, acabam por não ser mais que a criação de um mood específico para mudarem a forma como perspectivamos a(s) música(s) que se segue(m) a seguir. Optei por isso mesmo dedicar este texto a uma intro, “0.00” do disco 3.15.20, de Childish Gambino. O artista desaparecera dos grandes focos desde “This Is America”, e o seu último lançamento de longa-duração data já de 2016. Foi, portanto, um choque para todos os fãs quando voltou a dar sinais de vida com um álbum de 12 músicas sem qualquer aviso prévio.

É possível então perceber a importância que a primeira música terá no resto do álbum, e “0.00” faz o ideal pela mais recente peça de Donald Glover: deixa tudo em aberto. Não há frases ou mensagens, mas sim um pequeno loop de voz no qual diz apenas “We are” e que é repetido ao longo dos três minutos, e deixa um rasto de delay, acompanhado por um um drone grave e pequenos pianos que se ouvem ocasionalmente no fundo. O resultado é uma suave introdução, que mais parece uma pequena experiência sonora, que nos faz navegar pelo mundo baço que o sintetizador grave cria, e vê-lo transformar-se em várias partículas espacializadas pelos três vectores geométricos cada vez que a voz aparece.

Este minimalismo, esta abordagem de composição que não vai de encontro ao que Gambino nos habituou, abre as portas e a mente para esperarmos algo de completamente diferente deste álbum em comparação com Awaken, My Love! ou Because The Internet. Donal Glover é um artista que está em constante metamorfose, que muda a sua sonoridade a cada lançamento, e é isso mesmo que esta intro comprova: com Gambino, nunca estamos seguros e nunca o podemos ter como garantido.

– Francisco Couto


[VULTO.] “MALEITA BARULHENTA 2017”

Em 2017, VULTO. já tinha dado provas em quase todas as vertentes “exigidas” a um produtor. Reinventou o boom bap com um toque só dele, descobriu MCs peculiares que viriam a ocupar uma vaga só para si, completamente distantes de tudo o que nos era dado a ouvir, como L-ALI, Secta ou Jota, criou a sua própria assinatura melódica com sintetizadores digitais em projectos como 17X & 9J ou MARCHA, colaborou com Tilt e NERVE, duas lendas vivas do underground nacional, deu o aval aos colegas Die Von Brau e ELÓI ao abrir-lhes espaço no seu próprio catálogo, fundou o colectivo COLÓNIA CALÚNIA e criou um portefólio vasto em todos os sentidos, como não temos memória de ver em algum outro artista da nossa praça.

O próximo passo seria saltar fora da caixinha do hip hop e mostrar que as suas valências se mantinham fosse qual fosse o registo. Inspirado nos seus heróis da electrónica alternativa, como James Blake ou o mais obscuro Dimlite, VULTO. trocou de pele e partiu à descoberta de novas texturas e daquele tipo de faixas que definem um produtor à séria — longas, repletas de nuances e carregadas em experimentalismo e psicadelismo. “ARRE, TANTOS FUTURISTAS EM 2K18” é um desses exemplos e aterrou no YouTube em 2018, mas havia todo um percurso que já gerara resultados agradáveis e que, por qualquer razão, foram ficando esquecidos no disco rígido do seu computador.

O tempo não passou por este “MALEITA BARULHENTA 2017”, que se mantém fresco como se tivesse sido criado ontem. Assente num break que inicialmente não passava de um esboço para uma remistura de L-ALI, quis o destino que VULTO. expandisse o tema para que este conseguisse viver por si próprio, sem o auxílio da bengala que é ter um MC a rimar por cima. Dedilhou uma guitarra eléctrica desafinada e tornou-a num loop hipnotizante, repleto de momentos de pura corrosividade providenciados por algumas das ferramentas digitais que tem ao seu dispor, fazendo a sua vénia à escola da electrónica que no início do milénio inundou os catálogos de editoras como a Warp ou a Sonar Kollektiv.

– Gonçalo Oliveira


[PEDRO] “Terra Treme” feat. Pedro Mafama

A capacidade que a arte tem de se ajustar à nossa interpretação subjectiva é dos seus aspectos mais fascinantes. Assim que é mostrada ao mundo, qualquer exploração artística é tanto do seu criador como dos que encanta, e quem explora um “conto” ajusta-o ao seu ponto (de vista). Partindo do geral para o particular, “Terra Treme” de PEDRO é o mais recente exemplo dessa adaptação, e provavelmente aquele com mais ginga a abençoar os nossos canais auditivos nos últimos tempos. 

Para Pedro Mafama — que empresta a voz a este tema incluído no mais recente trabalho de PEDRO, Da Linha — a terra treme por causa de uma mulher, qual Afrodite disfarçada de Poseidon (“Tu pões as ondas a tremer no mar”). Há alguma antítese entre o instrumental e as palavras de Mafama (o sôfrego sample transfigurado que nos introduz ao tema e as juras de amor descritas em clamores de auto-tune) mas o drop bem orquestrado traz — além de uma batida convidativa para abanar sem capacete — a certeza amorosa de Mafama a ecoar pelos quatro cantos do mundo, como um mantra de paixão e promessa.

Mas a verdade é que para todos nós a terra parece frágil. Todos nós neste momento sentimos a honestidade das palavras como “’Tou com fantasmas que antes não ‘tavam cá”, porque é assombroso o que nos espera nas ruas desertas. Ansiamos por um tempo em que possamos ouvir este tema em colunas dignas, esmagados por gente, e não em fones minúsculos, atulhados pela nossa solidão. Seja qual for o veículo sonoro, o tema continua a despertar o nosso lado Fred Astaire. A terra treme para todos, seja como o queiramos interpretar. E ainda bem para todos nós que para PEDRO treme desta forma.

– Miguel Santos


[ATA OWWO + GUILLIO] “Rito da Voz-Boa”

Música também é contexto. E o nosso, o dos ouvintes, alterou-se muito nas últimas semanas. Os nossos hábitos de consumo e fruição estão a ser testados, pela imposição de novas rotinas. Nesta altura, enquanto testamos uma série de meios alternativos para performances musicais e respectivos retornos, a experiência social da música e da dança, que lhes são primordiais, está a ser abalada. E quando a saudade começa a apertar, é reconfortante encontrar faixas que induzam o contacto frenético do som e do corpo, não tanto por associação ou por ritmo, mas pela sua essência.

Songs for Green Tea and Peppermint Pope, a estreia da colaboração entre os produtores ATA OWWO e GUILLIO (Névoa, Penumbra e LickSickDick) é um álbum de experimentação, onde as múltiplas influências dos músicos são combinadas compulsivamente em “temas que traduzem as suas preocupações emocionais com o máximo de transparência possível”. Em “Rito da Voz-Boa”, a preocupação é nos mais próxima de momento. A faixa coloca-nos bem no meio de um ritual, que é em igual medida uma pista de dança. Somos guiados por um MC/xamã e acompanhados pelos gritos, percussões e pequenas catarses de quem nos rodeia. O resultado é primitivo mas acutilante, fruto de uma composição cuidada e pensada, que usa uma sonoridade explosiva e instrumentos ancestrais para nos reproduzir o ambiente de transe que repetimos há milhares de anos.

Esta música desperta a vontade que nos levava a dançar no final da semana. Enquanto os clubs não reabrem e vemos essa vontade reflectida em bolas de espelhos, é bom senti-la dentro de nós.

– Gonçalo Tavares


[João Não] “nossa regra (rosa negra)”

Quão importante é fugir à regra enquanto se espera pelo esfrega esfrega? Evitar o cânone nestes dias estranhos que se entranham sem pedir licença e aguardar pelos dias em que tarraxar volte a ser possível é o mais importante. Porque abdicar do que faz de nós quem somos, trocando o que se tinha por um novo normal que não se deseja não é um bom negócio. O João Não chega dos nossos sonhos, oferece uma rosa negra à nossa esperança e confirma que este Portugal, que não sabemos se tem futuro nestes tempos incertos, tem pelo menos um presente em que as palavras são embaladas por novas cadências, com um fado fundo que se cola à alma e um sentir que é tão urgente que é impossível chegar-lhe a horas. E acreditar que vamos dançar esta nossa regra outra vez é vencer tudo o que nos quer derrotar. Sim, João Não.

– Rui Miguel Abreu


[Perfume Genius] “On The Floor”

Poucas vozes têm desabrochado como a de Mike Hadreas, conhecido como Perfume Genius. De início, uma germinação imperceptível a olho nu: em Learning, começou com as mãos no piano, para musicar a solidão; Put Ur Back 2 N It, gravado com banda, conservava o sabor a trauma. 

Mudança de cena com o minimalismo glam de Too Bright —álbum de uma pop barroca, mesmo se ainda assombrada — que antecipou a glória fulminante de No Shape. No carro-chefe do disco, “Slip Away”, resumia-se o som ideal para a rebelião queer: a beldade de um diálogo entre guitarra e marimba, uma paz demolida com o tremor súbito da bateria, e uma independência ganha. Como quem acaba um quadro renascentista para imediatamente o arder numa fogueira.

Hadreas tende a extremar qualquer que seja o seu passo anterior, mas o álbum que se avizinha subverte a lógica. Os singles de Set My Heart on Fire Immediately, previsto sair em maio, auguram uma expansão diferente: a mesma avidez por novos terrenos, um desejo redobrado pela escavação. A lamacenta “Describe”, trova de dream pop com pinceladas de blues, é um salto para o abismo, a abarrotar de melodia e poder visual máximo.

“On the Floor”, sem um verso de Pitbull pelo meio, é das coisas mais suaves que Hadreas alguma vez nos cantou. Lamenta e rasura o amor néscio que o deixa cativo sem razão — uma história ainda mais velha que o rockabilly pervertido por estas guitarras (para lembrar Wham!, diz-se no The Guardian, vejam lá). 

E não é por isso que deixa de celebrar a boa vibração de “o querer nos seus braços”, um sonho que amaina o groove por instantes, como se pausasse para sentir a respiração do amado. Esteja ele ao seu lado, ou não. Finalmente, o sol tem mira apontada em Perfume Genius.

– Pedro João Santos


[Evidence] “Unlearning”

Se acham que sabem tudo, façam um favor a vocês mesmos: esqueçam isso imediatamente. Por outras palavras, desprendam-se dessas manias de supra-sumos do conhecimento — e esta mensagem serve para todos, sem excepções. Não foi isto que Evidence disse, nem é uma paráfrase, mas é essa a energia que se recebe de “Unlearning”: é preciso voltar atrás para se chegar mais à frente; é preciso ser-se humilde para se aceitar que temos de mudar alguns maneirismos para ir até novos lugares.

Em modo fluxo de consciência, o autor de Weather or Not dá-nos (através do som) uma ideia da paz que se pode encontrar nessa busca por “desaprender”. Frases soltas que se pegam e despegam, um instrumental luminoso (produzido por Graymatter, membro do colectivo Mutant Academy) que é guiado por uma melodia que grita “introspecção”. Alguém que se chegue à frente e crie um loop de uma hora desta faixa, se faz favor. É o mais perto do paraíso que vamos conseguir chegar nesta altura. “I don’t know much”, repete-nos o Mr. Slow Flow no final da canção. E, no final de contas, quem é que sabe, não é verdade?

– Alexandre Ribeiro

ReB Team

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