Pontos-de-Vista

Gonçalo Oliveira

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Como a quarentena está a estimular a entrada numa nova fase da industria musical.

O futuro da música ao vivo também é digital?

No princípio era o vinil, mas a música passou também pela cassete e pelo CD até se afirmar no plano não físico do domínio digital. De palpável a uma combinação de números guardados num ficheiro informático, a distribuição de música acompanhou passo a passo a evolução da tecnologia e os hábitos que com ela passaram a ser adoptados por cada um de nós. Na forma como uma obra é apresentada ao vivo pouco ou nada mudou. Os artistas continuam a apostar no circuito tradicional, a fazer estrada e a percorrer clubs, salas de espectáculos, arenas e recintos de festivais, tal e qual o que já se fazia há 10, 30 ou 50 anos. Já as gravações de concertos servidas em CD/DVD ou transmitidas por televisão, salvo raras excepções, nunca tiveram o mesmo impacto das gravações de estúdio e só graças ao YouTube é que conseguimos começar a detectar um público mais consistente. Mas a gravação não acomoda qualquer tipo de interacção ou momentos não calculados que surgem com o imprevisto do “directo”, e para que esta possa ser uma forma credível de vingar no mercado falta-lhe um toque mais “humano” — o erro, a espontaneidade, a reacção sentimental e imediata a um determinado momento… Foi, lá está, no YouTube que a revolução se começou a tornar tangível. Plataformas como a Boiler Room e festivais como o Coachella foram dando sérios avisos à industria de que este era um mercado por explorar. Outros “palcos” digitais, como o Tiny Desk, A COLORS SHOW ou triple j vão acumulando números impressionantes no que toca à visualização de prestações ao vivo pré-gravadas, mas se nos fosse dada a oportunidade de espreitar a coisa em directo o impacto seria talvez até mais considerável. E nada se perde, até porque o espectáculo pode ficar alojado na “nuvem” para a posteridade e continuar a gerar receitas no futuro. Por cá, no Rimas e Batidas, este é um assunto que já temos vindo a falar por diversos motivos mas que nos últimos tempos, por força das circunstâncias, tem galgado terreno a olhos vistos. Ligamos o Instagram, a nova ferramenta da moda para o efeito, e é raro o minuto em que não existe um único artista a mostrar um pouco do seu trabalho em directo nos ecrãs dos nossos telemóveis. Aplaudimos iniciativas como o #EuFicoEmCasa, a Crib Season, o Pausa no Cubs Fest e até o Play It Safe. É precisamente neste último que entra em jogo o lado crucial de tudo isto na visão de quem cria música ou qualquer outro tipo de arte: a rentabilização daquilo que está a ser feito.

Likes, emojis e comentários não enchem a barriga mas há algo muito importante que também não podemos esquecer: um concerto digital nunca chegará ao mesmo patamar do que é estar a aplaudir o nosso artista favorito em palco a poucos metros de distância; o sistema de som dos nossos smartphones, mesmo que através de “batota” o façam sair por outro dispositivo qualquer, não são comparáveis aos dos recintos reservados para receber música ao vivo; a acústica, a emoção de estar fisicamente a apreciar o acontecimento, o calor e o barulho das pessoas… E já para não falar da quantidade de artistas que se limitam a cantar em cima dos originais para a câmara do telemóvel. É legitimo para o tipo de iniciativa em que se está inserido mas nunca um padrão aceitável por quem consome música “a sério”. Posto isto, não devemos em qualquer momento equacionar o concerto digital como substituto do real. Tal como não deveremos exigir o mesmo preço para a ele aceder. Mas o futuro da coisa também não deverá passar pelo acesso gratuito, por muito que gostemos de, a qualquer minuto, ser surpreendidos por avisos no Instagram de que gente como James Blake, Swae Lee, John Legend, Common, Miguel ou os “nossos” Pedro Mafama, zé menos ou Best Youth estão a entrar em directo nas nossas vidas, nos nossos “feeds”. “Tenho a casa cheia de engenheiros, músicos, técnicos, que estão todos sem trabalho”. A frase é de Erykah Badu, um dos grandes nomes que teve a coragem de pedir a simbólica quantia de um dólar para podermos assistir aos seus espectáculos digitais, que arrancaram na segunda-feira passada e se vão estender por mais algumas semanas. Ao explicar aos seus seguidores o porquê da cobrança de “bilhete” — se é que isso precisava de qualquer tipo de explicação… — a cantora traçou um paralelismo com a venda de discos, cujas receitas que recebe vão apenas de “8% a 20%”. “Isto não foi feito para nos tornarmos ricos. É por isso que dependemos dos espectáculos ao vivo. Nós não somos pessoas ricas. Apenas fazemos de ricos na televisão. É desta forma que conseguimos viver e alguns de nós só têm uma forma de rendimento, que são os espectáculos.” Enquanto o mercado ainda navega à procura do valor ideal a cobrar por este tipo de entretenimento, os artistas e respectivos managers podem — e devem — continuar a encontrar formas inéditas de aproveitar este fenómeno, oferecendo aos seus seguidores formatos menos convencionais. Perguntas e respostas entre o músico e o seu público, mostra de material inédito, directos que deixam espreitar o processo criativo em estúdio ou… Beat battles! A mais recente sensação no circuito do hip hop, curada por Swizz Beatz e Timbaland, arrancou na última terça-feira com os dois produtores veteranos a medir forças através de um catálogo riquíssimo. Seguiram-se Boi-1da e Hit-Boy, e até já há quem comece a desenhar e a pedir o seu próprio line-up de sonho — a Billboard, por exemplo, sugeriu Kanye West vs. Pharrell, Dr. Dre vs. DJ Premier ou Madlib vs. RZA num longo artigo dedicado a este fenómeno. E por cá? Será que não haveria quem pagasse para assistir a uma beat battle entre Sam The Kid e Boss AC? Entre Lhast e Charlie Beats? Entre Holly e DJ Ride?
https://www.youtube.com/watch?v=DTbfaS6MuzM

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