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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/03/2024

Em sentido ascendente.

pikika: “A minha música é melancólico-dançante. É triste muitas das vezes, mas acaba por ter ritmo”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 07/03/2024

Ainda agora começou mas já entrou num dos álbuns mais antecipados do início de 2024. Para além de Ivandro (“Dois”), colaborou em faixas com Van Zee (“Saudade”) e xtinto (“Com Um Brilhozinho Nos Olhos”), sendo que foi ao lado deste último que, integrada no projecto de homenagem a Sérgio Godinho (SG Gigante), que mais deu nas vistas. Felizmente, a faixa chegou aos ouvidos certos e levou-a ainda a trabalhar com Charlie Beats em “Teima”, o seu penúltimo single. Editada em Fevereiro, “longe.com” é a faixa mais recente de pikika — mas não por muito tempo, já que nos próximos dias vai fazer aterrar uma nova canção nas plataformas de streaming.

Nasceu em Portalegre mas é em Lisboa que vive e onde, desde a faculdade, tentou conciliar trabalho e música, até que a vida a fez colocar as coisas em perspetiva e priorizar a paixão que agora partilha connosco. Das aulas de guitarra clássica às primeiras performances no Clubhouse (uma aplicação de salas de chat de audio) e aos vídeos no Instagram, pikika é um espelho assumido das suas influências e verdades, amassadas num estilo que descreve como “melancólico-dançante”, muito mais harmonioso do que aquilo que o choque entre estas palavras deixa perceber.

O Rimas e Batidas teve a oportunidade de entrevistar esta artista em ascensão, que nos falou do início do seu (ainda recente) percurso e da força que a move. Quanto ao futuro, não se descose, mas deixa antever um ano ativo fora e em cima do palco.



Gostava de perceber, antes de mais, de onde és e há quanto tempo começaste a fazer música?

Sou de Portalegre, no Alentejo. Foi lá que nasci e fui criada, e onde comecei a tocar guitarra aos 9 anos, no conservatório. Tive lá alguns anos, acabei por sair por volta dos 13/14 anos, mas voltei a ter aulas com o meu primeiro professor do conservatório. Tecnicamente comecei a tocar aos 9, mas só comecei a cantar mais tarde, porque o conservatório ensina-te guitarra clássica. Então, eu não sabia acordes, mas queria saber músicas para tocar, e foi a partir daí que comecei mais a sério.

As primeiras coisas que me lembro de ver tuas, relacionadas com a música, foram uns vídeos curtos que colocaste no teu Instagram, ainda antes de lançares o teu primeiro tema. Quando fazias estes videos à guitarra, qual era a tua intenção?

Eu fazia aquilo numa de terapia. Mesmo antes de vir para a faculdade, para Lisboa, quando chegava a casa depois das aulas punha-me sempre a tocar. Aí surgiu a ideia de gravar o que fazia, mas sem qualquer intenção de que chegasse a algum lado. Só mais tarde é que comecei a partilhar isso nas minhas redes sociais. Isto sempre foi o que eu quis fazer, mas quando punha esses vídeos online não tinha qualquer pretensão. Só mais tarde é que entendi que podia resultar dali alguma coisa.

Essa é uma boa questão: qual foi o primeiro momento em que percebeste que conseguirias fazer alguma coisa mais profissional com a tua música?

Quando comecei a meter os vídeos fui muito elogiada por amigos e família, e eu também gostava e sabia que não era assim tão má. Mas durante a pandemia eu decidi que todos os dias ía fazer um cover ou publicar um vídeo meu a cantar alguma coisa, e quando postava esses vídeos eu identificava os artistas. Nessa altura de pandemia apareceu o Clubhouse, só com audio, e eu ia para lá todos os dias para as salas só para cantar onde estavam outros artistas — às vezes eles ouviam os outros a cantar as suas próprias músicas. Eu já escrevia há mais tempo, mas foi só na pandemia que comecei a tentar mesmo fazer algo original, já que os covers corriam tão bem. Lancei o “Deixa Ver” e o “Camomila“, no SoundCloud. Mas na minha cabeça isto eram tudo ensaios, e foi só depois do “Camomila” que senti essa aprovação e motivação para fazer mais originais. Na mesma altura começo a ser seguida por malta da música no Instagram, um dos primeiros foi o Migz. E acabou por ser ele quem me chamou para participar no SG Gigante. Quando esse convite chegou eu já tinha lançado estes dois sons.

Todo esse projeto [SG Gigante] é colaborativo. Foi o Migz que te apresentou o xtinto? Como é que foi participar nesse projeto?

Não foi. Eu fiz um cover do “Pentagrama” ainda antes da altura do Clubhouse, e com a pandemia e aquela onda de empatia choveram mensagens positivas e elogios, algumas delas eram do próprio xtinto. Quando aconteceu o SG Gigante eu conhecia o xtinto há muito pouco tempo e fomos os dois para o estúdio com o Migz gravar o que tínhamos escrito. Na altura o Migz disse-me que, como era uma voz ainda por conhecer, esta seria uma ótima oportunidade. Eu fiquei mega contente! Não o conhecia, ele tinha que estar a fazer aquilo por gostar genuinamente do meu trabalho. Isso deixou-me muito contente. 

E esse projeto trouxe-te mais alguma coisa?

Sim, foi através do SG Gigante que conheci o Charlie Beats, que foi quem produziu um dos meus singles mais recentes, a “Teima”, que é o primeiro tema desta nova fase da minha vida. Foi por ter ouvido o “Com Um Brilhozinho nos Olhos” que ele me enviou uma mensagem a dizer que gostava de trabalhar comigo. Portanto, esta música foi mesmo importante.

Desde então começaste a lançar mais singles a solo, e agora tens colaborações com o Van Zee [“Saudade”] e com o Ivandro [“Dois”], que são nomes que já vão reunindo algum peso. Como é que o teu trabalho se cruzou com o deles?

Eu conheci o Van Zee um pouco antes, quando andava em conversações com o Simão, o meu agora manager, que também é manager do Van Zee, do Ivandro e de mais uma malta. Eu segui o Simão e ele, passado uns tempos, pediu o meu número pelo Instagram. Mais tarde ligou-me a dizer que estava viciado nos meus temas e que podíamos fazer alguma coisa juntos. Ao mesmo tempo, o Van Zee tinha o “Perto”, que estava a bater bué no TikTok e nas redes sociais. Adorei o tema, achei que era muito diferente da música que se faz e ouve em Portugal, e quis dar-lhe o props no Instagram. Ele não conhecia o meu trabalho ainda, mas foi logo seguir-me e, passado um mês, mais ou menos, ele vem ter comigo a dizer que tem um tema em que gostava que eu entrasse para o álbum dele. Aí começou o “Saudade”, e lembro-me que, quando nos juntámos para gravar, falámos do Simão e de como era fixe se acabássemos todos a trabalhar juntos.

O tema que tens com o Ivandro provavelmente vai fazer parte de um disco de platina — a questão é mais quanto tempo isso vai demorar a acontecer, e não se vai acontecer. Já pensaste nisso? O que é que achas de ter um tema num projeto com esta projeção?

Opá… Eu acho que não é por aí. Pelo menos no meu caso, e pensando somente naquilo que eu sinto, isso é só um lembrete de que viver vale mesmo a pena. Nunca pensei conseguir chegar até aqui e conhecer tanta gente que sempre idolatrei e de quem aprecio muito o trabalho. E agora estou a fazer música com essas pessoas. Isso é o mais importante, não é estar no topo. Eu percebo que isso seja importante, e se quero viver da música não posso ignorar essas coisas, mas fico mais contente se me focar antes no facto de estar a chegar a cada vez mais pessoas. 

Foi uma coincidência feliz. Falando agora da tua música, como é que a descreverias a quem nunca te ouviu?

Eu ouço muita coisa, e aquilo que faço é um bocado um espelho daquilo que eu sou. Tudo o que canto é verdade, é sobre mim e tudo o que eu vivo, e eu sou uma pessoa que já viveu muita coisa, tenho muitas emoções e há sempre muito a acontecer [risos]. Todos os temas que lancei até agora são uma fusão de vários estilos e várias coisas que eu ouço e sou. Então, é um melancólico-dançante, percebes? A minha música é triste muitas das vezes, mas acaba por ter ritmo. Ou vice versa — a música pode ser triste e a letra mais animada. Por exemplo, a “longe.com” acaba por ser uma música mais calminha mas com uma vibe bue feliz.

E até que ponto é que te envolves nos teus temas? Já percebemos que sabes tocar guitarra e eu sei que tu escreves e interpretas. Que mais fazes?

Depende dos temas, mas do que fiz até agora, e tomando o “Teima” como exemplo, a composição musical foi toda do Charlie Beats. O “longe.come” tem essa parte feita pelo FRANKIEONTHEGUITAR. Até agora tem funcionado assim, mas vão sair alguns temas em que as guitarras são minhas. Fora isso, escrevo sempre as letras. Um dos temas que está para sair muito em breve foi escrito por mim ainda na altura da faculdade, mas que nunca consegui acabar, há cerca de 5 anos. Foi composto também por mim em estilo bossa nova. Mas do nada, veio-me uma coisa qualquer que me lembrou de fazer um acorde diferente… E funcionou. 

Já me disseste que ouves muita música e que tudo isso, de certa forma, entra naquilo que fazes. O que é que ouves e que gostavas de partilhar connosco? E tens recomendações de artistas como tu, em início de carreira, para os quais gostasses de nos chamar a atenção?

Tive muitas fases na minha vida, e tenho quase que um ano associado a cada estilo de música… Mas ouço muita bossa nova, muito flamenco, e acompanhei a febre da ROSALÍA e do C. Tangana, que deu o melhor concerto que eu já vi. Depois vou também aos afrobeats e tenho ouvido muita Jorja Smith. Mas para recomendar alguma coisa, vêm-me muitos nomes à cabeça. Acho que tenho que referir o xtinto e o Icaro. Eu sei que o xtinto não está propriamente no início de carreira, mas é um artista fresh a quem as pessoas deviam estar atentas.

E em relação ao futuro próximo? Sei que o FRANKIEONTHEGUITAR tem um projeto a sair. Vamos ver o teu nome nos créditos? E quando e que vamos ver-te em cima de um palco em nome próprio?

Em relação ao FRANKIE, vais ter que esperar para ver. Mas sobre os concertos, vai acontecer muita coisa e até ao final do ano ainda vão ouvir falar de mim em vários formatos. 

E um álbum, é algo que está na mira, suponho? 

Também não te consigo avançar nada, mas posso dizer-te que ainda tenho muita música para lançar ao longo do ano. 

Sei que tiveste um problema de saúde que mexeu com, pelo menos, a tua capacidade de fazer música. Quero pergunta-te que impacto é que isso teve na tua carreira.

Tudo o que acontece na nossa vida tem uma razão de ser. E a verdade é que se não tivesse tido este problema, talvez não tivesse coragem e força para seguir os meus sonhos. Não é que seja preciso um susto para teres coragem de fazer o que queres, até quero passar a mensagem contrária, mas a verdade é que comigo funcionou dessa forma. Eu precisei disso e agradeço bastante que me tenha acontecido, apesar dos problemas que me criou e da dificuldade que tive na recuperação física e psicológica do que me aconteceu. Dou muito mais valor à vida agora. Pode soar estranho esta gratidão para com um problema de saúde grave como o que eu tive, mas quando estás lá em baixo e vês a tua vida… Aquilo podia ter mexido com as minhas cordas vocais e com o que eu mais gosto de fazer. Quando bati no fundo e percebi que podia ficar sem poder cantar… E mesmo quando percebi que as minhas cordas vocais estavam bem, mas que ia precisar de trabalhar muito para conseguir recuperar a capacidade que tinha antes… Isso dá-te uma força! Fiquei uma versão melhor do que era. Percebi que não dava para adiar mais. Tinha acabado de começar a trabalhar na área que estudei, porque queria ser eu a pagar as minhas contas, e como não sou de Lisboa e vivo cá, não queria estar a pedir nada aos meus pais, e sabia que para tentar a sério isto da música ía precisar de algum investimento para fazer as coisas como deve de ser. Então estava sempre… “Ah, mais um ano aqui a trabalhar.” Quando apareceu o meu problema e percebi que podia ficar sem voz, não deu para adiar mais.

Tiveste que fazer algum tipo de reabilitação vocal?

Isso não, felizmente. Mas estive 6 meses sem conseguir cantar afinada… Doía-me. É um pouco como partir um braço, só vais conseguir recuperar a mobilidade a 100% alguns meses mais tarde se tiverem que te abrir o braço e colocar uns parafusos. O que me aconteceu foi semelhante, só que fui sujeita a duas intervenções no espaço de meio ano. E só para enquadrar as coisas melhor no tempo, o “Com Um Brilhozinho nos Olhos” saiu em abril de 2022, e em junho soube do meu problema. Na altura queria só fazer música e estava à espera de um sinal que me dissesse para largar tudo e apostar na música. Este foi o sinal. 

Para terminar, percebi que não mostras a cara em nenhum dos materiais associados aos teus temas. Porquê?

Isso começou numa de estar a tocar à vontade e a fazer as caretas que me apetecia enquanto tocava, para as pessoas ouvirem a música e não estarem a olhar para mim. Isso ficou e a estética perdurou. Não é por nenhuma razão em específico, é mais para que se concentrem na música.


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