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Fotografia: Tiago Fróis / Oficinas do Convento
Publicado a: 06/05/2026

Para não perder, em tudo transformar.

“Pianos Preparados e Outras Entranhas”: o povo que lhes toque

Fotografia: Tiago Fróis / Oficinas do Convento
Publicado a: 06/05/2026

O legado material do músico, luthier, musicólogo e afinador de pianos Ulf Herbert Ding (1963–2023) refez-se partindo do fogo, aquando da passagem pela sua Quinta das Artosas em Montemor-o-Novo,  nesse verão inclemente de 2004. Ding das cinzas fez ressurgir mais pianos, mais fortes, todos em que tocava — como músico e sobretudo como mestre afinador e restaurador. As chamas não consomem verdadeiramente tudo, há ainda a herança imaterial. No verão de 2023 no programa Cidade Preocupada, Ulf Ding dava um concerto na Casa Branca de taças tibetanas e gongos “… instrumentos ancestrais cujas frequências e timbres acompanham os seres humanos desde o início dos tempos”. Precisamente aos que se havia ligado nos últimos anos da sua vida. Acção terapêutica em curso — harmonizando, entre o espaço e uma loop-station. Era um derradeiro legado imaterial em curso, mesmo sem se saber. Morreria nesse mesmo ano, subitamente. 

Para trás, várias décadas no território montemorense e uns quantos pianos deixados sem mestre — à mercê, como partes de um todo. A harpa (esqueleto metálico do piano) C. Bechstein de Berlin, calcinada e recuperada das cinzas, como a alma que nem o fogo consome. Serviu como uma primeira sonoscultura. Em seu dia o músico Nuno Rebelo e o programador e activador de ideias Tiago Fróis voltavam a essa harpa colocando-lhe a partitura de “O Pássaro de Fogo” de Igor Stravinsky por diante. O resto ficava para cada qual, perante a escultura. Estava lançada (e sem saberem) a pedra de toque para a ideia de “PianoForte”. 

1 de Maio de 2026, na fachada do edifício da antiga Associação Operária Montemorense — 1° de Maio de 1901 — preci(o)samente passados 125 anos, como um acaso objectivo bretoniano. O edifício da Operária Montemorense começou como um antigo templo construído no início do século XVIII. No decurso dos anos 1800 foi convertido em carpintaria, e na parte frontal deu lugar à Associação Operária 1º de Maio. Serviu também, e já no século XX, como sede da Corporação dos Bombeiros Voluntários e teve numa das três portas (a n°2) uma agência funerária. Essa mesma harpa do piano C. Bechstein de Ding está agora cravada na base da fachada, indicando o sentido para “PianoForte”. Um programa das Oficinas do Convento, iniciativa interdisciplinar no cruzar da música, das artes visuais, do património e numa criação contemporânea, que parte do legado de Ulf Ding em Montemor-o-Novo. A propósito os artistas Carolina Garfo, Inês Castanheira, Nuno Rebelo, Ricardo Jacinto e Simão Costa estiveram mais de 10 dias em residência de criação no espaço que agora reabre ao povo. Neste dia 2 de Maio foi o momento de activação da sonoscultura na porta 2, e dos autómatos sonoros na porta 6 do edifício, da antiga associação há muito de portas fechadas à cidade.

Ao chegarem para a residência de criação, que o Rimas e Batidas acompanhou na parte final, os cinco artistas tinham 4 pianos de parede totalmente disponíveis para trabalhar — legado material de Ulf Ding deixado à curadoria das Oficinas do Convento. O director artístico Tiago Fróis fez reunir as perspectivas complementares destes cincos criadores. Carolina Garfo, vinda dos campos da escultura ceramista, com incursões sonoras como em “Dance Floor de Alsobio” passando aos  audiovisuais ficcionados como em “Raverina”. De Inês Castanheira, sabemos da sua pertença ao colectivo Mileteto com edição na série “In Trux We Pux” da Favela Discos, ocupando-se de instrumentos por si inventados, partindo de manipulações e recriações electrónicas como recurso ao circuit-bending, reanimando objectos obsoletos. Ou até mais quando, e como Well, em 2021 compôs “Dia-a-dia” uma peça melancólica cosendo field-recordings, melodias em piano vertical e drones vindos dum sintetizador de fabrico próprio. Poderemos ir até aos fascinantes delírios na arte da nova pop-rock portuguesa para lembrar esses Mler ife Dada ou os consequentes Plopoplot Pot de Nuno Rebelo. Ele que tem em Improvisações Cristalizadas (Holuzam, 2023) um corolário directo ao seu mundo sonoro (1989—90), num além da guitarra eléctrica que lhe vimos e ouvimos de então. Ricardo Jacinto é membro fundador do trio The Selva e do ensemble Medusa Unit, mas a solo tem desenvolvido novos campos de possibilidades da electro-acústica partindo do seu violoncelo preparado — escutar SOLO (OSSO, 2024) é um fundamento. E Simão Costa aparece, neste colectivo para fortalecer pianos, como o único músico com formação pianística. Contudo, como um pianista que tem feito do clássico cordofone-percutido um espaço de reivindicação para uma electro-acústica programada. Vitor Rua para o ReB dedicou-lhe uma aturada escuta desde o último álbum Beat With Out Byte – (Un)Learning Machine (Cipsela Records, 2021). 

Esventrando… (no melhor dos sentidos) quatro pianos de parede, os cinco foram fazendo das entranhas partes preparadas e compostas para um todo. Como que num criativo acto em que a soma das parte é mais que a unidade que lhe deu origem. As caixas, com as harpas encordoadas são como carcaças sonoras de base, apartadas dos mecanismos de madeira e marfim, como matéria restante e reservada para outras receitas sonoras. Dividem-se as partes em dois molhes — duas salas complementares para o efeito, duas galerias sonoro-expositivas. Ainda que na apresentação não fique assumido quem foi quem, antes um resultado final a cinco mentes criativas, testemunhámos o labor mas bancadas individuais e autorais no processo. Cada uma das caixas de ressonância dos pianos (tombadas e sobre rodas) foram sendo preparadas com novos mecanismos por Inês Castanheira, Simão Costa, Ricardo Jacinto e Nuno Rebelo. Carolina Garfo ocupou-se de recompor os teclados e mecanismos numa outra sonoscultura em quadrilátero. Supendendo-lhe materiais diversos, muitos dos quais utilizados por Ding enquanto musicoterapeuta — voltamos a encontrar as Taças Tibetanas em função. Mas suspendem entre isso pratos em chacota de cerâmica, tubos, campaínhas, frigideiras várias, tampas — todo um sarilho de carrilhões activado desde teclas precisas dos esventrados teclados de piano. 

Voltando às mãos laboriosas e criativas dos outros artistas, vemos-lhes aparelhos de soldar, alicates e peças indutoras de som e movimento. Preparam-se os semi-pianos com autómatos sonoros. As cablagens denotam a múltiplas comunicações em curso. Sons que vêm e sons que vão, centrais de comandos em ecrãs de computadores. A caixa semi-piano de Jacinto tem quatro martelos de piano agora recolocados e activados desde solenóides de electro-ímanes, que disparam em sincronismos procurando as cordas para uma atmosfera em Fá, dando lugar a um plasma sónico — feedbacks partindo de 3 colunas de contacto. Para Costa, com uma complexidade ainda maior em construção, o dispositivo passa por uma coluna emissora sobre uma escova de piassava, que emite trechos sonoros enquanto pequenos motores respondem à activação e fazendo rodopiar braçadeiras sobre as cordas. Há ainda martelos de piano ligados a motores receptores de sinal sonoro. Não saberíamos à partida que o som saíria de um motor. Restam outros dois semi-pianos, neo-horizontais. Inês Castanheira serve-se (ou melhor dará a servir) dois comandos foto-sensíveis como activadores, ambos acoplados a potenciómetros. Motor — que nem fontanário de duas bicas opostas, circula como o (co)mandam e nas pontas dos arames dois ex-abafadores de cordas beliscam à passagem as mesmas, uma vez promovidos a tocadores. Do outro lado — o dos agudos — outro mecanismo fotosensível activa dois motores para um “chilreio” agudo e intenso. Aliás esse é um dos campos predilectos do trabalho artístico de Castanheira — o do canto das aves em dispositivos electrónicos. Basta ver a exemplo a série “P#i¶îuPi‰Piu”. O outro semi-piano, e já dado como terminado na preparação, tem um parafuso intrometido nas cordas — a la John Cage. Aliás tanto para Nuno Rebelo, como para os demais criadores aqui, o legado musical de Cage e David Tudor são assumidas referências. Mas Rebelo traz uma outra ideia, e de todo mecânica, à acústica. Dois veios com martelos articulados como que a fazer lembrar um mecanismo de matraquilhos. Os martelos de pianos dispostos como pernas articuladas, “chutam” num vibrar as cordas do ex-piano. Há uma dupla preparação, pela intromissão nas cordas e pela forma como são tocadas. 

Sabemos da importância, em desvio decisivo, que Marcel Duchamps trouxe à arte em 1915 cunhando a ideia de readymades. Fazendo da “simples” descontextualização de objectos do quotidiano uma vez expostos num outro propósito, como um novo pensamento. Percorrendo as paredes da sala-porta n°2 do espaço, é sob essa filosofia expositiva que se argumenta. Um trabalho visual que Nuno Rebelo desenvolveu na residência de criação. Elementos das “entranhas” dos pianos tronadas outras qualquer coisas — arte visual, que contudo e ao contrário do urinol “Fountain” de Duchamps apontam para uma beleza estética desarmante.

O dia 2 de Maio, final da tarde marcava a activação publica da instalação “Pianos Preparados e Outras Entranhas”. No jardim público de Montemor-o-Novo um outro piano, também ele ex-vertical funcionava desde alguns dias como chamariz ao evento. Tornado publico na sua existência no jardim e além disso à disposição de ser tocado, onde na vez de teclas estavam martelos de piano como que pequenas baquetas a pedir para serem usadas por quem passa. E é essa a beleza maior contida nesta sonoscultura. O jardim e o edifício centenário repovoam-se de escutadores e tocadores. Ambas as salas, tornadas galerias, começam por ser visitadas e na espontaneidade que se espera as peças começam a soar — por si e por quem as activa. Imaginemos então um concerto que mesmo antes de receber os artistas pudesse iniciar-se pelo público; num estimulo aos instrumentos, como numa real partilha. Entre um público que é povo ouvem-se palavras sobre o que se vê, e fala-se sobre o que se ouve. Circulam a liberdade e a criação. As paredes da sala mais luminosa — onde os teclados-mecanismos em quadratura de circulo já soam a bom soar, tilintares constantes que matraqueiam a atmosfera uma vez transposta a porta n°2 da Rua Álvaro Cunhal. As paredes exaltam as peças: ao fundo, mecanismos agrupado numa colagem de baixo relevo fazem lembrar uma maqueta de uma qualquer cidade; Ao canto, encostadas, são somente teclas amontoadas de piano, como que a lembrar uma proto-fogueira de chão; E a vistosa caixa de luz que faz jogo de sombras partindo de martelos de piano em suspensão; E de forma mais concreta e com pistas sonora associadas há a partitura gráfica feita de feltros de peças de piano, transcrevendo “Ataque Nocturno C/ Radar & Valsa” dos Plopoplot Pot. As partituras gráficas têm essa mais valia de pronto — tornam-se obras visuais mesmo antes de se traduzirem em “eus” sonoros. Da mesma maneira esta instalação toca por si, sendo tocada por todas e todos nós. 

Os cinco artistas tomam lugar na escultura sónica, e servem uma micro-peça de uma vintena de minutos em modo saboroso e complacente. Tocam-nos por tocarem muitos dos objectos sonoros de Ulf Ding, tocam em cadência aberta e num modo de escuta efectiva — como resposta. Harmonizam e dão-nos um sentido comunitário, costuram os sons e as imagens — volve-se uma sala tão solar. Na outra, os autómatos fazem na penumbra o que foram programados para fazer, havendo um sentido humano à mistura, trazendo imprevisibilidades. Porque há uma efectiva alimentação sonora dos mecanismos interactuantes, e um dos semi-pianos só responde à mão humana — precisa do nosso toque para que nos toque efectivamente.

Esta é uma iniciativa inserida no programa mais alargado “PianoForte” (2025—2027) e que já contou com o recital  para piano “Ding-Ding, Meu Amigo” de Amílcar Vasques Dias e as oficinas para transformação de pianos “Escutar com as Mãos” ministradas por Pedro Ferreira. Até mais ou menos ao final do ano em Montemor-o-Novo, será possível entrar neste díptico “Pianos Preparados e Outras Entranhas”, para isso haverá que contactar as Oficinas do Convento, uma vez que o acesso será feito sob marcação, preferencialmente para grupos. É a vez do povo (se) mostrar, que ainda sabe tocar.


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