Que Papillon é este que encontramos em WONDER? Não é o adulto a aprender a aceitar como lidar com os seus traumas de Jony Driver (2022), nem certamente é o jovem aguerrido que mostrou ser uma das grandes promessas, e depois certezas, do hip hop nacional nos GROGNation e em Deepak Looper (2018). Não. O Rui Pereira com que nos deparamos em WONDER é uma borboleta que já saiu do casulo e que está pronta para encarar o mundo com novos olhos. E há uma razão para isso: ter sido pai.
Como Ricardo Farinha referiu no Ípsilon, no seu terceiro álbum a solo Papillon encerra “o círculo terapêutico” que iniciou em Deepak Looper graças a um “novo ponto de vista como pai”. Porém, apesar deste ser um processo digno de ser apelidado de wholesome, temos de clicar no botão de pausa. Em WONDER, escutamos um Papillon à deriva sobre quem foi, quem é e quem pretende ser. O problema disto é o seguinte: se o terreno desbravado por Papillon em WONDER pretende ser pantanoso e contraditório, a música simplesmente não acompanha o que é pretendido ser o clímax da trilogia iniciada por Deepak Looper e Jony Driver.
Se a terapia enquanto dispositivo da vida pós-moderna pretende ser um instrumento complexo em busca do crescimento pessoal no seio das teias antagónicas do capitalismo tardio, o processo terapêutico que se escuta em WONDER aparenta ser mais complexo do que verdadeiramente o é. Ao contrário de Deepak Looper e Jony Driver, dois álbuns capazes de representar, cada um à sua maneira, as dinâmicas da vida de Papillon através da sua música, WONDER é um álbum cujas canções não têm nem essa capacidade nem essa qualidade. Se Deepak Looper e Jony Driver foram os dois primeiros episódios de uma saga aclamada, WONDER é o derradeiro anticlímax da trama onde pouco ou nada ocorre para nos satisfazer. Está mais próximo de ser o The Big Day (lembram-se dos memes?) de Papillon do que ser uma conclusão satisfatória à história da borboleta que conseguiu (merecidamente) sair do seu casulo.
Logo a abrir, “¡ +1 !” apresenta-nos o melhor e o pior que WONDER tem para nos oferecer. Do lado positivo, os flows variados de Papillon. Mais uma vez, Rui Pereira mostra aquilo que já sabíamos sobre si desde os tempos da Liga Knock Out — é um excelente tecnicista da arte do rap. Do lado negativo, quase tudo o resto. O refrão é aborrecido — e WONDER está cheio deles, por alguma razão —, a produção é estéril e a única coisa que se conclui sobre a canção é que a mensagem principal (“Avisa quem nos quer matar que a gente vai morrer a lutar / O vosso plano não ’tá a resultar, pois nós ainda ‘tamos cá / Ainda há sonhos p’a manifestar enquanto a força me restar / Vou-lhes mostrar e um dia os filhos dos filhos dos nossos filhos vão cantar”) revela-se mais bem intencionada do que a música interessante. Houston, we have a problem.
Encontramos, então, um paradoxo. Como criticar WONDER sem diluir a mensagem do disco? Este desafio é interessante de refletir sobre. Será que vivemos numa era onde música “má” ou “aborrecida” pode esconder-se debaixo de camadas de mensagens altruístas e terapêuticas? Se criticarmos essa música, somos os maus da fita? Ai, ai, terreno pantanoso à vista… No pós-Afro Fado, estamos condenados a que a geração de Papillon e Slow J passe mais tempo no divã nas suas canções do que a fazer, perdoem a expressão, “boa música”? É este o fim da história dessa geração do hip hop tuga?
Lama à parte, uma das grandes razões para que WONDER não sobressaia em quase nada face aos seus dois predecessores é a direção musical escolhida para o álbum. Deepak Looper não esconde que, com a ajuda na coprodução de Slow J, pretendia ser um disco disruptivo e variado na sua sonoridade, distante de ser um álbum de hip hop “normal”. Longe disso. O primeiro álbum a solo de Papillon serviu de montra para os seus talentos e rapidamente mereceu a “etiqueta de clássico”, como escreveu José Duarte na Playback aquando do quinto aniversário do álbum. Neste cantinho da Internet, foi eleito o melhor álbum nacional de 2018 — e não podemos dizer que não foi merecido. Jony Driver, por outro lado, com as suas canções mais expansivas e desafiantes, está mais próximo de um clássico do género, com o storytelling a surgir como máxima, também ele incluído na lista de melhores álbuns nacionais de 2022 para o Rimas e Batidas. Se Deepak Looper era a luz, Jony Driver era a escuridão. Se o primeiro queria romper com tudo, o segundo pretendia refletir sobre o passado. Sem dúvida, é um álbum mais ponderado e menos explosivo.
Nesse sentido, a continuidade apresentada em WONDER faz sentido — é ainda mais ponderado e menos explosivo do que Jony Driver. Pretende, acima de tudo, ser um disco para o futuro, um legado para quem sucede na linhagem de Papillon. Porém, se Deepak Looper é um disco de rap onde os instrumentais não estavam próximos da sonoridade do hip hop tuga mais convencional (nota-se imenso que é um rescaldo de The Art of Slowing Down) e Jony Driver pretendeu ser um clássico do hip hop acima de tudo, WONDER pretende ser um álbum… mais pop? As canções de WONDER têm refrões, certo, mas os outros álbuns de Papillon (particularmente Deepak Looper) também os têm — e são mais interessantes que aqueles que se escutam em WONDER. Têm Papillon a experimentar com a voz, mas Jony Driver também possui esses momentos e, mais uma vez, soam mais aliciantes do que qualquer momento de WONDER. Começamos a observar um infeliz padrão, certo?
Portanto, chegamos ao verdadeiro tumulto do terceiro longa-duração de Papillon. WONDER é o resultado do trabalho do artista de Mem Martins com os irmãos GOIAS, responsáveis pela coprodução de Afro Fado; Púrpura, um dos músicos da sua banda ao vivo; Migz e Ariel (dupla pertinente da produção pop portuguesa recente), Slow J, Charlie Beats, FRANKIEONTHEGUITAR, Cotta e HAYDENMAKESMUSIC. Muitos nomes, é verdade, mas aquilo que se escuta em WONDER leva-nos a concluir que existiram demasiados chefs dentro desta cozinha. Fora “¡ AIBOFOBIA !” e “¡ REVIVER !” — os dois momentos mais altos da trama —, grande parte das canções de WONDER soam como se Papillon estivesse a rimar e, ocasionalmente, a cantar, por cima dos instrumentais e beats mais genéricos da sua discografia. Que raio?
Tantas palavras escritas que, na realidade, só pretendem dizer o seguinte: não dá para perceber se WONDER é suposto ser um álbum de hip hop ou um álbum de música pop. Está perdido entre esses dois mundos. O resultado? É um disco de hip hop enfadonho e um fraco disco pop. E atenção: custa dizê-lo. Porém, aquilo que entra pelos nossos ouvidos não engana. Pelo contrário. Mesmo que “¡ E SE !” apresente alguns dos versos mais emocionais e diretos do álbum (“A borboleta voa em direção ao sol / Lá no fundo ele só queria ser amado / Agora é só um velho louco cheio de arrependimentos / Sente que veio p’ra este mundo enganado”), o resto da faixa simplesmente não acompanha — mais uma vez — aquilo que Papillon está a tentar comunicar. E quanto menos falarmos das duas faixas com convidados — “¡ SÓ NÓS !” e “¡ N.M.N !” —, melhor. A primeira, com Carla Prata, é um desperdício do talento de ambos; e a segunda, com Bárbara Tinoco, é um aborrecimento pop de todo o tamanho. Comparar estas duas faixas com outras tentativas mais pop de Papillon, como “Tenta” (com Silly), um dos pontos altos de Jony Driver, e “Sweet Spot” (com Murta), é noite e dia.
Tudo isto só se torna ainda mais perplexo quando pensamos que, no passado, Papillon já nos mostrou, tanto em Deepak Looper como em Jony Driver, um lado seu bem tenro e bem mais estimulante do que aquele que é apresentado em WONDER. Em Deepak Looper, “o momento mais tocante do disco”, como lhe chamou José Duarte na Playback, é “Imagina”, uma das melhores faixas do artista até ao momento. Em Jony Driver, temas como “Fe.” ou “D.O.R.” revelam a profunda melancolia que assombra o segundo álbum de Rui Pereira a solo. E se falarmos de hooks, chegamos à mesma conclusão. Deepak Looper está cheio deles, e Jony Driver, apesar de ter menos hooks (devido, lá está, à maior importância que o storytelling assume no disco), também possui o ocasional refrão que fica no ouvido, como é exemplo de “Transforma” ou “.Sais e Minerais”.
No entanto, Papillon já tinha deixado pistas no passado para o caminho que iria traçar neste terceiro LP. Por exemplo: “AAA” podia ser uma faixa de WONDER (derrogativo); os sintetizadores de “Desperta”, faixa de Jony Driver, apesar de mais interessantes do que aqueles que se escutam em WONDER, já apontavam para a direção mais espiritual que Papillon pretendia para um futuro que agora é o seu presente; o refrão principal da primeira parte de “.Y”, outra malha de Jony Driver, também revela um Papillon mais cantor do que rapper, e também um Papillon menos eficaz na criação de um hook. Não é como se em Deepak Looper (ou nos GROGNation) alguma vez Papillon tenha demonstrado ser melhor vocalista que rapper (porque não é), mas no passado tinha os instrumentais certos para o ajudar a chegar a um lugar de equilíbrio entre charme e melodia. Se em Jony Driver isso já existia em menor quantidade, em WONDER está praticamente ausente. Onde está a vontade da borboleta explodir para fora do casulo quando grande parte de WONDER, claramente, pretende ser mais experimental do que os álbuns anteriores de Papillon? Porque, atenção: Pretende… mas sem o conseguir. Onde está a garra que tanto caracterizou Papillon?
Contudo, se calhar faz sentido que essa garra esteja mais ausente. O Papillon de hoje não é o Papillon que fez Deepak Looper. Amadureceu e cresceu. Está mais aberto à “descoberta” e à “incerteza”, como declarou na entrevista que concedeu ao Rimas e Batidas. E tal como o título de WONDER aponta, parece que está mais à procura de perguntas do que respostas. Todavia, talvez a maior pergunta que Papillon deva fazer é a seguinte. Se WONDER vai fazer parte do seu legado artístico, porque parece tão vazio de significado?
Numa era onde a música cada vez mais se torna conteúdo para ser tocada de fundo, WONDER até podia ser um disco perfeito para esse paradigma. Contudo, nem para isso parece servir. Custa muito dizer estas palavras, mas WONDER é um álbum desapontante. Se Papillon pretende continuar a traçar o seu caminho rumo à final form, talvez a borboleta precise de regressar ao casulo para refletir um pouco mais sobre o seu futuro musical.