É comum associarmos um músico a um determinado instrumento. No jazz, essa crença é ainda mais forte. Nos domínios da folk, ainda assim, habituámo-nos, desde a década de 60, a ouvir trovadores manifestarem-se com igual intensidade através da guitarra e do piano. Bob Dylan, Loudon Wainright III e Tom Waits representam, nos Estados Unidos, bons exemplos dessas práticas. No rock britânico, certamente a dupla Lennon & McCartney sobressai, tal como Peter Hammill, que divide habitualmente as apresentações a solo com repertório dedicado a cada um destes instrumentos. Em Portugal, Jorge Palma é um nome mais do que evidente neste aspecto. No jazz, excepções existem, algumas excelentes. O caso que emerge desde logo na memória é o do singular virtuoso brasileiro Egberto Gismonti, que reparte a sua produção igualmente entre a guitarra e o piano acústico. Já homens dos sopros como Don Cherry, Mark Isham ou John Surman são fascinados pelos sintetizadores. O grande baterista Jack DeJohnette, recentemente falecido, nutria uma paixão pelo piano, que explorava principalmente em estúdio.
No que respeita ao piano no jazz, Portugal é um país enorme, com figuras tutelares como António Pinho Vargas, Bernardo Sassetti, Daniel Bernardes, João Paulo Esteves da Silva ou Mário Laginha. Um guitarrista de jazz aventurar-se, por cá, de forma absoluta no piano, é um risco que poucos estão capacitados para correr. Mas é precisamente esse o caso do guitarrista Pedro Branco, que com o baterista João Sousa constituem a dupla Old Mountain. Dizer que é um dos projectos mais ambiciosos do actual panorama do jazz feito em Portugal será dizer pouco. Mas a verdade é que ambos os músicos gostam de correr riscos e fazem-no com sumptuosidade, destreza e humor. Em A Narrativa Épica do Quotidiano, primeiro registo a solo de Branco, em 2022, o próprio descreve-o como uma “emancipação e um salto para fora de pé.” Depois, em 2024, vimo-lo ao vivo em trio a mergulhar, sem rede ou preconceitos, nas canções de Marco Paulo, transmutadas para magníficos arranjos jazzísticos na companhia do histórico contrabaixista Carlos Barretto e mais uma vez do seu amigo João Sousa.
“Já passámos dias inteiros juntos a pensar sobre música, a pensar sobre o futuro, a ouvir coisas, já passámos meses sem nos vermos. Já discutimos por tudo e por nada, já chorámos juntos, já rimos muito. Tudo isso moldou o som do projecto ao longo dos anos, mais do que o papel e a caneta poderiam fazer”, referia Pedro Branco na recente entrevista concedida a Rui Miguel Abreu para o Rimas e Batidas, antecedendo a apresentação ao vivo de Another State of Rhythm, que é já o terceiro trabalho dos Old Mountain. Editado em 2024 pela extraordinária editora portuguesa Clean Feed, com Pedro Branco a trocar as cordas da guitarra eléctrica pelas do piano acústico, foi considerado um dos melhores discos de jazz publicados em Portugal nesse ano. Era assim com enorme expectativa que o Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém (CCB) aguardava, no passado dia 7 de Março de 2026, a apresentação ao vivo deste álbum.
Pedro Branco entra em palco, senta-se (ao piano) e começa a tocar. Segue-se-lhe João Sousa. Depois, João Hasselberg, que se junta à música e enche o espaço com duas notas ao mesmo tempo que ergue o contrabaixo do chão… Mais um contrabaixo, o de Hernâni Faustino. Ambos participaram na gravação do álbum. Por último, José Soares, que confia no seu saxofone alto para representar o tenor do saxofonista norte-americano Tony Malaby, que participou na gravação do álbum. Malaby é uma das figuras de proa do catálogo da Clean Feed, que ao longo do último quarto de século tem proporcionado encontros felizes entre músicos de diferentes latitudes. Durante o concerto, tanto Pedro Branco como João Sousa destacam a amizade que os une e a relação que mantêm com estes músicos. É um jogo de afinidades e cumplicidades. Na apresentação ao vivo de Another State of Rhythm, a abertura é uma surpresa: uma composição que não faz parte do alinhamento do álbum. Intitulada “Aurora”, foi composta por Pedro Branco para dedicar à sua afilhada — a filha de João Sousa.
Depois de “Aurora”, começa a apresentação das peças do álbum, com “Giraldo” e “The Sixth Commandement”. Excelente captação de som, da responsabilidade de Tiago de Sousa, com destaque para o saxofone. A música é profundamente bela e a interpretação exímia. Vive entre a energia libertária e uma certa evocação, por vezes transcendente. “Ballad for Paul” constitui uma homenagem. Nascida em Parallels, o álbum de estreia dos Old Mountain, teve uma reprise mais tarde, nesse mesmo ano, no segundo álbum do grupo, intitulado This is Not Our Music — foram editados pela Nischo, outra editora de referência do jazz nacional, e em ambos Pedro Branco surgia na guitarra eléctrica. “São duas melodias que se vão entrelaçando e que foram compostas em homenagem ao nosso herói musical Paul Motian”, afirmava Pedro Branco na referida entrevista ao Rimas e Batidas. A assumida influência do baterista Paul Motian (1931–2011) na estética dos Old Mountain remete-nos para a década de 80, em obras como It Should’ve Happened a Long Time Ago, do Paul Motian Trio, ou deste baterista integrado no quarteto do pianista Paul Bley, em gravações para a editora ECM. Old Mountain ao vivo no CCB é uma experiência que vive tanto do diálogo entre os instrumentos como do silêncio. Sousa está ladeado pelos dois contrabaixistas. As tessituras e a paleta de cores são riquíssimas, com os músicos a explorarem as várias capacidades dos instrumentos. Em “Montanha”, que fecha formalmente o concerto, o contrabaixo friccionado de Hasselberg junta-se agora às vozes do piano e do sax alto de José Soares. Na plateia, ouve-se a voz da pequena Aurora. Hasselberg sai do palco e surge a dar a volta à plateia. Passa à nossa frente e atrás de Aurora, entoando a melodia em tom nasalado, como um eco da montanha.
No encore, “Good Night Irene”, do trovador Leadbelly, peça fundamental do grande cancioneiro norte-americano. Termina o concerto da mesma forma que o disco se inicia. Pedro Branco questionara se, nestes dias que vivemos, a música ainda faria sentido. Ao ver uma sala cheia, dissipou as dúvidas. Sobre a prestação do quinteto, foi um excelente exemplo da vitalidade e estado de graça do jazz português da actualidade. No final, a sós, o próprio Pedro Branco confessava-nos a admiração por outros grandes pianistas, como Thelonious Monk e Misha Mengelberg, e como um piano no Bar Irreal, em Lisboa, tinha contribuído para esta paixão. Old Mountain: New Mountain.