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Ilustração: Riça

Techno, house, hauntology e outras ondas.

Oficina Radiofónica #32: Cherry Red / funcionário / turva

Ilustração: Riça

A Oficina Radiofónica é a coluna de crítica de música electrónica do Rimas e Batidas. Música Electrónica? Sim. Techno e footwork, house e hauntology, cenas experimentais, ambientais, electro clássico e moderno, drum n’ bass e dubstep, dub e o que mais possa ser feito com sintetizadores e caixas de ritmos, computadores e osciladores e samplers e sequenciadores e outras máquinas que façam “bleep”, “zoing”, “boom” e “tshack”.



[Vários Artistas] Musik Music Musique / Cherry Red

Houve um momento singular no continuum da música pop cujas “ondas de choque” (movidas a 110 ou 220 volts…) ainda hoje se fazem sentir. Aconteceu quando uma revolucionária ferramenta, o sintetizador, permitiu a toda uma geração inventar uma nova linguagem para a música popular. Como, talvez, apenas duas outras “ferramentas” – a guitarra eléctrica, antes, e o computador, depois –, o sintetizador forçou mudanças profundas na forma como se pensava e fazia música, mas, ao contrário desses outros instrumentos, o impacto do sintetizador fez-se sentir num momento muito mais concentrado de tempo: tanto a guitarra eléctrica, como o computador resultaram de tecnologias específicas que foram sendo melhoradas e aprimoradas ao longo de vários anos ou até décadas, com o público a poder acompanhar em grande escala esses mais lentos e espaçados desenvolvimentos. Mas o sintetizador conheceu uma explosão concentrada, algures entre 1978 e 1982, quando o mercado foi inundado por uma série de modelos suficientemente baratos para funcionarem como uma alternativa bem mais imediata do que a guitarra que, nos anos 70, se tinha visto elevada à condição de instrumento só dominável na perfeição por uma “raça superior” de guitar heroes. Mas, alimentados pelo fervor urgente do punk, os adolescentes que em 1979 ou 1980 adquiriram sintetizadores acreditando que um dedo apenas serviria para extraírem som suficiente para expressarem os seus anseios participaram numa revolução sem paralelo.

Claro que já havia sintetizadores comercialmente disponíveis desde pelo menos finais dos anos 60, mas o que inicialmente estava apenas ao alcance de músicos milionários dispostos a investir nos pioneiros monstros modulares o mesmo que à época custaria uma pequena casa ou um bom carro, uma dúzia de anos mais tarde estava suficientemente acessível para que uma nova geração oriunda da classe operária trocasse os pedidos de bicicletas no natal por pequenos modelos de marcas como a Korg ou Yamaha. E pegando no distinto exemplo dos alemães Kraftwerk, uma série de miúdos espalhados pelas cidades industriais do Reino Unido começaram a acreditar que uma dessas caixas cheias de botões, possíveis até de serem adquiridas às prestações, encomendadas através dos mesmos catálogos de venda postal em que as mães encomendavam os seus faqueiros ou batedeiras eléctricas, bastaria para começarem a fazer barulho no quarto, na cave ou na garagem.

Musik Music Musique – 1980 – The Dawn of Synth Pop é o título de uma nova compilação da Cherry Red que pinta precisamente esse retrato, não se limitando ao Reino Unido e deixando claro que o impulso electrónico para a construção de uma nova ideia de pop era um fenómeno disseminado, capaz de alcançar o Alasca (do mítico Gary Sloan) ou a Austrália (dos Metronomes), a América (dos Suicide) e a Europa continental (de Taxi Girl, D.A.F., Yello…). O sintetizador falava o novo esperanto.

São quase 6 dezenas de faixas as que se alinham neste triplo CD, combinando nomes bem conhecidos como os OMD, Fad Gadget, The Human League, Toyah, Suicide, Ultravox, Hazel O’Connor, Spandau Ballet, Kim Wilde, John Foxx, D.A.F., Philip Lynott (exacto, esse mesmo), Japan, The Residents, Buggles, Yello ou Visage, figuras de culto da estirpe de Der Plan, Pauline Murray and the Invisible Girls, Silicon Teens, Gary Sloan and Clone, Berlin Blondes, The Korgis ou Eyeless in Gaza e LA Dusseldorf com personagens mais obscuras como Xynn, Rod Vey, Dark Day, Henriette Coulouvrat, Genocide, Blood Donor, Karel Fialka ou The Red Squares. Essa pluralidade de dimensões confere óbvia espessura ao trabalho antológico que aqui se apresenta, reforçando a nitidez do retrato proposto, numa viagem estética que percorre a distância entre a inocência pop de dois acordes e a experimentação sónica mais obtusa.

Com o grosso dos temas a ter sido editado em 1980, um par de excepções datadas (às vezes no sentido mais figurado do termo) de 1979 ou 1981 oferecem a moldura a este nítido e revolucionário retrato feito de bleeps e bloops, de melodias monocromáticas, ritmos quadrados, vozes despidas de emoção e arranjos brutalistas como a arquitectura, resultando em temas feitos de ângulos rectos e servidos por perspectivas geométricas. Uma delícia, portanto.



[funcionário] Gaiden / Variz

Em Novembro passado, Pedro Tavares, aka funcionário, lançou este espantoso Gaiden na Variz, trabalho que, pelo menos a acreditar numa busca rápida no Google, não mereceu a atenção que obviamente merecia (e continua a merecer). Já este ano, Tavares assumiu 50 por cento de responsabilidades em Exílio, álbum dado à estampa, uma vez mais, pela Variz e que conseguiu um mais significativo grau de visibilidade. Por aqui afirmou-se que esse “Exílio é um delicioso tratado sobre as melhores raves baleáricas que só aconteceram nos nossos sonhos e que por isso mesmo são imaculadamente perfeitas”. Talvez, e esse será um óptimo efeito colateral desse Exílio, essa atenção dada a Império Pacífico leve mais algumas pessoas a descobrirem este Gaiden. Foi o que aconteceu a quem assina estas linhas… Entretanto, a participação de funcionário na antologia Turva que acaba de ser lançada, e que também merece, mais abaixo, a atenção desta coluna, terá, desejavelmente, o mesmo efeito.

Há muitos pontos de contacto entre Gaiden e Exílio, como seria de esperar, para lá da óbvia sintonia formal (trata-se, afinal de contas, de música electrónica feita, certamente, com ferramentas similares): há um hipnótico – ou até, talvez, se deva escrever “psicadélico” – sentido de deslocação temporal, como se esta música fosse produzida num qualquer limbo só acessível por um portal aberto na nossa memória. O título remete-nos, claro, para um imaginário japonês e a música faz jus a essa promessa, não apenas com certos laivos melódicos e samples de voz (como acontece no tema que dá título ao álbum), mas sobretudo com a aura algo “blade runneriana” que nos remete para um certo universo de bandas sonoras e que a espaços até nos leva a pensar nalgumas obras de Ryuichi Sakamoto (as mais tranquilas passagens de Mister Heartbreak ou Home of The Brave de Laurie Anderson também se alinham com algumas das pistas aqui percorridas).

Nesse sentido, de recriação laboratorial de um universo cultural distante, é impossível não pensar na exótica ideia de “quarto mundo” tantas vezes já referenciada nesta coluna. “Legerdemain” é apenas um dos exemplos possíveis, com o que se supõe serem VSTs a evocarem os pads hoje tão valorizados do DX7 na sua exuberância tímbrica que permite a construção de sintéticas e profundamente sedutoras peças de vincada personalidade melódica e harmónica.

funcionário é um eficaz designer de mundos imaginários, um autor de etéreas bandas sonoras para fantasias de néon e cores diáfanas, música perfeita para ser escutada em profunda imersão que favoreça um grau máximo de atenção aos pormenores texturais que se entrelaçam como fina filigrana sónica. A tranquilidade da sua música, apoiada em pulsares rítmicos dolentes, pede um discreto sistema de som montado num daqueles ultra-estilizados jardins japoneses, com direito a árvores em flor, bambus e pequenos lagos com carpas koi. À falta de um cenário assim, um bom par de auscultadores e os olhos bem fechados podem surtir o mesmo efeito. Experimentem.



[Vários Artistas] TRV001 / turva

Sobre a nascente turva, novo projecto editorial que se estreia com esta antologia TRV001, podem ler a esclarecedora entrevista que os seus responsáveis, Alexandre Alagoa e Luís Neto, concederam a Vasco Completo. Ambos integram também o alinhamento da compilação que pretende oferecer uma amostra da “versatilidade” que pretendem explorar com o selo.

Embora se explorem diferentes nuances da electrónica contemporânea nas oito faixas aqui apresentadas, com derivas mais ambientais nuns casos, mais vincadamente rítmicas e propulsivas, noutros, pode também argumentar-se que se sente por aqui uma evidente consistência na exploração de uma paisagem pós, digamos, “warpiana”, talvez mais alheada da cultura rave clubística e mais próxima de uma certa tradição experimental, mas ainda assim síncrone com o lado mais exploratório da editora britânica que, em boa verdade, é mesmo inescapável referência para quem opere nestes domínios, tal a amplitude do seu catálogo.

Para lá dos temas dos homens do leme da turva, Neto (“Malonko”, logo a abrir, estabelecendo uma base minimal e cinemática para o que se há-de seguir) e Alagoa (“it goes on without us”, tema de contornos ambientais, muito apoiado no sound design e num minucioso trabalho textural), há que referir a presença (já atrás mencionada) de funcionário no alinhamento com “Corrida Onda Sky” um tema que, curiosamente, cumpre tudo o que o título promete: mais um pedaço de luz arrancado à memória, derrapagem subtil por ecos de uma infância solarenga, sem marcação rítmica à vista.

Cliplinarian oferece-nos “arps___”, mais um belíssimo trabalho de minúcia ambiental que joga com o campo de stereo provocando um apreciável sentido de deslocação espacial sobre o qual evoluem pequenos pedaços de cristal aural, ao passo que Z em “—.-.-..-“ (código morse?), emerge do silêncio para se desenrolar como uma peça de minimal propulsão com o que se poderia descrever como uma espécie de urgência contemplativa em crescendo que se resolve dissolvendo-se no ar de volta ao silêncio. Lorr No com “alfg1” protagoniza o momento mais ritmicamente vincado, embora com um soluçante carácter desconstrutivo. E tanto AG.R97 com “009” como Martiška com “Bine” voltam a apostar em passagens mais tranquilas, com o primeiro desses temas a servir-se de um hipnótico efeito elíptico de deslocação rítmica (como se o motor do gravador de cassetes em que porventura possa ter sido gravado o master estivesse com um problema qualquer que causasse uma oscilação na velocidade) e o segundo a soar a fresca neblina marítima que nos envolve com uma fina camada de seda textural.

Este TRV001 tem edição em CD de elegante design impresso em digipack de quatro painéis, o que é, em si mesmo, uma declaração de intenções: a turva, contrariando o nome, parece apostada em deixar uma nítida marca no nosso ecossistema electrónico. A julgar pela primeira edição, tudo indica que as suas intenções poderão ter naturais consequências. Venha de lá TRV002 para se confirmarem as nossas suspeitas.

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