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Fotografia: Direitos Reservados

Entre a música e o vídeo.

turva: “O nosso interesse principal está na qualidade material e plástica dos artistas”

Fotografia: Direitos Reservados

Um novo projecto editorial acaba de surgir com a sua primeira compilação, TRV001. turva é uma editora audiovisual fundada por Alexandre Alagôa e Luís Neto e foca-se na produção experimental feita em Portugal, ambicionando ainda criar eventos e um catálogo diversificado dentro da arte mais desafiante que se faz na actualidade.

Logo diferenciadora pela maneira como procura explorar a música e o vídeo experimental, mas também instalações sonoras e performance, a turva inicia-se com um conjunto de músicas sofisticadas, criadas por um elenco de músicos experientes, de contextos incomuns, apontando em imensas direcções em apenas oito músicas – mas sempre duma perspectiva aguda e exploratória, na qual o ambient é composto por elementos electrónicos, mas também por instrumentos acústicos ou sons samplados.

À conversa com os fundadores do projecto, o ReB situou o presente e o futuro da editora e a sua inclusão no panorama artístico mais experimental.



Como surge a turva? Quais são os pilares da editora?

A turva apresenta-se como uma nova editora audiovisual dedicada à produção e publicação de arte experimental. É um projecto que surge por várias razões.

Primeiro, surge da nossa contínua colaboração e desejo de criar uma plataforma para lançarmos o nosso trabalho. Sempre acompanhámos os projectos um do outro muito proximamente e, tendo em conta que um (Alexandre) trabalha sobretudo num registo de cinema experimental, e outro (Luís) em composição musical e arte sonora, começámos a sentir uma necessidade cada vez maior em criar um ponto de cruzamento entre as nossas abordagens – como forma de nos apoiarmos na produção de trabalho, bem como na apresentação das nossas peças. 

Segundo, como forma de criar um espaço receptivo à colaboração entre vários artistas – tentar apoiar pessoas cujo trabalho admiramos, que fomos conhecendo através dos estudos, bem como por via dos trabalhos e exposições em que temos vindo a participar. 

Nós, no fundo, queremos é continuar a fazer aquilo que sempre temos vindo a fazer: produzir e apresentar trabalho, sejam peças sonoras ou instalações de vídeo para contexto de galeria, sejam concertos ou performances para apresentação ao vivo, sejam filmes para sala escura. Aliamos agora a tudo isto à publicação editorial, e a turva torna este processo mais fácil, pois o trabalho de grupo revela-se muito mais produtivo e rentável, e acabamos por criar também um registo – um arquivo – daquilo que andamos a produzir. 

Porque escolheram funcionar como uma editora audiovisual? O foco é aliar o som e o áudio, numa proposta transversal; ou antes dar espaços diferentes aos vários mundos individualmente?

A escolha foi imediata. Ambos trabalhamos com vídeo e som. Os artistas que admiramos e com quem convivemos também produzem um trabalho muito diverso – desde som, fotografia, vídeo, escultura, instalação, pintura, etc. Neste sentido, considerámos que seria mais determinante afirmar a turva como um espaço de intersecção entre o lado da produção artística audiovisual, com toda a sua dimensão experimental e conceptual, e o lado tradicional da publicação editorial, com a criação gráfica de objectos (como CDs, vinis, cassetes, DVDs, etc) e a sua respectiva disseminação e apresentação em espaços/instituições culturais. No futuro queremos também explorar outros formatos de edição.

O objectivo é seguir um critério informe, híbrido, na medida em que há uma aliança constante entre abordagens diversas. Tanto há o interesse em lançar um álbum de música electrónica, como um álbum de piano clássico, editar um CD/DVD de uma banda de jazz a improvisar ao vivo, produzir um filme experimental, ou produzir manualmente um objecto escultórico/plástico único que pode ser apresentado enquanto tal. O nosso interesse principal está na qualidade material e plástica dos artistas, na relação histórica e conceptual que estabelecem com o universo sonoro e visual, bem como na inovação e experimentação que revelam com os seus meios. Sempre que nos for possível apoiar um trabalho neste contexto, iremos fazer o nosso melhor para o representar genuinamente.

Falem-nos um pouco desta compilação e dos artistas que foram escolhidos para apresentar a editora.

Sendo a primeira edição, queríamos reunir vários artistas com abordagens diferentes, de forma a incentivar esse carácter versátil que queremos atingir e manter. São pessoas que conhecemos ao longo da faculdade e do meio artístico, e que de imediato se mostraram receptivos para trabalhar connosco.

O Guilherme Curado (ciplinarian) trabalha entre meios, cruzando vídeo e som com 3D e instalação, construindo paisagens utópicas virtuais. A imaterialidade, a fluidez, os reflexos, em diálogo com o corpo e com a identidade, servem de ponto de partida para a sua reflexão sobre a experiência contemporânea.

O Pedro Tavares (funcionário) já tem um percurso bastante marcado no meio artístico, nomeadamente no que diz respeito à música electrónica, tendo já editado pela Variz, onde lançou Gaiden como funcionário, tal como o álbum de estreia da sua banda Império Pacífico, Exílio

Z trabalha numa base multidisciplinar, cruzando imagem som, espaço, objecto, palavra, numa tentativa de relação dentro/fora, transformando, transgredindo. E sempre “any resolution comes from personal revolution” (Annete Peacock).

O Nuno Loureiro (Lorr No) é um músico portuense que faz parte de vários projectos como os Fugly e os Solar Corona, tendo já editado o álbum a solo Learning Exercises on How to Move On como Mada Treku pela Favela Discos.

Em relação a nós, o Luís Neto (Neto), é um músico/artista sonoro que, anteriormente a trabalhar a solo, fez parte da banda de metal progressivo Shell From Oceanic, tendo lançado dois álbuns: Ambivalence e How to Let Go. Desenvolve também outros trabalhos como baterista/compositor, tal como engenheiro de som. O Alexandre Alagôa (Alagoa) produz trabalho audiovisual, e apresenta uma composição numa harpa eólica, construída em madeira, e explorada de várias formas – com arco de violino, percussão, cordas, e por via de gravadores e piezos (sensores piezoeléctricos).

Em relação a AG.R97 e Martiška, são dois projetos distintos de pessoas que nos são próximas e preferem permanecer no anonimato.

Para além dos músicos, é preciso também falar da equipa de imagem. A Elisa Azevedo produziu a fotografia para a compilação. O designer Daniel Martins (AALTAR System) realizou o logótipo e artwork para o projecto, e acompanhou de forma determinante todo o desenvolvimento de branding e identidade visual da turva. O trabalho de ambos foi essencial para garantir a qualidade do resultado final, com o qual estamos muito contentes.

Estamos muito agradecidos à equipa por toda a dedicação e trabalho para esta primeira edição. Esperamos agora manter sempre essa coerência e contacto ao longo das próximas edições.

Houve algum conceito ou ideia-base para guiar os músicos para esta primeira compilação?

Não, os músicos tiveram liberdade total. Nunca colocámos nenhuma premissa para a composição das peças. Pelo contrário, escolhemos estes oito precisamente pela variedade que contávamos que nos fosse apresentada. Apenas pedimos a cada um que não escolhessem uma música que se inserisse em qualquer trabalho já por eles publicado, mas que criassem algo exclusivo para a edição. 

Por conseguinte, o desafio foi lançado também a nós próprios – tentar chegar a um objecto gráfico que, visual e conceptualmente, respeitasse a variedade e singularidade das músicas, e que assegurasse igualmente uma coerência visual e de continuidade para com as edições futuras da turva. Mais uma vez, o designer Daniel Martins (AALTAR System) e a fotógrafa Elisa Azevedo tiveram um papel determinante nesta parte. 

E aqui sim, já houve alguma investigação, e imensa experimentação: explorámos algumas ideias como ponto de partida para aquilo que é – ou que queremos que seja – a turva. Foi um processo longo, com imensa discussão, caótico por vezes, o que é típico em qualquer trabalho. De tudo isso se desvela a palavra “turva” que materializa, de um modo abrangente mas preciso, a ideia de algo indefinido, em agitação e em constante mutação.

Quanto à dinâmica dos artistas com a editora: é suposto funcionar como um colectivo, ou são lançamentos independentes com artistas convidados? Têm já ideia de como pretendem trabalhar, ou não há regras? 

Não funcionamos propriamente como um colectivo que trabalha sempre com os mesmos elementos, embora tenhamos todo o interesse e vontade em continuar a trabalhar com os artistas que já colaboraram connosco. De igual modo, estamos sempre receptivos a propostas de novos projectos, e atentos ao que se anda a fazer por aí. A ideia é sempre aproximarmo-nos de artistas cujo trabalho admiramos: tentar apoiá-los na produção de um objecto e, ao mesmo tempo, expor e apresentar o trabalho ao vivo. 

Não há regras no sentido de que não queremos impor limites aos trabalhos apresentados, mas há padrões que queremos manter no que diz respeito à qualidade das produções e dos objectos publicados. 

Sendo que também tencionam apostar em filme experimental e instalações sonoras, as propostas de eventos terão de ser diferentes duma típica apresentação em concerto/DJ set, não é? Não sendo a melhor altura para falar disso, que dinâmicas já pensaram explorar para “contactar” com o público futuramente? 

Sim! Ao afirmarmos o projecto enquanto editora audiovisual, abre-nos logo uma série de possibilidades. Neste sentido, o contacto com o público tem dois lados principais. 

Primeiro, o lado editorial, através da venda e distribuição das nossas publicações. Queremos investir no sentido de arquivo, de criação de objectos gráficos/plásticos de qualidade, nesse carácter de colecção e distribuição que tem vindo a tornar-se mais raro, sobretudo no que diz respeito ao filme experimental. Achamos que é importante falar em influências como o Jonas Mekas que, em conjunto com outros artistas e teóricos, realizou um trabalho colossal de apoio à disseminação e distribuição de cinema experimental através da sua Cooperativa e da Anthology Film Archives. Há outros exemplos muito bons neste âmbito: a Revoir, uma loja em Paris, que se foca sobretudo em cinema experimental através da edição e distribuição de DVDs, livros e catálogos; ou a Shelter Press, da Felicia Atkinson, editora que faz produção e distribuição tanto de música como de livros de arte e poesia. 

Em segundo, o lado expositivo, através da colaboração com espaços para organização de eventos e apresentações ao vivo. Tanto podemos realizar um concerto ou DJ set/live set para um músico cujo álbum acabamos de editar, como podemos organizar uma sessão de cinema em sala escura para um realizador, ou organizar um conjunto de artistas para expor em conjunto nalgum espaço. O desafio é sempre adequar a apresentação das obras ao propósito conceptual que as potencia e sustenta. Podemos produzir uma peça sonora que faz mais sentido em contexto instalativo do que em álbum e, se tal for o caso, investiremos ao máximo na montagem e exposição da peça num espaço público.

Este actual estranho ambiente, por mais desafiante que seja, oferece-nos também a possibilidade de reflectir sobre outras várias possibilidades de contacto com o público, e como aperfeiçoá-las.

Que trabalhos têm já planeados para os próximos tempos? 

Temos já várias edições em produção. Estamos a trabalhar em edições a solo para alguns dos músicos que participam na compilação. Estamos também a planear uma publicação para um novo filme do Alexandre, que vem no seguimento do anterior, Vortex (2017). É um trabalho que continua uma investigação longa no “filme estrutural”. 

Temos mais alguns projectos em calendário, mas preferimos deixar mais pormenores aquando dos lançamentos!

Como vêem o panorama da música experimental (âmbito em que a vossa música se insere) actualmente?

O panorama experimental sempre foi super rico e diverso em Portugal. Temos espaços, festivais e eventos excelentes que têm apoiado a música, o cinema e os audiovisuais de forma contínua, e artistas a produzir trabalho de grande qualidade.

Como duas pessoas que estiveram fora do país a estudar e trabalhar (Luxemburgo e Bélgica), só depois destas experiências é que conseguimos realmente perceber a qualidade da arte que Portugal oferece. Por vezes, sentimos que fazemos parte de um país que não dá tanto valor às suas coisas como as pessoas lá de fora. Apesar disso, achamos que há um crescimento substancial na oferta e procura de arte experimental nos últimos anos e que só poderá continuar a crescer. Ao mesmo tempo, não estamos iludidos – sabemos que arte experimental será sempre arte experimental e, por isso, algo que é feito sem propriamente pensar num resultado comercial e fácil de consumir. De qualquer das formas, sentimos que há um apoio grande e mútuo dentro do meio, e isso é o que mais nos interessa, é nessa colaboração que queremos continuar a investir – independentemente das circunstâncias e dificuldades, vamos continuar a fazer isto porque, no fundo, não consideramos sequer a opção de não o fazer.


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