O trio bracarense OCENPSIEA, que há 10 anos anda nisto de dar à escuta novos rumos nos campos do jazz, estreou-se no extremo sul do país — no esplendoroso Teatro Lethes, em Faro. Os Dias do Jazz são também eles tempos onde esta música, que mais traz indefinidas conjunções das notas (para além das azuis) se implanta junto à cidade sulista portuguesa. Um aroma acarilado surge em corredores odoríferos na orla da cidade. É a acção perfumante do helicriso, a erva perpétua-das-areias. Prenúncios do que mais adiante surgirá no palco do Lethes. Lá onde a proto-platibanda da fachada, do antigo colégio e mais tarde teatro, nos indica o título “Monet Oblectando” — apontando ao sentido da instrução através da cultura. Para o programador do festival, que é organizado pelo Teatro das Figuras, a escolha desta formação estava-lhe na vontade, desde que deles escutou Oceano-Mar (ed. autor, 2021), pela inventividade que deles se fazia ouvir.
Oh Chefe, Eu Não Pedi Sumol, Isto É Água — OCENPSIEA, para que conste e ajude a melhor dizer de cor e sem atropelos, ao que se pode tornar um trava-línguas nestes dias. A exemplo fizeram disso mesmo um exercício de linguagem sonora, em certo dia, com “Isto é Água”. Tema em que o arranque fica a cargo de uma colagem de locuções radiofónicas na apresentação do nome da banda. Agora o quarteto condensou-se num trio e João Nuno Teixeira Vilaça (bateria e electrónica), Gonçalo Cravinho Lopes (baixo eléctrico) e João Ferreira (teclados) servem neste ano redondo de 2026 um disco que trouxeram do final do ano passado — Ensaio Sobre a Surdez. Continuam destemidos e inventivos a trilhar novas veredas nisto que fomos apontando desde há muito como de jazznaojazzpt. Cruzamentos e mudanças, como melhor explicaram a Ricardo Farinha, em entrevista para o ReB, Teixeira Vilaça e Cravinho Lopes, dando conta que este quarto álbum é uma aventura ainda mais destemida, pejada de virtuosismo instrumental.
Mas há uma ideia de todo em todo clara, ao título da obra do escritor, com a apropriação e desvio do sentido dos sentido. E se de Saramago se aponta a um outro sentido disfuncional, perturbando não a visão mas a audição em tese, dele OCENPSIEA melhor apontam trazendo a sua voz samplada. Como quando concerto adiante servem “Espaço” e do escritor escutamos a voz serena e sabedora para referir “O céu não existe. O que é isso céu? — O espaço…” Assim, definido melhor o lugar, como que sugerindo um conceito de Sun Ra. Desafiando a noção prévia da matéria dada, servem um par de temas não inscritos em álbum algum — estreias efectivas, dadas a uma primeira escuta pública. Parece faltar alguma madurez aos temas, sabem disso e não o escondem — assumem-no em confissão. Mas nisso há um privilégio associado, como que acedendo ao laboratório até mais que um palco. De facto na boca de cena do Lethes, no confronto das pinturas em classicismos da música sobre a madeira — à la Scala, de Milão —, a envolvente acústica parece descrever um arco diáfano — entre o encanto remoto e o futuro em perspectiva. Tal como nessa “Malha Cósmica”, em que a densa matéria do baixo de Cravinho Lopes faz ressoar a madeira, e as frases cintilantes das teclas de Ferreira se entrelaçam entre a sincope da batida desenhada pelas mãos laboriosas de Teixeira Vilaça.
Encontramos no lugar central de palco uma noção precisa e visualmente esclarecida de OCENPSIEA. A bateria em modo de analógico-digital. Uma idealização sonora a ligar o orgânico e o electrónico, num mar aberto de possibilidades rítmicas — uma tarola, um timbalão e dois pratos para um pad disposto para servir o som que não se vê, e mesmo o pedal de bombo aponta bater no infinito das ideias sonoras. É desse núcleo ritmo-tempo que o trio tem efectivo maior deslumbre e novas ideias. Das teclas surgem reforços do novo espaço, esse mesmo que outras aventureiras nos têm demonstrado como apontando a Lana Gasparøtti, a Femme Falafel, ou passando por Débora King. A todas essas emanações de teclados-sintetizadores, feitos de uma miriade de paisagens e (im)possibilidades se serve este presente-futurista do jazz nacional, que se reinventa como num fim de princípio. Apela-se aqui, por tanto, a um presente em escuta, como nesse fundamento que se volve, e por partes, este Ensaio Sobre a Surdez, em palco.
Há (que) “Subsistir”, em presença desbravante instrumental e denunciadora nas palavras. “Como é que vais poder subsistir Portugal? … as possibilidades são tão poucas… por onde as pessoas se possam defender”, volta a ouvir-se a palavra dita e convocada do nobel escritor. Da plateia aos camarotes há uma reflexão em curso, vinda da escuta que rompe a “imposta” surdez dos dias lá de fora. Esta acção do trio — em palco, e em disco — é um manifesto político através da sua arte dos sons. Já nem se trata de querer só dançar ao som desta música, como alguns temas tanto a isso apontam — pulsar groovesco do baixo e o constante desafio dos compassos vindos das baquetas — mas até mais para fazer pensar, através da escuta em ensaio. Eis que, e como OCENPSIEA tem em bagagem um conjunto mais vasto de temas, recorrem ao seu passado mais recente e dele servem um prolongamento do tempo — que mais parece (nos) ter escapado das mãos — para findarem em modo festivo a sua vinda de (tão) longe a Sul. Houve “Dança Teixeira” e “Esquimó”, ouvidos em entusiasmo, nesse tamanho e destemido propósito.