pub

Fotografia: Gustavo Moita
Publicado a: 17/04/2026

Um novo coletivo de São Paulo que tem origens no punk.

O jazz-fusion brasileiro da Bufo Borealis

Fotografia: Gustavo Moita
Publicado a: 17/04/2026

Assim como a essência do jazz, a Bufo Borealis surgiu do improviso de dois músicos que estavam envolvidos com o punk rock e o hardcore. Por nutrir uma paixão por essa arte, Juninho Sangiorgio, baixista da banda Ratos de Porão, convidou o baterista Rodrigo Saldanha para fazerem um experimento sem muitas pretensões. Antes, eles já tinham criado a Insurgência Ópera de Protesto para tocar rock dos anos 1970 em formato de ópera. Era meio Led Zeppelin, meio Deep Purple. Um tempo depois, cada um seguiu seu caminho. Fascinado pela fase do jazz fusion, do final dos anos 1960 e começo dos anos 1970, o músico enxergou uma possibilidade de fazer algo parecido com o ex-companheiro musical.

“Eu liguei pra ele e falei: ‘Mano, aquela ideia da gente fazer um som diferente juntos, meio jazz, eu acho que a gente consegue fazer, vamos tentar?’”, relembra. “Daí a gente se juntou e um dia ele foi na minha casa. Começamos a puxar vários vinis que eu tenho na minha coleção, a escutar algumas coisas e pegar um caderno para escrever o que poderiam ser as músicas dessa nossa nova banda”.

A escolha dessa vertente foi proposital por considerarem menos acadêmica do que o jazz tradicional. As principais referências foram Miles Davis e Hermeto Pascoal.  Na visão deles, fugia da técnica e do virtuosismo prezado pelos músicos. “Começamos gravando umas linhas de baixo, bateria e um piano elétrico que tenho em casa”, diz. “Comecei a achar umas notas, tocar guitarra e a demo acabou virando o nosso primeiro disco, Pupilas Horizontais (2020)”. Depois de criarem a base, convidaram outros instrumentistas para encorpar as músicas. “A gente chamou o Paulo Kishimoto, que tá com a gente até hoje, pra tocar sintetizador, umas coisas de teclas e percussão. Chamamos também o Anderson Quevedo, que é o nosso saxofonista. Além deles dois, a gente chamou algumas pessoas: Bruno Buarque, que toca com o Crioulo, Edgard Scandurra, Rogério Martins, Tiago Frúgoli”. Os dois primeiros álbuns [Pupilas Horizontais (2020) e Diptera (2022)] nasceram basicamente a partir de fragmentos criados espontaneamente, sem um planejamento.



Essa distinção na forma chamou a atenção da curadoria do Sesc Jazz, de 2021, um dos maiores festivais do gênero no Brasil. Juninho diz que foi surreal porque foi logo depois da feitura do disco de estreia na fase inicial da pandemia de COVID-19. 

“Aquele primeiro disco vendeu muito rápido, estava todo mundo em casa, todo mundo ficou escutando na época, e aí caiu no ouvido da galera do Sesc”, afirma. “E aí falaram: ‘Esse projeto de vocês é legal, vamos fazer um show lá no Sesc Jazz?’ Como naquele período o pessoal não estava viajando, teriam que ser todas as bandas de São Paulo, um esquema reduzido para o público, mesmo com a vacinação acontecendo. Então foi uma boa resposta”.

Na contramão dos anteriores, o álbum Natureza, de 2025, foi gravado em estúdio profissional. A estrutura mudou e a construção musical também. Para deixar o trabalho mais plural, convidaram Paulo Kishimoto, Tadeu Dias, Anderson Quevedo e Vicente Tessara para contribuírem nas composições. Cada um compartilhou suas ideias para que o processo fosse mais colaborativo e ganhasse corpo. “A produção é fenomenal, e o som e a sonoridade são muito acima dos dois primeiros”, observa Juninho, que também detalha como nascem os temas: “A maioria das vezes a gente chega pra ensaiar, montamos o set, aí alguém vai tocando uma parada e fala: ‘Meu, isso aqui tá legal, vou acompanhar.’ Aí um pega o celular e grava a ideia. Às vezes, por exemplo, eu faço uma linha de baixo em casa, levo para o ensaio e a galera complementa. É super livre. A não ser que alguém chegue e fale: ‘Eu tenho uma música pronta, começo, meio e fim’”. Essa dinâmica também é replicada nos concertos, o momento ideal para evoluírem aquilo que está gravado.

“A gente tem uma forma bem livre de compor e sempre pensa que as músicas vão ser tocadas de outras maneiras. Se você for lá no YouTube e ficar vendo todas as vezes que a gente tocou uma mesma música em vários outros shows, você vê que a sempre tocamos elas de tamanhos e velocidades diferentes. Depende muito do clima do show, do local, como cada um passou o dia e foi influenciado na semana. Então, a gente tem bastante liberdade dentro da nossa música. Essa é uma parte muito legal porque não fica nunca enjoativo de tocar, sabe?”

Sei muito bem como é, pequenos detalhes fazem toda diferença. Até comparamos com o Max Roach só tocando um címbalo, fazendo o contato das baquetas com aquela única peça da bateria ressoar grandiosamente. “Esse vídeo do Max Roach emociona mais do que uma orquestra que tem 150 pessoas tocando”. Pensando nisso também, pergunto para Juninho o que ele considera ser jazz, levando em conta que essa arte musical já passou por diferentes transformações, morreu, renasceu e continua relevante e em constante transmutação.

“É a liberdade musical e espiritual, porque foi uma música que começou dentro da comunidade negra. Tem muito ainda aqueles resquícios da escravização, daquela história toda ali do sul dos Estados Unidos também, e aquilo foi uma forma de sair um pouco daquela realidade que era muito pesada para aquela época, e essa galera encontrou uma forma de se rebelar dentro da música, fugindo dos padrões das branquitudes dessa época”, observa. “Por isso que eu acho que a gente consegue criar coisas que de repente não estão tão dentro do padrão, mas você supera e respeita o padrão e tenta trabalhar em cima daquilo, e às vezes as pessoas escutam e gostam. Então, eu acho que essa liberdade aí, ela resume bem o que é o jazz no mundo”.


pub

Últimos da categoria: Entrevistas

RBTV

Últimos artigos