O Bairro’19 – Dia 2: Dealema e Papillon, mestres e discípulo a levarem artes à rua

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] António Carrapato

“Évora sente e expressa a sua urbanidade como se toda a cidade fosse apenas um bairro, em que todos, habitantes e visitantes, estão em casa e não encontram entraves à sua criatividade”. A frase vem do programa oficial d’O Bairro que ontem conheceu a sua segunda jornada com apresentação, pela tarde, do duo Nevahbrainz e, pela noite, dos Dealema e de Papillon.

De facto, pensar a cidade como um bairro é, à luz deste presente feito de severas dinâmicas de gentrificação derivada da pressão turística a que Évora claramente também não está imune, uma ideia feliz: a cidade pertence a quem nela quer habitar, a quem nela quer criar. E neste bairro, já deu para perceber, há muita gente cheia de vontade. Gente de dentro e gente que, vinda de fora, é muito bem vinda.

O dia ontem começou com Tchino e OSK, dupla de punchliners bastante activa nos últimos anos nesta cidade alentejana. Ocupada numa mesa redonda com alguns dos protagonistas da Faz-Me Um Beat Big Band (resultados a conferir em breve nestas mesmas páginas), a reportagem do Rimas e Batidas não conferiu a passagem dos Nevahbrainz pelo Jardim Público, mas dela escutou ecos positivos. Falta a colmatar na primeira oportunidade, certamente.

Quando o calor ainda castigava quem se aventurava, ao início da tarde, pela central Praça do Giraldo, foi possível assistir aos soundchecks de Papillon e Dealema, dois importantes nomes da cultura das rimas e batidas do nosso país que, aqui, quase se apresentaram como uma moldura da própria história: veteranismo em marcha desde 1996 a partir da Invicta, de um lado, protagonismo a solo do membro dos GROGNation evidenciado com a estreia em formato grande em 2018, do outro. Dois tempos, duas vozes, duas atitudes distintas, um mesmo respeito pela cultura que ecoa nas paredes deste bairro.

Os Dealema foram os primeiros a subir ao palco, pelas 22 horas. Por esta altura, quem assina estas linhas já há-de ter visto o colectivo dealemático em palco dezenas de vezes e nos mais diversos contextos: em múltiplos festivais, de norte a sul do país, em clubes de capitais e em festas de província. Mas ontem, vê-los na Praça do Giraldo, antes da multidão se agigantar em frente ao palco, quando ainda se percebia que nas mesas das esplanadas da praça havia muita gente sentada de olhos postos no quinteto, formou-se uma imagem curiosa: a dos concertos de “Casino” onde as carreiras consagradas parecem ser celebradas com a devida pompa e circunstância. E num dia em que se aplaudiu o Grammy Latino conquistado por José Cid, pensa-se até onde poderão chegar os Dealema que estão já em vésperas de celebrar 25 anos em cima do palco. A par de Boss AC são os mais tarimbados veteranos da cena. E, como diz Maze, os membros desta “escola dos 90” são “Jorges Palmas” e “Sérgios Godinhos”. Arriscaríamos até dizer que os Dealema serão neste momento, e do lado do hip hop, os mais sérios candidatos a Xutos e Pontapés das gerações que, precisamente, nasceram depois dos 90.

O reportório, obviamente, é mais do que conhecido de todos e os Dealema, máquina de palco perfeitamente afinada e oleada, apresentaram-no em blocos: “Mais Uma Sessão”, “Bom dia” e “Provavelmente” (tema de Caixa de Pandora, de Fuse) em que o mais sombrio dos membros do pentágono assegura que deposita muito amor em tudo o que faz. Ninguém duvida.

No segundo bloco, escutou-se “Reconhece e Representa”, com Mundo a chamar a atenção para a autoria do beat, que pertence ao aliado Sam The Kid, “Escola dos 90”, com muita gente nascida já neste milénio a cantar o refrão de viva voz, “O Olho Que Vê Tudo”, o inevitável “Brilhantes Diamantes” (clássico assinado por Serial, dos Mind Da Gap, em que originalmente também pontuava Ace) e “Sala 101”. A última parte do imparável concerto trouxe “A Cena Toda”, tema do primeiro álbum dos Dealema, e“Bairro” (do primeiro trabalho a solo de Expeão, Máscara).

“Nada Dura Para Sempre” e “Fado Vadio” pontuaram o final. Muito curiosa a imagem de uma mãe, de bebé ao colo, a repetir as barras: “Aproveita toda a inocência da infância”… a frase teve uma ressonância particularmente poética naquele momento, discreto, no meio de uma multidão em perfeita sintonia com o que acontecia em palco. E o que é isso? Fuse, Mundo, Expeão, Maze e Guze são uma unidade perfeita, um grupo que se complementa, que circula pelo palco como uma equipa campeã pelos relvados, trocando as barras ao “primeiro toque”, com absoluta elegância, mestria e eficácia, fazendo de cada refrão um golo certo na baliza das nossas consciências.

Ontem, e já não esperando surpresas depois de tantos encontros de norte a sul, como já referido, e perante um som de marca de elevada qualidade e nitidez (Pedro “Pi” Baptista está para os Dealema como Cajó está para os Xutos — é um segredo discreto na constante qualidade que o espectáculo deste grupo sempre assegura em termos sónicos) deu para nos concentrarmos nas vozes. Em primeiro lugar, a “voz” de Guze: os Dealema foram dos primeiros a alcançar um perfeito equilíbrio entre a qualidade sonora dos beats, o som do scratch debitado pelo DJ e as diferentes vozes dos MCs. Ontem, o grupo continuou a soar como se o estivéssemos a escutar num CD, com os certeiros apontamentos de Guze nas rodas de aço a soarem reluzentes como cromados, perfeitamente polidos e elegantemente musicais.

Depois, as “outras” vozes: o barítono sério de Fuse, o tenor assertivo de Mundo, o tom expressivo e poético de Maze e o grão rockeiro de Expeão complementam-se, como malhas de cores diferentes numa tapeçaria. Já não são só as palavras, já nem é acerca da “mensagem”, que todos já conhecemos de cor, mas do cruzamento daquelas vozes, todas de personalidade vincada. É desse entrelaçar das vozes que emerge um verdadeiramente distinto carácter colectivo. Todos os artistas, de hip hop ou de outros géneros, terão a ganhar se prestarem atenção aos detalhes que os Dealema valorizam na sua arte. São eles que fazem a diferença.



E Papillon reconheceu isso mesmo. Quando entrou em palco pelas 23 horas para rematar esta segunda jornada d’O Bairro, pediu barulho para os Dealema e fez questão de explicar que vem de uma “escola muito bonita, a escola do hip hop”. A escola, lá está, em que os Dealema são mestres. E Papillon, claramente, um aluno do quadro de honra.

Com DJ X-Acto, Luís Logrado (baterista) e Miguel Solano (guitarrista) ao seu lado, Papillon levou ontem ao palco da Praça do Giraldo um espectáculo já muito bem rodado, perfeitamente estruturado, em que os músicos se encaixam sem esforço e com naturalidade nas capacidades expressivas do próprio MC, que orienta e dirige o colectivo como um verdadeiro maestro. Ou como um mestre. Sem cerimónias algumas, pois claro. A dinâmica de Papi é diferente da dos seus predecessores, mas não menos eficaz. E isso vê-se num público que mostrou ter na ponta da língua as barras complexas de temas como “I: AM”, “Impulso”, “Imediatamente”, “Imbecis”, “Impasse”, “Imagina”, Metamorfose Pt. 2”, “Iminente” ou “Impec”, tudo capítulos importantes do verdadeiro e justamente celebrado “livro” que é Deepak Looper, objecto musical de pontos nos iis correctamente dispostos que esta geração parece ter “lido” atentamente.

Há lugar para mais no concerto e temas como “Aceso” (debitado acapella) ou “Nunca Pares” (trabalho de Stereossauro que reuniu os talentos de Papillon, Slow J e Plutónio) e o mais recente “Camadas” mostram o artista de Mem Martins a construir resolutamente uma carreira que tem sede de futuro. E a julgar pela forma como se relaciona com o público, esse desejo tem consumação garantida. Com som que também apresentou qualidade vincada (curiosamente, o técnico de Papi, Guilherme Vales, é filho do já por aqui referido Cajó, o “dono” da mesa de som de frente dos Xutos), Papillon partiu, figurativamente, como é óbvio, a casa toda: “Ninguém partiu nada?”, questionou Papi a dada altura, “Está tudo bem? Não é preciso levar ninguém para o hospital?” Não senhor. Neste Bairro cheio de arte na rua só se aleija quem não se proteger devidamente do calor. E a música tem essa capacidade: consegue refrescar, quanto mais não seja, as ideias.

Mais logo este Bairro receberá a partir das 18 horas Mr. Razor (Jardim Público), pelas 21 horas acontecerá o espectáculo O bairro anthiphopopulismo: Badja MC + Paredes em Carne Viva (Praça do Sertório) e, a fechar a noite a partir das 22 horas, Chullage e Allen Halloween subirão ao palco principal (Praça do Giraldo).


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu