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Fotografia: Direitos Reservados

Uma introdução com ajuda inglesa.

Nuno: “Quando comecei a fazer as minhas músicas, senti que seria benéfico partilhar a minha história”

Fotografia: Direitos Reservados

O Verão de 2020 foi mais quente para Nuno: o produtor português colaborou com o rapper britânico Verbz no seu single de apresentação.

“Drowning” é a terceira faixa do alinhamento de The First Chapter, o álbum de estreia que Nuno está neste momento a preparar e para o qual tenciona contar com as contribuições das vozes de outros artistas que consigam veicular as ideias que tem esboçadas. Além da construção dos instrumentais, é da sua cabeça que nascem todos os conceitos para as letras dos temas, procurando contar através da música a sua própria história.

Ligado ao som desde criança, Nuno passou grande parte da sua vida ligado aos instrumentos de percussão. Em 2018 partiu para Londres para estudar produção e tem vindo a aplicar todos os conhecimentos adquiridos na composição do seu primeiro LP em nome próprio. No primeiro avanço, “Drowning”, contou com um colaborador de luxo: Verbz é um MC de Londres que integra os esquadrões da High Focus Records e da Group BraCil, dois selos de culto da esfera boom bap do Reino Unido.

Fomos à descoberta do trajecto da nova cara da produção nacional, que numa troca de mensagens com o ReB abriu o jogo relativamente ao que está a preparar para o seu primeiro trabalho.



A tua estreia como artista em nome próprio é recente mas já levas um passado considerável ligado à música. Fala-me um pouco sobre ti e dos passos que deste até chegares aqui.

Praticamente desde miúdo que a música faz parte da minha vida, em alguns períodos mais presente do que noutros, mas esteve (está) lá sempre. Comecei a ter aulas de bateria aos oito anos, numa escola de música em Bucelas. Era literalmente uma School of Rock, existiam miúdos a aprender todos os instrumentos de uma banda de rock, e os professores formavam bandas compostas apenas por alunos. A melhor parte eram os concertos, em festas da aldeia, festas municipais, carnavais etc. A minha estreia foi aos nove anos numa festa municipal, com colegas da mesma idade a tocar “Contentores”, dos Xutos, para uma audiência de pessoas com o dobro da nossa idade (brutal).

Quem me conhece sabe que não sou de muitas palavras e que sou mais introspectivo (sei que é estranho tendo em conta o tamanho da resposta, mas é verdade), e sempre fui assim. A música acabou por se tornar “um refúgio” que basta pôr os auscultadores para lá estar, e uma forma de me expressar cada vez que começo a tocar ou a fazer uma música.

Aos 11 anos por curiosidade comecei a tocar trompete numa banda sinfónica da minha freguesia. Por acaso o maestro sabia que eu tocava bateria e um ano depois mudou-me para a percussão. Eventualmente entrei no conservatório, e durante esses anos a minha perspectiva do que era música alargou imenso. Numa orquestra tens inúmeros instrumentos, cada um a tocar a sua parte, mas todos coordenados para o mesmo objetivo, isso é único. Tive oportunidade de dar bastantes concertos e até mesmo de estagiar na banda da PSP (nos verões de 2012 e 2013).

Aos 18 entrei na faculdade e acabei por pôr a música mais de lado. O resultado foi chegar ao fim do segundo ano sem motivação nenhuma, estava a sentir que faltava alguma coisa, e mal percebi que era a música, voltei ao conservatório e comecei a pensar no que queria fazer a seguir. Um ano depois estava a caminho de Londres para estudar Produção.

No press release que me enviaste falas de uma mudança para Londres, em 2018, para estudares produção musical. Em que é que o curso e, claro, toda a envolvência com uma nova cidade, contribuíram para cimentares este novo projecto?

Londres tem um ambiente que até hoje não encontrei em mais lado nenhum. Pessoas de todos os cantos do mundo e culturas numa cidade onde parece que tudo acontece primeiro. O curso que lá tirei foi sobre Logic Pro, um software de produção. Embora me tenha dado imensas ferramentas que usei para produzir o álbum, o que me acrescentou mais foram conversas com professores que já tinham imensa experiência na área. Todas as semanas tinha uma hora para mostrar os projetos que estava a fazer a um professor em particular, e em cada sessão tentava absorver tudo o que me diziam.

Grande parte do meu tempo durante o curso (três meses) foi passado no quarto a produzir e a explorar mil e um efeitos e técnicas de produção (graças a deus que existem tutoriais no YouTube). Fora isso tinha os estúdios da escola, que deram para explorar o processo de gravação e mistura, bem como produzir e tocar com alguns colegas. Basicamente o curso foi o ponto de partida de tudo o que veio a seguir.

Denominas-te enquanto percussionista, produtor e liricista no teu perfil no SoundCloud. De que forma é que estas três competências se cruzam na tua música?

Acho que a maneira mais simples de o explicar seja pensar na produção como a peça que une a percussão e as letras. Ter começado na música através da bateria e da percussão desenvolveu uma vertente mais técnica. Ao longo dos anos, ao tocar ritmos diferentes, em instrumentos (de percussão) diferentes e em vários contextos, fez com que fosse abrindo os meus ouvidos e foi como se cada um desses ritmos/técnicas ficasse na minha cabeça à espera de ser utilizado no futuro, seja como os aprendi ou misturados com outros.

A produção ensinou-me a fazer as minhas próprias músicas. Ensinou-me a pegar no que tinha aprendido na percussão e a dar vida às minhas ideias. Sempre tive curiosidade de perceber o que estava por trás das músicas que eu ouvia no dia a dia. A produção deu-me isso também, a capacidade de perceber os vários elementos de uma música, e tirar daí lições para os meus próprios projetos.

Cada música que faço tem uma ideia por trás, algo que quero passar a quem a ouvir. Para mim, o instrumental tem um grande papel a expressar essas ideias, mas fora isso sinto que para me expressar a 100% preciso de complementar os instrumentais com letras. Depois da produção, dedico-me a escrever um género de um esboço da letra da música, do qual se destacam algumas palavras/frases sem as quais a faixa (para mim) não fazia sentido. No caso da “Drowning”, eu e o Verbz falámos sobre o tema da música para percebermos o que cada um estava à espera, e das palavras/ frases do esboço que eu sentia que tinham de lá estar. Ele escreveu a letra e incluiu essas partes.

A ideia de fazer um disco surge em que altura e o que é que alavancou o início do seu processo criativo?

Quando decidi que ia começar a fazer as minhas músicas, a única opção que fazia sentido era contar a minha vida até então, senti que seria benéfico não só para mim, partilhar a minha história, como também o seria para pessoas que estão a passar por situações semelhantes, para sentirem que não são as únicas e de alguma forma perceberem que há solução (pelo menos é essa a intenção).

Comecei a pensar sobre os momentos da minha vida que queria retratar, e sobre os sentimentos/ideologias que queria expressar, acabando por dividir a história em 14 partes, as 14 faixas nas quais a “Drowning” aparece em terceiro. Cada música expressa algo que senti numa determinada fase, por isso todas as faixas acabam por estar ligadas.

Este tipo de projeto, em que consegues ouvir de uma ponta a outra como se fosse o áudio de um filme, é algo que me foi passado acima de tudo pelos álbuns do Kendrick Lamar, e é o conceito com o qual mais me identifico.

Apresentaste o primeiro single desse trabalho, o “Drowning”, em Julho, e logo numa colaboração com o Verbz. Como surgiu a oportunidade de trabalhares com ele?

Depois de produzir e escrever os esboços de todas as músicas, em Agosto de 2019, comecei a pesquisar o mundo do hip hop/rap no Reino Unido. Não tinha noção do quão rico e diversificado era. Comecei por ouvir o Coops, e a partir dele fui descobrindo mais artistas que me surpreendiam cada vez mais. O Verbz foi um deles. No fim de Outubro enviei-lhe uma mensagem no Instagram e a partir daí começámos a falar e a trabalhar juntos.

Dito assim pode parecer uma coisa banal, mas obter uma resposta não era (e continua a não ser) nada comum. Grande parte dos rappers que contactei durante este ano não responderam sequer às mensagens ou aos e mails (quase todos numa fase inicial/intermédia da carreira). Por mais que custe, percebo que é compreensível não responderem, visto que até ao passado mês de Julho não tinha nenhuma prova dada. Mas não deixa de ser algo raro, por isso o Verbz foi uma grande ajuda, e ele sabe que lhe ficarei sempre agradecido por ter colaborado.

Falaste-me há umas semanas na ideia de teres o The First Chapter em stand-by precisamente por estares à espera de encontrar outras novas parcerias para darem voz à tua música. Como é que se estão a processar as coisas? Tens tido abordagens nesse sentido ou tens em mente alguns nomes que sentes que fariam sentido em cima dos teus beats?

Para um artista que trata do processo todo até à voz, e que quer lançar músicas com voz, a parte mais complicada é arranjar algum rapper/cantor para colaborar e acabar o projeto. Calculo que seja assim para muitos artistas como eu, independentemente da fase da carreira em que estão e do reconhecimento que têm, mas, para alguém que acabou de começar a lançar, é bastante complicado chegar a outros artistas. Desde Setembro de 2019 que comecei os contactos, até agora (tirando o Verbz), sem grande sucesso.

Estou a contar que a “Drowning” me dê um pouco mais de visibilidade/credibilidade, e que isso ajude nos contactos. Ou talvez conseguir apoio de algum agente ou editora que consiga abrir algumas portas. Nomes como Tertia May, Bailey Wiley, Kofi Stone, Lia White, Manik Mc, Baba Crunch, Jords, Jeshi, Louis Vi, Coops, entre alguns outros, fariam todo o sentido neste álbum. Embora nunca tenha parado os contactos, nos últimos dias penso ter dado alguns passos em frente, agora resta esperar para ver no que dão.


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