Reconhecida pela sua autenticidade e pela capacidade de cruzar várias influências musicais vindas do rap, do trap, dos afrobeats e do R&B, Nenny tornou-se uma das vozes mais marcantes da nova geração da música portuguesa. Seis anos depois do EP Aura, Nenny regressa agora com ID, um álbum que marca não só uma nova etapa musical, mas também uma transformação pessoal dedicada ao seu crescimento pessoal e artístico.
Numa chamada por Zoom, falámos com a artista sobre os bastidores da criação deste que considera ser o seu álbum de estreia, em que se mostra ao público com a mesma essência de sempre, mas com outra maturidade.
A intro do álbum começa de uma forma muito clara: estou aqui e agora e esta é a minha arte. Na primeira música, “ID”, fazes imensas menções a músicas já criadas — “Lion”, “Dona Maria”, “21”, “Sushi”, “Tequila” e “Bússola”. Este álbum marca uma nova era, mas sentiste que era importante entrar nesta fase mantendo uma ligação à Nenny que já conhecemos? Mostrando que há evolução, mas também é uma continuidade de onde começaste?
Sim, sem dúvida. Ou seja, eu basicamente na intro usei o áudio do Charlie Beats e do Gson, que foram as duas pessoas que acreditaram em mim, no início, que me deram a gravar. E depois, passo para a música “ID”, em que estou a mencionar todas as músicas que as pessoas conhecem, o “Tequila”, “Sushi”, “Bússola”, “Dona Maria”. E estou, basicamente, a agradecer o momento que eu tive e estou a falar um bocadinho com a Nenny de 16 anos, sabes? É um bocadinho agradecer-lhe e dizer obrigada por isto, mas agora vou começar um novo ciclo — vai ser o “ID” e todas estas músicas que estão no álbum, que têm a essência da Nenny de 16 anos, mas já têm outra maturidade da Nenny de 23. Sim, na realidade, está lá a ligação.
O público conheceu-te com 16 anos e depois houve, claramente, um respeito em relação ao tempo, que sinto também que serviu para ti própria enquanto espaço para a tua criatividade florescer. Quão importante consideras que foi o tempo que estiveste fora dos holofotes para a construção deste álbum?
Eu diria, mais ou menos, ali quase dois anos. Não foi bem dois anos, mas foi quase, porque eu lembro-me, lá está, de sair da label independente em que eu estava em 2022, da label pela qual lancei todos os sons que as pessoas conhecem. Depois estive ali num momento assim, de crise, um bocado de identidade, sabes? Era do género: eu sei o que sou, mas ainda não sei bem como meter isso para fora e como mostrar às pessoas. Então eu ia ao estúdio, não gostava da minha voz, não gostava do beat… E depois os produtores pediam: “Nenny, mas faz lá a vibe igual a este artista, porque é o que está ‘a bater agora.'” E eu dizia “não consigo, não vai dar, tenho de recuar.” E isso foi muito importante para mim, para o meu processo criativo e de também conseguir perceber uma Nenny com muito mais maturidade. E disse a mim mesma: “Não, eu vou conseguir ser a Nenny no momento certo, eu vou voltar e vou lançar as músicas certas, porque agora não dá, não consigo ser outra pessoa, não consigo ser uma boneca da indústria. Eu vou voltar quando eu quiser e quando eu me sentir bem.” E foi o que aconteceu.
Eu acho que isso é um ato muito corajoso. Ficar um tempo fora, sabendo que existem muitas expectativas lá fora e que há muita pressão e ainda assim ficares fiel a ti mesma. Durante esta altura em que tu ficaste mais numa reflexão interna, em que momento é que tu percebeste que direção é que tu querias seguir? O que é que desbloqueou criativamente o álbum que está aqui agora?
O que me ajudou muito foi o facto de eu ter ido aos Estados Unidos e ter experimentado vários géneros musicais diferentes. Eu antes de ser artista sou ouvinte e gosto muito de ouvir vários géneros de música. Fui para os Estados Unidos e fiz coisas completamente diferentes. Fiz house, fiz dancehall, fiz reggae. E então isso voltou-me a dar gosto, voltou-me a dar aquela ansiedade de fazer música, aquele feeling genuíno que eu sentia no início da minha vontade de ser artista. Isto é o meu sonho e quero que as pessoas ouçam a minha música. Isso ajudou-me bastante, e o facto de eu também ter, simplesmente, crescido. Imagina, eu comecei com 16, e ali aos 19/20 foi mais ou menos quando eu decidi recuar um bocadinho. Eu já estava a sentir que era muito estúdio, concerto, concerto, estúdio e nós para contarmos histórias e termos músicas para as pessoas se identificarem também temos de viver. Naquele momento que parei, tirei a carta, comprei uma casa, comprei um carro. Ou seja, coisas que adultos fazem e que eu tinha de fazer, estar com a minha família, os meus amigos, simplesmente existir e viver a vida e não ter aquela cena de “já tenho de lançar um som”. Eu tenho de fazer dinheiro, óbvio que eu tenho de sobreviver, mas antes de mais eu tenho de viver. Se eu morrer amanhã não levo nada, não é? Então, eu pensava muito nisso, que tenho de experienciar coisas, e eu acho que este álbum foi literalmente uma experiência. Um álbum de experiências que eu meti e que eu decidi lançar e disse: “Ok, provavelmente as pessoas vão se identificar porque eu tenho histórias para contar.”
Sim, sem dúvida. É importante vivermos. E eu também acho que é um aspeto muito importante em relação à saúde mental e, acima de tudo, à tua estabilidade. Porque acho que depois é muito mais fácil para, por um lado, tu conseguires criar algo que tu gostes, mas também, por outro lado, para as pessoas se conseguirem identificar e se reverem nas tuas músicas, porque eu acho que a música tem o poder nos conectar uns aos outros e nós sentimos que não estamos assim tão sós. Portanto, essa também é um bocadinho a tua missão com a música que tu fazes, não é?
Sem dúvida, é o meu propósito. Eu faço música para tentar inspirar outras pessoas. E é como eu digo: eu gosto de fazer isto, é uma terapia para mim e eu vou estar aqui o tempo que for, enquanto as pessoas decidirem que eu devo estar aqui. Mas eu vou sempre fazer música para mim mesma, porque é a minha maneira de superar, de lidar com os problemas, é a minha maneira de me curar, não é? E por isso é que eu escrevi o “Sarar”, que é a última música do álbum, que é uma carta para mim mesma. Eu sei que eu vou ser a única pessoa que vai me conseguir sarar, que vai acreditar em mim e ser a minha própria heroína.
Acho que essa tua força se nota bastante no teu regresso visual, que vem marcado de forma muito afirmativa. A capa do álbum é um bilhete de identidade, em várias cores: Marlene nascida a 19 de novembro de 2002, cidade V-Block e é positiva, fashionista, confiante e musicholic. Uma fotografia em que estás com uma make-up inspirada nos anos 2000s e que se sente uma girly, com atitude, uma boss. A identidade visual é um aspeto que valorizas muito e que consideras muito importante enquanto artista, até para a tua própria performance. De que forma a construção e apresentação do teu lado estético ajuda a dar a conhecer esta tua nova fase?
Olha, é super importante para mim, porque eu sou uma girl da moda, eu adoro moda, faz parte da minha cena, da minha identidade, da minha imagem enquanto artista, sejam perucas, make-up, o look. E eu decidi para este álbum criar um sentimento. Nós temos o nosso cartão de cidadão, temos os nossos dados que são realmente um facto, mas são dados que nos são dados pelo Estado, ou seja, são informações de Estado. E às vezes não é só isso que faz a nossa identidade, sabes? É tipo, eu vou dar a minha versão do meu cartão de cidadão às pessoas, das minhas cores, do roxo, que eu sinto que é a minha energia masculina e feminina. Eu sinto que o roxo tem esta cena girly, mas também tem um lado assim mais masculino que faz todo o sentido na minha personalidade. As cores já apareciam na capa do EP Aura que eu lancei em 2020, já tinha ali uma reflexão de cores. E eu, ao ouvir música, vejo cores, então é super importante para mim representar no álbum estas imagens, estas cores, para as pessoas também associarem-me a alguma estética. Na verdade, eu acho que é super importante para a imagem.
Sim, faz-me todo o sentido. Olha, uma questão: tu optas por colocar o nome “Marlene” e não “Nenny” na tua identificação. Isto quer dizer que a Nenny canta com base nas experiências da Marlene? Qual é a relação que há entre uma e outra?
Olha, boa pergunta! Portanto, eu decidi meter Marlene, porquê? A Marlene é literalmente a menina com vários sonhos e que sempre sonhou ser a Nenny, e depois temos a Nenny que realmente está a conseguir realizar os sonhos da Marlene e que consegue dar voz à Marlene, é este lado mais vulnerável. Um dos temas chama-se “Prioridade”, que é a música que eu gravei a falar da relação com o meu pai. Isto é muito Marlene, na verdade. A Nenny é mais “Sushi”, “Bússola”, é aquele lado artístico que a Marlene sempre sonhou ser, mas depois tens mesmo a Marlene que fala de temas super importantes como o amor próprio — o “Hero”, o “Sarar”, o “Prioridade” —, temas que me tocam e fazem realmente ser a pessoa que eu sou. É super estranho porque eu estou a falar literalmente da mesma pessoa, mas por exemplo, eu fui a Cabo Verde com a minha família, fomos de 2024 para 2025 ou 2023 para 2024, agora já não me lembro bem, e eu fui só em modo Marlene, ou seja, eu só queria estar com a minha família, os meus amigos, curtir, sair. Só que eu ia a eventos, ia a festas e não era vista como Marlene, era só vista como Nenny. Sou a Marlene com a minha família, mas depois há momentos que é do género: eu sou a Nenny e só quero ir para casa, estar no meu sofá, ouvir música e ser a Marlene. Então há muito esta relação de as duas terem a mesma essência e a Nenny não é ninguém sem a Marlene, porque a Marlene é que é a verdadeira pessoa e a Nenny é só a Marlene com mais garra, mais confiança, é o sonho, sabes? E é o sonho que se está a tornar realidade agora, e não só aos 16 anos, e fico super, super feliz de conseguir ter esta relação e concretizar. Ou seja, construir este amor próprio, esta fase adulta em que eu estou. E eu penso assim: eu vou envelhecer, mas eu ainda não estou no meu prime, o meu prime ainda vai chegar.
Exatamente. Eu sinto que é uma identidade, mas depois tu desenrolas-te em várias facetas, tal como a tua música. Em “Fácil” dizes “seja pop, rock, fado eu faço” e que “ninguém me vai resumir só a afro, rap, R&B, trap porque o ADN da música é preto”. O que é que significa para ti esta questão do ADN da música ser preto?
Toda a música comercial que nós ouvimos tem ADN preto, tem ADN de uma comunidade negra, seja comunidade negra em Portugal, seja na diáspora, seja afro-americano, africano, das Caraíbas… A comunidade negra tem sido o ADN da música comercial que nós ouvimos, e muitas das vezes metem-me numa caixa de rapper, numa caixa de R&B. Eu nunca posso ser pop, porque sou uma artista negra e tenho de fazer R&B, rap… Não! Eu posso ser pop, eu posso ser fado, eu posso ser o que eu quiser, porque o ADN da música vem de uma comunidade negra, seja em qualquer lado do mundo, e eu acho que às vezes temos tendência a esquecer isso, porque há muitos rótulos, as pessoas querem sempre meter artistas classificados por cor, classificados por origem, e não é assim de todo, não deve ser isso que deve acontecer. Eu quero que as pessoas me vejam mais como uma artista que faz rap, mas que também canta, que faz R&B, que faz uma balada, que faz um afro, um funaná, mas é sempre a Nenny. Essa é a essência da Nenny, então não há um género musical. O meu género musical é ser Nenny e é isso que eu quis representar na música “Fácil”.
Também neste aspeto eu sinto que, em termos de lusofonia, o teu álbum vem afirmar um espaço muito importante. Sentes alguma responsabilidade em criar este lugar de orgulho para quem se revê nesta vivência? Pegando aqui também na tua afirmação enquanto mulher negra?
Sim, obviamente o meu objetivo é inspirar meninas como eu, como nós, e dizer-lhes que é possível estarmos onde nós estamos. Não há trabalhos que só nós é que podemos fazer. A minha família veio de Cabo Verde muito cedo e temos muito aquele rótulo de que mulheres negras imigrantes têm de ser empregadas. Não têm de o ser. Podem, claro que podem, mas não têm só de ser isso, também temos outras oportunidades, e eu sou uma prova disso, tu és uma prova disso, e vamos inspirar outras meninas negras também a pensarem que é possível.
Sim, complemente. Espaço de orgulho também é muito observado numa frase que temos ouvido muito nas últimas semanas, entre várias gerações: “Eu quero um preto, fiel com o talento, sem ego e sem medo, que traga sossego.” Diz-me uma coisa, estavas à espera que esta música viralizasse tanto como viralizou?
Não, não, não, não. Não estava nada à espera, tanto que essa música não era para ser um single, era para simplesmente sair no álbum. Quando eu fiz aquele vídeo que viralizou, com a reação da minha mãe, porque eu achei super engraçado, eu disse: este som vai ser o momento engraçado do álbum, que é do tipo, é a Nenny a dizer que quer um preto com rasta, fiel, com talento — vai ser super engraçado. Eu disse: ok, vou fazer uma reação da minha mãe e ver o que é que ela acha, né? Mãe africana, vamos ver como é que ela reage. Pronto, reagiu como reagiu, viralizou, e a partir desse vídeo as pessoas começaram a fazer várias trends, a criar trends, a fazer vídeos, e eu fiquei do género: ok, vou ter de lançar isto, não tem como, as pessoas estão a aderir super bem, vai ser uma boa publicidade também para o álbum, é tipo, “hey guys! o álbum está a caminho”, e do nada foi um boom e as pessoas estavam sempre — e ainda estão — a falar sobre isso, e eu fico super contente porque não era, de todo, uma estratégia de comunicação.
Neste álbum há uma particularidade interessante, que é: nós conhecemos um lado teu mais romântico e vulnerável, e em várias faixas tu dás-nos a conhecer uma Nenny aberta à desilusão, à expectativa, à complexidade do amor. Como é que foi para ti trazer este lado para a música assim mais vulnerável?
Olha, foi bom, porque eu sinto que no EP Aura não tinha tanto este lado, tinha aquela vibe mais confiante, mais sobre aspetos de vida, e eu acho que agora consegui trazer outro aspeto diferente da minha perspetiva enquanto pessoa, e eu baseei-me muito nas minhas experiências, aquilo que aconteceu comigo, relações que eu tive, vários pensamentos também. Portanto acho que foi fixe meter isso no álbum para as pessoas também conhecerem essa Nenny que fala mais de romance, que fala de relações com a família, com os amigos, acho que é super importante também as pessoas conhecerem isso quando falo sobre a minha identidade.
Há um pequeno detalhe que sinto que se destaca muito no álbum, que é em relação à última faixa e que vem também buscar aqui a questão da tua identidade, as tuas origens, dos anos que estiveste mais ausente, e o teu envolvimento com o amor. Tu fazes referência à música “Tem Fé”, de um dos grupos mais clássicos da música caboverdiana, os Splash!, portanto, ao recuperares essa referência e tendo em consideração as tuas origens e tudo o que tu tens vivido, sentes que a fé sempre foi uma constante no teu percurso e continua a ser uma ferramenta essencial para ti, e igualmente para nós que te ouvimos, dando-nos margem para sonharmos também?
Sim, ou seja, eu quando gravei a música, lá está, é uma música super íntima, é a minha favorita do álbum, porque é uma música de que eu realmente gosto da melodia, da letra e eu decidi meter essa faixa. Para já, é uma faixa que toda a minha família adora e os cabo-verdianos conhecem muito bem essa música, cantam e adoram, e foi uma das faixas que marcou muito a minha família e a nossa história. Eu lembro-me de, nas férias que eu te mencionei em que fomos a Cabo Verde (eu nunca vou tirar esta imagem da minha cabeça), esta música começou a dar e a minha família toda se levantou e começámos todos a cantar. Esta música é super importante para mim, marca muito a minha memória, tem um feeling super bom. Eu sinto amor, sabes? Ouvir esta música é também uma mensagem super importante para a minha carreira, eu acho que eu não ia fazer nada sem ter fé e não consigo fazer nada sem ter fé na minha arte, em mim mesma, nas coisas que eu defendo. É uma música super gira que me define super bem a mim e à minha família, portanto foi super importante para mim ter incluido essa pequena atenção que, para quem conhece, é grande.
Sim. No meu caso, que também tenho origens cabo-verdianas, conhecer essa referência foi muito emocionante e impactante, uma excelente forma de terminar o álbum. Conhecemos a Nenny a partir do hit “Sushi”, aos 16 anos, seguindo-se o EP Aura, concertos e performances em plataformas como o A COLORS SHOW e o Tiny Desk. Hoje, aos 23, apresentas-te numa fase mais adulta e com uma maturidade artística evidente. Neste percurso que temos acompanhado e sendo este álbum o teu bilhete de identidade, qual é a principal coisa que ele revela sobre quem és hoje?
Super boa pergunta. Eu diria que revela a minha vontade de viver o sentido da vida para mim. Eu diria que eu sei que vou ouvir o álbum e vou ouvir certas músicas com 50 anos e lembrar-me de quando eu tinha 20 e tal e estava com os meus amigos a minha família. Eu descrevia isto como um sentido de vida para mim.