Musikmesse, Frankfurt: as ferramentas que fazem a diferença no clube e na esquina

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Direitos Reservados

Os números, como sempre, impressionam: mais de dezena e meia de áreas de exposição, todas de grandes dimensões, seis zonas para concertos e apresentações, múltiplos espaços de eventos — de uma Guitar Boutique Village a um Sound & Recording Lounge — mais zonas devotadas a conferências e seminários — do Futuro do áudio e das tecnologias da música ao Ensino da música, algo vital para o futuro deste mercado. Tudo junto dá, pois claro, mais uma massiva edição da Musikmesse, um evento capaz de esmagar qualquer um, uma autêntica cidade da música espalhada por muitos milhares de metros quadrados: no avião que saiu de Lisboa na terça-feira, dia de arranque da feira em Frankfurt, Alemanha, dois visitantes em conversa adiantavam que “o truque para uma vinda bem-sucedida é não nos distrairmos, estarmos focados nas reuniões, senão uma pessoa perde-se”. Verdade. Mas cada um apontará o seu foco ao que quiser. Ou precisar.

Há umas quantas edições atrás percebia-se o esforço da feira se abrir aos promissores mercados asiáticos, com convites formais a múltiplas delegações, sobretudo vindas da China. Este ano percebe-se já claramente o peso do gigante asiático, com inúmeros expositores em todas as áreas a apresentarem produtos que, no entanto, já não se quedam apenas pelas reproduções mais baratas de produtos ocidentais. A Musikmesse, aliás, tem agora uma extensão na própria China, com a realização de um evento similar em Xangai em Outubro próximo, antecipado por outro na Rússia, em Setembro.



Para o universo musical do Rimas e Batidas, há áreas dentro do Musikmesse que são, obviamente, o equivalente a uma criança dar de repente por si no meio de uma gigantesca loja de brinquedos. De uma Audio Maker Square em que pequenas companhias apresentam pequenos sintetizadores modulares, uma tendência que muitos músicos nos domínios da electrónica têm abraçado, a um DJ Con ou Sample Music Fest. No momento em que apanhámos uma das actividades do Sample Music Fest, curiosamente, dois produtores usavam novas MPCs da Akai para retrabalharem um groove de um clássico de Michael Jackson, talvez uma reacção à estupefacção recente após as revelações vindas a público com o polémico documentário de que toda a gente fala. Reinventar Michael Jackson é preciso, parecem dizer. Ou talvez simplesmente não lhes tenha ocorrido melhor exemplo para demonstrarem as virtualidades daquele equipamento.

E muita coisa é possível fazer, de facto. Entre as inúmeras estreias ou apresentações de novos ou recentes equipamentos, podemos (e devemos…) destacar a Rane Seventy Two, verdadeira estrela da feira que justifica sempre a fila de curiosos com vontade de tocar num destes artefactos que parece saído de um filme de ficção científica e que poderá implicar a um DJ que procure uma ferramenta para integrar com o seu uso do Serato um investimento na ordem dos 1800 euros. A Rane parece ter resistido ao facto de estar agora a ser fabricada na Ásia e toda a gente parece concordar que isso não se reflectiu na construção da Seventy Two, uma mesa que os DJs podem transformar numa ferramenta criativa de possibilidades incríveis ao vivo num clube. Numa era de fácil e imediato acesso à música, um factor que qualquer DJ que busque a diferença não poderá descurar é a possibilidade de modificar, alterar, reinventar o mais recente banger. E isso a Seventy Two permite fazer, como pudemos comprovar.



Há outra coisa curiosa. Outra apresentação central no Sample Music Fest foi o da nova MPC Live Standalone (cerca de 900 euros), que a própria marca descreve como um equipamento que “proporciona a funcionalidade de um estúdio de som, mas que não requer um computador ou sequer uma ligação eléctrica”. Interessante, certo? Na zona Agora, em que múltiplas ofertas de street food fazem convergir muitos dos visitantes e feirantes, dois jovens produtores com t-shirts alusivas ao Sample Music Fest ilustram, ao ar livre, as potencialidades da MPC Live. Ligados a uma coluna portátil (e são incríveis as ofertas disponíveis nesta área dos pequenos sistemas de som autónomos — há inclusivamente um apresentado como uma mochila!), ele e ela trocam beats perante a indiferença generalizada. Ao ReB confessam depois: “se não conseguirmos vender beats online, podemos sempre ir para o meio da cidade tocar”.

De facto, a fértil cena de “música de rua” que o turismo impôs em Lisboa (há bandas e músicos de todos os géneros, entre o Chiado e a beira do rio, a tocarem para quem se senta nas esplanadas, sete dias por semana…) pode vir a alargar-se: aos músicos que, sozinhos ou em grupo, tocam peças de música clássica, blues, pop, jazz ou bossa nova, poderá, num futuro próximo, juntar-se quem, com uma destas MPC Live e uma coluna portátil, possa tocar as suas próprias versões de “standards” de Sam The Kid ou Mind da Gap, de Snoop Dogg ou Drake. O beatmaker de hip hop era até agora muitas vezes descrito como “bedroom producer”. Pois bem, a tecnologia que permitirá a esta geração de fazedores de beats sair do quarto já existe. E “streetcorner beatmaker” também não soa nada mal, pois não?


2019 Musikmesse
Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu