Mr. Bongo: África, Brasil e Japão em reedições certeiras

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Temos falado com alguma frequência no catálogo da Mr. Bongo, algo que se justifica perfeitamente com a qualidade que esta etiqueta tem vindo a apresentar em anos mais recentes e também com a frequência com que se expande em termos de lançamentos. Aqui entre nós: faz algum sentido. É que a Mr. Bongo nasceu da melhor maneira, foi loja de discos antes de ser editora, teve anos para medir o pulso dos gostos de um público que sempre se definiu no espaço que existe entre a memória e o futuro, entre os discos que as décadas do passado geraram e aqueles que, feitos no presente consciente dessa história, acabam por influenciar o futuro. Pensem, por exemplo, em Kaytranada a samplar Gal Gosta em “Lite Spots”, tema retirado de Índia, álbum de 1973 que, certamente não por acaso, a Mr. Bongo já reapresentou ao presente: de repente, as pistas de dança contemporâneas deram por si a balançar ao som de música que foi criada e editada muito antes dos corpos que ocupam essas pistas terem sequer nascido. Se algum desses corpos der ordem ao cérebro para investigar de onde vem aquela voz ali samplada, o mais certo é que acabe a cruzar-se com a reedição que a etiqueta londrina em boa hora disponibilizou.

Em breve – e por aqui haveremos de dar conta desse passo, caso se venha a confirmar –, os caminhos da Mr. Bongo e de Portugal poderão até vir a encontrar-se. O que será, com certeza, algo de positivo: estarmos perto de um catálogo tão rico, que tanto tem dado ao presente, só poderá ser entusiasmante. É que em todas as coordenadas do passado que esta editora tem vindo a explorar há argumentos que o presente não pode nem deve esquecer.

Desta vez, olhamos para os mais recentes lançamentos com que a Mr. Bongo expande um catálogo fundo — e com que celebra três décadas de existência –, com propostas que se alargam da África mais ritmicamente vibrante ao Brasil que nos 70s e 80s encontrava no centro da discoteca a liberdade que provoca avanços; pelo meio, há ainda um par de lançamentos que provam que o Japão afinal também tinha algo de eminentemente tropical no seu ADN.



[Vários] Mr. Bongo Record Club Volume Three

DJ Tool por excelência, este terceiro volume do Record Club da Mr. Bongo apresenta uma espécie de resumo da matéria dada: são 20 faixas de música apontada ao centro da pista, começando no Brasil de J.B. de Carvalho, Trio Ternura, Alcione ou, entre outros, Tobias e Os Flippers, se prolonga pelo mundo iluminado a bola de espelhos dos Spaceark, Pure Release ou Luther Davis Group antes de mergulhar no Japão de Marumo Khomo e da Tokyo Academy Philharmonic Chorus Group e de espreitar a África de Gyedu Blay Ambolley e de concluir com um salto à América do recentemente malogrado Galt MacDermot. Estas compilações promocionais da Mr Bongo reúnem edições presentes e antecipam outras que em breve despontarão no catálogo, pelo que são guias preciosos. E óptimos trunfos para qualquer DJ set que pretenda incendiar uma pista com a luz que a memória projecta no presente.




[Minoru Muraoka] Bamboo

O Discogs revela que a aquisição de uma edição original deste álbum japonês de 1970 implica o dispêndio de uma quantia próxima de um ordenado mínimo e que até a reedição da parisiense Superfly, de 2014, já obriga a um investimento na ordem dos 100 euros, pelo que a reposição da Mr. Bongo é mais do que bem vinda. Como Dave Pike na Alemanha mais ou menos na mesma época, também o flautista Minoru Muraoka – popular executante da flauta de bambu “shakuhachi” – usava uma sonoridade “exótica” para emular os sons pop que chegavam do ocidente: temas como “Take Five” de Dave Brubeck, “The House of the Rising Sun” dos Animals ou “Scarborough Fair” de Simon & Garfunkel merecem aqui arranjos de jazz-funk imaginativos e vibrantes, com o tema “The Positive and the Negative” a revelar-se um poço sem fundo de samples já aproveitados por gente como Logic, tal a sua diversidade e qualidade. Saberá bem meter no prato por menos de 20 euros um disco que até há pouco obrigaria a um investimento considerável.




[Akira Ishikawa] Back to Rhythm

Perto de mil euros por uma cópia original do álbum de 1975 deste baterista que, tal como no caso de Bamboo de Minoru Muraoka, aborda o reportório pop ocidental em busca dos pontos de partida para versões carregadas de grooves executados por músicos de calibre elevado, os Count Buffalos, grupo que merece igualmente a vossa atenção. “Bongo Rock”, “Do It Til You’re Satisfied”, “Hey Jude”, “El Condor Pasa”, “Boogie On Reggae Woman”, “I Shot the Sheriff”: os doces aqui presentes são viciantes, presentes em versões carregadas de breaks e de arranjos que puxam pela funkyness e portanto perfeitos para DJ sets em que se queira puxar por versões diferentes de clássicos que todos gostam de dançar. Interessante perceber que em plena febre de reedição de material japonês, a Mr. Bongo está a explorar um ângulo bem diferente daquele eleito pela maioria.




[Ebo Taylor, Pat Thomas & Uhuru Yenzu] Hitsville Re-Visited

Gana, 1982: Ebo Taylor a liderar os arranjos com a guitarra mais elegante do lado de cá do alfaiate de James Bond, George Amissah a espalhar charme com um saxofone carregado de luz e Pat Thomas a comandar o microfone com a classe que fez dele uma referência maior. Um original, quando aparece, fica pelo preço de uma boa mariscada para quatro pessoas, pelo que a reedição que a Mr Bongo agora propõe é, como todas as outras, bem vinda e necessária. Highlife que rende sempre momentos de descontração absoluta na pista, com balanço, lirismo e calor e brilhantismo técnico e tudo o mais que se possa exigir num disco com estas características. E som límpido, o que também é importante.




[Rob] Rob

Tal como Hitsville Re-Visited, este trabalho homónimo de Rob, pianista nascido em Accra, também foi editado na Essiebons, um dos principais selos do Gana. O exemplar original de 1977  actualmente disponível no Discogs custa “apenas” dois mil euros (e, vá lá, garante o vendedor que está VG+), pelo que a reedição da Mr. Bongo a preço de amigo fará certamente sorrir todos os que não dispensam ter esta música em vinil. O facto de este álbum ter sido disponibilizado no mercado presente praticamente ao mesmo tempo pela alemã Analog Africa e pela britânica Mr Bongo diz muito do seu estatuto de “holy grail”. “Funky Rob Way”, o tema de abertura, é uma bomba de mel para a pista, tão pegajosa que é impossível largá-la. “Boogie On” ou “More” são outros argumentos de peso num álbum que, bem vistas as coisas, só tem bombas assinadas por um artista que aperfeiçoou o seu talento no Benim com a Orchestre Poly Rythmo e que depois projectou a sua carreira a partir da capital do Gana, tendo também gravado na Nigéria. Obrigatório.




[Gyedu Blay Ambolley] Ambolley

Depois de ter relançado o muito cobiçado Simigwa, a Mr. Bongo volta ao terreno do ganês Gyedu Blay Ambolley para reeditar o seu segundo álbum, Ambolley, originalmente lançado em 1982. Não tão valorizado no mercado de coleccionadores como a sua estreia de 1975, este álbum, ainda assim, implica o investimento de cerca de 200 euros por uma cópia em condições, pelo que, uma vez mais, a reedição mais do que se justificar, aplaude-se, pois claro. Highlife informado pela escola disco americana, apontado às modernas pistas de dança de Accra na década que viu nascer a MTV. Músicos de classe, gravação de qualidade, valores de produção decentes, fazem deste disco um óbvio candidato à vida futura que este relançamento agora justifica. Guitarras, baixo ondulante, sintetizadores escorregadios… está lá tudo. E o reportório ajuda a explicar porque Ambolley continua a pisar palcos, do alto dos seus 72 anos.




[Azymuth] Águia Não Come Mosca

Primeira entrada para o grupo de José Roberto Bertrami, Ivan Conti e Alex Malheiros no catálogo da Mr. Bongo. Este álbum de 1977, o segundo do grupo (terceiro, na verdade, se contarmos com a banda sonora de O Fabuloso Fitipaldi repartida com Marcos e Paulo Valle) foi o ano passado relançado pela brasileira PolySom e agora chega ao mercado europeu pela mão da Mr. Bongo. O álbum é um dos pináculos do som de fusão aperfeiçoado pelo grupo, grooves luxuriantes, embalados em strings sintetizadas, com instrumentistas de primeira água, capazes de rivalizar com projectos como os Weather Report ou os Return to Forever de Chick Corea que despontaram na mesma época. Flying Lotus ou Wun Two são dois dos produtores que pilharam este álbum em busca de samples relevantes para a ciência rítmica do presente. E escutando “Circo Marimbondo”, verdadeira pérola de pista de qualquer era, bem se percebe que o tenham feito.




[Os Novos Baianos] É Ferro na Boneca!

Delírio tropicalista dos Novos Bahianos de Baby Consuelo, Moraes Moreira e Pepeu Gomes, em 1970, quando a liberdade ainda era uma miragem e a modernidade uma luta constante. Mas como se percebe pela pressão rítmica de “Colégio de Aplicação” ou de “Dona Nita e Dona Helena”, os Novos Bahianos entendiam com que batida se deveria sonhar com o futuro. O grupo cruzava inteligentemente a MPB, o baião e o samba com o rock aprendido a escutar discos dos Beatles e de Jimi Hendrix e de tudo o resto que aterrava em Salvador vindo da São Francisco hippie ou da Londres swingante. Registo fundamental de 1970 que retém toda a sua vibrante energia quase cinco décadas depois. Uma vez mais, bem mais acessível a reedição do que os originais que andam pelos 200 euros quando aparecem em óptimo estado.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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